032【Loucuras do Coração】

Imperador Wang Ziqiun 3206 palavras 2026-01-30 16:14:16

Apesar de ser início de inverno, o sol ameno deste dia não permitia que o frio se fizesse sentir.
Uma brisa suave atravessava o bambuzal, produzindo um sussurro, como se dedilhasse as notas maravilhosas da natureza.
Com um clima e paisagem desses, tudo deveria se assemelhar a um idílio bucólico. Mas para Zhao Han, era como se enxergasse um cenário infernal: restos de carne espalhados, demônios famintos de presas arreganhadas, e nos céus, criaturas demoníacas rindo e circulando.
Parecia que voltava aos arredores da cidade de Tianjin, segurando a mão da irmã, caminhando sob olhares assustadores.
Talvez, pelo conforto recente de ter o que comer e vestir, Zhao Han quase esquecera as agruras daquele dia. Esquecera que, no sul de Tianjin, vira pessoas trocando cadáveres de crianças, e outros queimando ossos como lenha para fazer sopa.
Ao chegar a Montanha de Chumbo, Zhao Han suspeitava que ali a vida dos mais pobres não devia ser melhor.
Porém, aquela vila próspera, os campos de colheita farta, a academia que parecia um paraíso escondido, tudo isso colocava um véu sobre a dura realidade. Ninguém queria erguê-lo e encarar a feiúra oculta; Zhao Han não era exceção, pois a verdade era difícil de suportar.
Se as coisas continuassem assim, Zhao Han provavelmente seria domesticado, sem nem se dar conta.
Acharia que a vida era boa, até o dia em que o desastre lhe caísse sobre a cabeça.
Acostumar-se?
Não!
Não deveria ser assim!
— Jovem senhor, irmão, é aqui.
Zhao Han foi despertado de súbito.
Sem perceber, já haviam deixado o bambuzal para trás; Fei Chun apontava para algumas cabanas de barro.
As paredes eram feitas de terra batida, reforçadas com tiras de bambu que serviam como vergalhões. Havia também palha misturada à argila, para isolar em parte o calor e o frio, tornando o ambiente fresco no verão e quente no inverno.
O telhado era de palha, precisando de conserto periódico, senão chovia e ventava dentro.
Uma mulher estendia folhas de bambu ao sol, excelente material para acender fogo. Todos os dias, folhas caíam sozinhas e era preciso recolhê-las logo; caso caíssem em terreno alheio, podia haver briga.
— Por favor, a senhora Xu Ying está em casa? — perguntou Zhao Han, cumprimentando com um gesto.
A mulher se assustou, empalideceu imediatamente, apertando o ancinho de bambu:
— Ele... ele causou confusão na academia?
Fei Ruhe respondeu:
— Xu Ying hoje à tarde...
— Não causou confusão — interrompeu Zhao Han, sorrindo —, somos colegas de Xu Ying, só matando aula para passear por aí.
A mulher relaxou, tornando-se afável:
— Senhores, entrem, por favor! Vou buscar água para vocês!
— Muito obrigado, senhora — respondeu Zhao Han.
A mulher parecia ter entre trinta e quarenta anos, talvez até cinquenta; impossível saber ao certo.
Um menininho de dois ou três anos, com o nariz escorrendo, espiava-os da porta. O muco escorria até o lábio superior, era sugado de volta, e depois voltava a escorrer, sempre pelo mesmo caminho.
Zhao Han afastou um monte de folhas de bambu; no chão de terra havia inúmeras palavras escritas, provavelmente pela mão de Xu Ying:
“O Mestre disse: Um exército pode perder o general, mas o homem comum não pode perder seu espírito.”
“O Mestre disse: ‘Vestindo um manto puído, posto ao lado dos que vestem peles de raposa e texugo, e não se envergonha disso, não é este um homem de virtude? Não sendo invejoso nem ganancioso, que faltas poderia ter?’”
— Vamos. — Zhao Han virou-se e foi embora.
Já tinham todos desaparecido, quando a mulher finalmente voltou com a água.
Trazia um pote na mão esquerda e três tigelas de cerâmica na direita, as menos lascadas da casa. Lavara-as várias vezes, para garantir que estivessem limpas e não envergonhassem o filho diante dos colegas.

