Capítulo Cinquenta e Três: Aprendendo a Andar de Bicicleta
Nem todo filho de rico vive sem preocupações, gastando dinheiro como se não houvesse amanhã. Eu mesma já cheguei a duvidar se aquela que encontrei não passava de uma falsa herdeira.
— Alteza, não me diga que... — senti um nervoso inexplicável.
— Empresta pra mim, eu te devolvo — ela franziu levemente as sobrancelhas, balançando meu pescoço com um gesto manhoso.
Diante das suas birras, eu simplesmente não tinha forças para resistir! Se não a tivesse conhecido no evento anual em Cantão, teria certeza de que era uma vigarista.
Transfiro os oito mil reais para Trancinhas, que só então, a contragosto, nos conduz ao autódromo.
Ele levanta uma lona azul, revelando uma motocicleta superestilosa, cujo brilho reluzia sob os holofotes.
— Isso... É uma Harley? — eu até entendo um pouco de marcas famosas, e embora não soubesse exatamente quanto valia aquela moto, era evidente que oito mil reais não eram nada diante dela.
— É minha... minha... minha... — a filha de rico correu até a moto, passando a mão pelo peito como se estivesse remando. — Esta moto é minha!
— Sua?
— Claro!
— E você sabe pilotar?
— Não! Por isso te chamei.
— ...!
Compreendi então toda a história e me sentei para testar; a sensação ao toque era excelente.
Trancinhas, com cara de poucos amigos, jogou a chave na moto e voltou para a tenda. A herdeira, com um sorriso malicioso, gritou para ele: "Tchau, chefe!", depois pôs o capacete e me apressou para irmos logo.
— Para onde vamos? — olhei ao redor, totalmente perdida sobre as ruas próximas.
Ela montou na moto, envolveu minha cintura com os braços e apressou: — Não importa! Onde houver estrada, seguimos!
— Não vamos ser paradas pela polícia? — perguntei, preocupada.
— Não.
— Tem combustível suficiente?
Levantei a viseira, procurando o marcador de combustível, mas não sabia identificar qual era.
Ela deu um tapa forte nas minhas costas e gritou: — Para de perguntar besteira! Pisa aí...!
Aceleramos, cruzando pontes, elevados, túneis e florestas, o vento zunindo, folhas voando, até que paramos numa estrada perdida entre montanhas. Olhei o mapa e vi que já estávamos longe demais da cidade; se avançássemos mais, o combustível realmente não daria.
— Vamos parar por aqui! Temos que achar um posto de gasolina — tirei o capacete e falei com ela.
A herdeira ainda vibrava de excitação, saltou da moto, tirou o capacete e gritou para o bosque.
— Lu Xia, você sabia? O maior feito da minha vida foi ganhar essa moto! — disse ela, orgulhosa, e de repente olhou para mim: — Quer saber como ganhei?
— Não quero — respondi secamente, indo até a grade da estrada. Do outro lado, algumas casas no morro tinham luzes tênues, como fogos-fátuos flutuando na neblina.
Ela bufou, abraçou o capacete e virou de costas para mim: — Sabia que você ia responder assim, que chato!
O vento da montanha soprava, mas não trazia frio algum.
— Lu Xia, onde vamos deixar essa moto amanhã? — perguntou ela, franzindo a testa.
— Como vou saber? É sua.
— Não dá pra deixar na faculdade e eu nem sei pilotar — fez biquinho, desolada.
— Você não devia ter pego essa moto — comentei, olhando-a de novo, sentindo uma estranha compaixão.
— Melhor vender, então — sugeri.
— Some daqui... — ela me lançou um olhar atravessado, fitando o horizonte, pensativa.
— Lu Xia, que tal você pilotar até Hefei? — de repente olhou para mim, seríssima.
Fiquei sem palavras. No meio do inverno, atravessar quatro estados numa moto, mais de mil e seiscentos quilômetros? Eu só faria isso se tivesse perdido o juízo.
— Alteza, acho que você não percebe o quanto sou pobre. Se eu levasse para casa, ia dar um jeito de vender.
— Não tem nota fiscal, não dá para vender!
— O quê?
Ela sorriu, deu tapinhas no tanque e disse: — É produto de contrabando.
Entendi tudo. Uma moto daquele valor, sem dono, só podia ter origem duvidosa!
— Meu Deus! Ainda bem que não fomos parados pela polícia, senão você teria acabado comigo!
Olhei com receio para aquele trambolho e perguntei: — É assim o mundo dos ricos?
— Eu sou a mais comportada — encostou-se à grade, olhando a lua. — No ano passado, quando vim estudar em Chengdu, meu pai comprou um apartamento em frente à faculdade para eu morar, com empregada e tudo. Mas mesada... ele controla cada centavo!
— Se eu fosse seu pai, faria o mesmo — concordei.
Ela revirou os olhos e continuou: — Você não entende! Deixa pra lá, não adianta explicar.
A herdeira ficou um pouco abatida, depois se pôs na ponta dos pés, olhando para a estrada que subia a montanha: — Lu Xia, essa estrada vai até o topo!
— Sim.
Ela mordeu o lábio, analisando ao redor, e então sugeriu com animação: — Essa estrada é larga, você pode me ensinar a pilotar!
— O quê?
Ela deu a volta na moto, segurou o guidão e voltou-se para mim, decidida: — Vai me ensinar ou não? Eu já te ensinei tanta coisa, agora é sua vez de retribuir.
No fim, convencida pelos apelos incansáveis dela, comecei a dar aulas práticas. Mas ela nem andar de bicicleta sabia, então ensinar a pilotar em pouco tempo era como carregar um peso enorme.
Depois de muito esforço, não sei se foi pela ladeira ou porque o contrabando tinha problemas, mas logo a moto parou de funcionar.
— Pronto, acabou! — escutei o motor gemer, tentei dar partida mais uma vez, mas perdi as esperanças.
Olhei em volta; nem sinal de posto de gasolina ou de pessoas na estrada da montanha.
— Alteza, você não é cheia de contatos? Dá um jeito! — pedi.
Ela piscou para mim: — Não é possível que demos tanto azar! Tenta de novo.
— Se eu tentar mais, meu braço sai do lugar!
Joguei a moto no asfalto, vi que já eram duas da manhã, e sugeri: — Alteza, deixa a moto aqui, vamos chamar um táxi pra voltar.
— De jeito nenhum! — ela se apressou em erguer a moto, tentou dar partida, mas era tão pesada que tombou junto com ela.
Com medo de ela se machucar, corri para ajudá-la, mas ela empurrou minha mão.
Sentou-se no chão, abraçando o joelho, chorando e resmungando: — A culpa é toda sua!
— Como assim culpa minha? — reclamei, mas vendo seu desespero, não pude deixar de sentir pena. — Pronto, pronto, foi tudo culpa minha! Me desculpa.
Ajudei a levantá-la, mancando, e fomos sentar numa pedra à beira da estrada. Não havia outro jeito, ela ligou para Trancinhas pedindo resgate.
Mas era tarde demais, Trancinhas não estava nem um pouco disposto e demoraria a chegar.
Ficamos ali sentados, esperando, olhando para as luzes distantes da cidade, e toda a impaciência foi silenciosamente se dissipando.