021【O Reformador do Mahjong】

Imperador Wang Ziqiun 2920 palavras 2026-01-30 16:13:30

Na manhã seguinte, bem cedo, a criada Dongfu chegou silenciosamente ao Pátio da Lealdade. A altiva Senhora Ling, ao saber da notícia, saiu apressada para recebê-la, esforçando-se em agradar: “Dona Dongfu, há algo em que possa servir? É assunto do Senhor Governador?”

Dongfu, com o rosto impassível, respondeu calmamente: “A mando da Jovem Senhora, vim buscar uma menina em sua casa.”

“Posso saber qual menina é?” indagou a Senhora Ling, curiosa.

Dongfu respondeu: “Zhao Zhenfang.”

A expressão da Senhora Ling se ensombrou, mas logo recuperou o sorriso e ordenou, reprovando suas criadas: “Ainda estão aí? Tragam Zhao Zhenfang imediatamente!”

“Não é necessário, eu mesma vou buscá-la.” Enquanto falava, Dongfu já caminhava adiante.

A Senhora Ling apressou-se em acompanhá-la, tentando puxar conversa: “É raro Dona Dongfu vir ao nosso pátio. Não quer tomar um chá antes de ir? Dias atrás, meu marido esteve em serviço no Bosque da Colina e o Senhor nos presenteou com dois liang do melhor chá vermelho do Rio.”

O chá vermelho do Rio é um produto típico de Yanshan, já conquistou os mercados do mundo e é muito apreciado pela nobreza europeia.

“Sendo um presente do Senhor, temo que uma simples criada como eu não seja digna desse privilégio”, respondeu Dongfu, sem sequer desviar o olhar, caminhando tranquilamente até o quarto leste, onde bateu de leve à porta. “Hanarinho, está aí?”

Zhao Han abriu a porta: “Sou eu. Saúdo a irmã.”

Dongfu finalmente sorriu e se apresentou: “Hanarinho, chamo-me Dongfu e sou criada da Jovem Senhora.”

“Então é a irmã Dongfu.” Zhao Han fez uma reverência.

Dongfu explicou o motivo da visita: “Vim buscar Zhenfang para levá-la ao pátio interno.”

Zhao Han convidou: “Por favor, entre e sente-se.”

“Muito bem, sentarei um pouco”, consentiu Dongfu, sorridente, entrando no quarto.

Zhao Han acrescentou: “Senhora Ling, queira entrar.”

O tratamento a deixou desconcertada, e ela, sem saber como reagir, olhou instintivamente para Dongfu.

Esta já estava dentro do quarto, sem olhar para trás, como se nada tivesse ouvido.

A Senhora Ling, aflita, entrou e observou a simplicidade do ambiente, comentando em voz alta: “Aqui é tudo muito modesto. Veja só, até o suporte de lavar o rosto está quebrado, deve ter anos de uso. Vou providenciar um novo depois.”

Zhao Han respondeu: “Agradeço à senhora pela gentileza, mas sou apenas um criado da casa, minha condição não exige tanto apreço.”

“Não me chame de senhora, isso só me faz envelhecer”, replicou a Senhora Ling, ainda mais solícita. “Hanarinho é estimado pelo Jovem Senhor e pela Jovem Senhora. Se continuar usando objetos velhos e quebrados, não seria desmerecer a imagem deles?”

Enquanto conversavam, Zhenfang serviu água às visitas.

Os copos eram de porcelana lascada, o bule de barro antigo, e a água era fresca, simples.

Dongfu pegou o copo e bebeu, ao mesmo tempo em que observava Zhenfang, elogiando: “De fato, muito educada e atenciosa.”

A Senhora Ling, visivelmente incomodada, levantou o copo lascado, mas não teve coragem de bebê-lo, tampouco de deixá-lo de lado. Ainda achando o banco sujo e velho, receou sujar suas roupas e, por isso, permaneceu de pé, sorrindo, mostrando respeito a Dongfu.

Após alguns goles, Dongfu pousou o copo, tomou Zhenfang pela mão e disse: “Venha comigo.”

Os irmãos já haviam conversado sobre isso na noite anterior. Zhenfang, relutante, despediu-se: “Maninho, estou indo.”

“Vá, porte-se bem”, respondeu Zhao Han, sorrindo.

Acompanhou a irmã até o portão do pátio interno e, ao retornar, a Senhora Ling já havia sumido.

Qinxin, Jiandan e Jiupó, o trio inseparável, veio parabenizá-lo logo depois.

No pátio interno, praticamente não havia criados homens; lá, as criadas e damas de companhia realmente compartilhavam refeições e quartos com as senhoras.

Apesar de parecerem quase invisíveis, raramente aparecendo, qualquer uma que viesse ao Pátio da Lealdade era tratada com extremo cuidado pela Senhora Ling.

A irmãzinha sendo levada para o pátio interno aumentava seu valor de forma imensa, e até Zhao Han era beneficiado por isso.

Mas Zhao Han precisava desse reconhecimento?

Ele apenas admirava a Jovem Senhora Lou, que sabia equilibrar bondade e firmeza sem causar ressentimento.

A irmã sendo levada para o pátio interno era tanto um prêmio quanto uma garantia — poderia ser vista como favor ou como ameaça, cabendo a Zhao Han decidir como encarar.

Naquela tarde, Zhao Han estudava avidamente o “Código Ming”.

Esse livro de leis, ele havia esquecido de devolver quando saiu do condado de Jinghai, e o velho escrivão da prefeitura não teve coragem de pedir de volta.