...

A cada instante, Fei Yuanjian ficava mais aflito, imaginando-se sendo espancado e suspenso pelos pés.
Maltratara um colega — apenas um camponês pobre, nada demais.
Seu maior erro fora jogar o livro do rapaz na água. Para a família Fei da Montanha de Chumbo, isso era quase como desrespeitar os ancestrais!
Levando seus seguidores até o riacho, encontrou Xu Ying sentado no mesmo lugar.
O camponês estava lá, sentado de pernas abertas, com calças e sapatos molhados pela água corrente. Nas mãos, segurava a pedra que servia de tinteiro, olhando absorto o livro destruído, olhos vidrados, murmurando algo incompreensível.
Fei Yuanjian se aproximou, e pôde ouvir: Xu Ying recitava os Analectos, inclusive com as anotações de Zhu Xi.
Já fazia mais de meia hora.
Os outros estudantes se reuniram em volta. Ele continuava a recitar, sem olhar para ninguém, alheio ao mundo.
— Será que ficou maluco? — comentou um deles.
— Acho que sim.
— Ei, Xu Ying, o professor mandou a gente te buscar para voltar a estudar!
— Ficou mesmo louco, nem responde.
— Vamos dar um tapa na cara dele? Dizem que quando alguém entra em transe, um tapa resolve.
— Se quiser, bate você.
— Por que eu?
— ...
O menino que sempre era maltratado, agora ninguém ousava tocar, apenas circulavam em volta, observando.
Fei Yuanjian perdeu a paciência, chutou o livro molhado e gritou:
— Pare de fingir loucura e diga alguma coisa!
O gesto surtiu efeito.
Xu Ying, que olhava fixamente para o livro, levantou a cabeça lentamente, recitando ainda mais alto:
“O Mestre disse: ‘Quando o país está ordenado, fale e aja com coragem; quando não, aja com coragem, mas seja prudente ao falar. Agir, ser submisso. Falar, ser submisso...’”
Fei Yuanjian ameaçou:
— Tanto faz se está fingindo ou não. O seu livro caiu na água, não tem nada a ver comigo. Não invente histórias para o professor, senão, toda vez que eu te vir, vou te bater!
Xu Ying, ainda com lágrimas no rosto, segurando o tinteiro de pedra, levantou-se e, olhos vermelhos, encarou Fei Yuanjian:
“O Mestre disse: ‘O virtuoso sempre tem palavras, mas quem tem palavras nem sempre é virtuoso. O benevolente sempre é corajoso, mas o corajoso nem sempre é benevolente...’”
Um arrepio percorreu Fei Yuanjian, que recuou dois passos, gritando:
— Está ouvindo?!
“Nan Gongshi perguntou ao Mestre: ‘Yi era ótimo arqueiro, Ao excelente barqueiro, mas ambos morreram tragicamente; Yu e Ji cultivaram a terra e conquistaram o mundo...’”
Xu Ying continuava a recitar os Analectos, aproximando-se.
Fei Yuanjian, assustado, recuou de novo. Sentiu-se humilhado, parou e disse:
— Pare de fingir! Eu... ah!
“O Mestre disse: ‘Há homens de bem que não são benevolentes, mas nunca há um homem vil que seja benevolente...’”
Recitando sem parar, Xu Ying já estava diante de Fei Yuanjian e, de repente, arremessou o tinteiro de pedra.
Um grito de dor ecoou. O sangue escorreu da testa de Fei Yuanjian, que caiu de costas na água.
— Socorram o jovem senhor! — gritou o criado de Fei Yuanjian.
Os demais estudantes, assustados com o surto de Xu Ying, hesitaram em se aproximar.
Mas, ao ver Fei Yuanjian ferido no riacho, alguns correram para ajudá-lo, enquanto outros dominaram Xu Ying.