De repente, a criada Moxiang entrou no quarto leste trazendo ordens: “Qinxin, Jiandan, Jiupó e Hanarinho, arrumem as coisas, partam já para Yongping!”

O trio, que jogava cartas despreocupadamente, entrou em desespero, apressando-se para organizar a bagagem.

Moxiang entregou a Zhao Han uma caixa de livros: “Hanarinho, este é o seu equipamento.”

“Obrigado, irmã”, agradeceu ele, sorrindo.

Moxiang ainda gritou para dentro do quarto: “Rápido, rapazes! Peguem as coisas, as roupas podem ser trocadas no barco!”

O serviço parecia urgente.

“Já vamos!”, responderam.

O trio saiu correndo: Qinxin levava uma cítara, Jiandan uma espada e Jiupó um jarro de vinho.

Zhao Han partiu com eles, saindo pelo portão lateral da família Fei, correndo até a vila de Ehu, onde alguém os esperava no cais.

O barco desceu rapidamente pelo rio Xin, os remadores em ritmo frenético, como se estivessem competindo com o tempo.

Exaustos da correria, deitaram-se no barco para recuperar o fôlego. Zhao Han, sentindo-se melhor, indagou: “Por que tanta pressa?”

Qinxin arriscou: “Aposto que o Senhor Governador mudou os planos e quer passear em outro lugar.”

Jiupó tirou um pente e uma fita vermelha: “Deixe-me arrumar seu penteado, irmão.”

“Por que fita vermelha?” Zhao Han estranhou.

Jiupó, rindo, respondeu: “Vermelho é alegre!”

“Não tem outra cor?”, perguntou Zhao Han.

“E esta?”, Jiandan ofereceu uma fita azul-escura.

“Serve”, aceitou Zhao Han, meio contrariado.

Jiupó penteou Zhao Han, enquanto Jiandan arrumava Qinxin. Em pouco tempo, todos estavam com dois coques, lembrando o estilo de Nezha.

Depois de penteados, trocaram de roupa e, deitados no barco, ficaram conversando à toa.

Qinxin estava com catorze anos completos e, dali a dois anos, teria de mudar de função. Sem saber para onde ir, aproveitou o tempo no barco para pedir conselhos aos amigos.

Jiandan sugeriu: “Vai para a academia. Trabalha dois anos na biblioteca, depois estuda com os professores, logo vira assistente e pode ensinar crianças.”

Jiupó ponderou: “Ser assistente é sossegado e respeitável, mas não dá dinheiro. Melhor arrumar um serviço numa loja ou numa fábrica de papel. O gerente ganha dez liang por mês, e se trabalhar bem ainda recebe bônus no fim do ano.”

Yanshan não era só um centro de comércio, mas também de produtos típicos.

O chá vermelho de Yanshan era famoso no mundo todo, e o papel Liansi também, cuja fabricação remontava à dinastia Han.

Qinxin resmungou: “Queria algo sossegado, respeitável e bem pago. Alguma ideia?”

Jiupó não conteve o riso: “Tem solução!”

“Qual?”, Qinxin perguntou ansioso.

Jiupó explicou detalhadamente: “Saia do barco, pule no rio Xin e reencarne como jovem senhor na próxima vida.”

“Ha ha ha ha ha!” Jiandan gargalhou.

Zhao Han também não se conteve, levantou o polegar: “Realmente, ótima ideia.”

Qinxin só pôde revirar os olhos e, desanimado, deitou-se: “Então melhor ir para a academia, pelo menos terei dignidade a vida toda.”

“Chega de papo, Yongping ainda está longe. Vamos jogar cartas”, propôs Jiupó, tirando um baralho de cartas mohe.

Esse jogo era o antecessor do mahjong, ainda em formato de cartas, dividido em três naipes: moedas (círculos), cordas (bambus) e milhares.

O dois de círculos provavelmente representava duas moedas, enquanto o dois de bambus, duas cordas de dinheiro.

Zhao Han logo entendeu as regras e pensou em como melhorá-lo, já que esse mahjong primitivo tinha apenas sessenta cartas, e com três combinações e um par já se podia vencer.

Depois de algumas partidas, achou pouco divertido, pois cada naipe tinha apenas duas cartas.

Com tão poucas cartas iguais, não se podia fazer "pongs" nem abrir "kongs", e sem essas jogadas, o mahjong perdia a graça.

Zhao Han perguntou: “Alguém tem mais cartas?”

“Eu tenho”, Jiandan tirou outro baralho.

“Vamos juntar os dois baralhos e, no início, cada um compra três cartas a mais”, sugeriu Zhao Han.

“E como joga assim?”, Qinxin desconfiou.

Zhao Han então ensinou as regras do mahjong, fazendo os amigos se apaixonarem pelo jogo.

Já tinham as cartas de vermelho, prosperidade e branco; só faltavam as de vento leste, sul, oeste e norte.

Ao entardecer, chegaram à vila de Hekou.

O barco, porém, não parou; acenderam as lanternas e seguiram pelo rio Yanshan, seguindo direto para a cidade.

Os quatro pegaram os mantimentos, sentaram-se juntos no barco e comeram bolachas com água.

E, à luz de lamparina, continuaram jogando mahjong noite adentro.

No meio da noite, aportaram finalmente em Yongping. Só então perceberam a hora avançada e, às pressas, guardaram as cartas e caíram no sono.

De Ehu a Yongping, tamanha correria era puro capricho do Governador de Jiangxi, que, de súbito, decidira ir prestar homenagem ao túmulo de Xin Qiji.