Xu Ying não resistiu. Depois de lançar o tinteiro, ficou inexpressivo, como morto, e continuou a recitar:
“O Mestre disse: Amar, é possível não se cansar? Ser leal, é possível não ensinar? Segundo a família Su: Amar sem cansar é o amor dos animais...”
Fei Yuanjian, com a cabeça rodando, foi puxado para fora d’água, ouvindo gritos apavorados:
— Sangue! Tem muito sangue!
Tocou a testa e sentiu o sangue escorrer, desmaiando de susto.
Só desmaiava ao ver o próprio sangue, nunca o dos outros.
Os alunos, desesperados, carregaram Fei Yuanjian de volta à academia, levando também Xu Ying como prisioneiro.
Xu Ying permanecia em transe, recitando perfeitamente os Comentários aos Quatro Livros, avançando além do ritmo das aulas. Onde o professor ainda não ensinara, Xu Ying meditava silenciosamente, tentando compreender o significado.
— Doutor! Doutor! O jovem senhor está sangrando e desmaiou!
A Academia Han Zhu tinha um médico de plantão, para cuidar de doenças e ferimentos das brigas.
O criado de Fei Yuanjian exclamou:
— Fiquem aqui! Vou avisar o patrão e a senhora!
Pang Chunlai chegou apressado, sem perguntar pelo estado de Fei Yuanjian; fixou-se no estado de Xu Ying, tomado de fúria:
— O que houve com Xu Ying?
Um estudante respondeu:
— Ele bateu tanto em Fei Yuanjian que o fez sangrar e desmaiar.
Pang Chunlai bateu com a bengala no chão:
— Quero saber o que houve com Xu Ying!
— Não sabemos... Talvez tenha se assustado ao ver o próprio livro cair na água.
— Bobagem!
Pang Chunlai agarrou um estudante:
— Para ele, o livro valia mais que a vida. Como teria deixado cair na água? Diga logo, ou chamo seus pais!
O garoto, apavorado, gaguejou:
— Foi... foi ele mesmo quem deixou o livro cair na água.
Pang Chunlai agarrou outro, um mais tímido:
— Se não disser a verdade, será expulso da academia!
Este, filho de um rico fazendeiro, não ousou encarar o mestre e respondeu de cabeça baixa:
— Não fui eu quem jogou o livro.
— Então quem foi? — insistiu Pang Chunlai.
O rapaz ficou calado, sem coragem de mentir, mas também sem ousar entregar Fei Yuanjian.
— Muito bem, muito bem! Até os livros dos sábios se atrevem a destruir! Que bela família, a dos Fei! — disse Pang Chunlai ao rapaz. — Onde está o livro? Traga-o agora!
Sentindo-se aliviado, o rapaz correu até o riacho buscar o volume e a sacola, trazendo também o tinteiro de pedra que ferira Fei Yuanjian.
Logo, outros alunos chegaram, juntando-se para assistir à confusão.
Pouco depois, o Comentário aos Quatro Livros, encharcado, também foi recuperado.
Pang Chunlai examinou o livro destruído, e sem dizer uma palavra, levou Xu Ying, ainda em transe, encosta acima, apoiando-se na bengala, rumo à academia principal.
O diretor não estava na sala de aula, mas sim na Academia Han Zhu, a meio caminho do monte.
Não demorou, os pais de Fei Yuanjian chegaram em liteira.
O pai tinha o rosto sombrio; a mãe, ainda antes de descer, já gritava.
Era uma senhora de mais de cinquenta anos, que tivera Fei Yuanjian aos quarenta e dois, um filho tardio, o qual mimava exageradamente. Gritava a plenos pulmões:
— Quem feriu meu filho? Apareça já!