003【Tempestade em Tianjin】

Imperador Wang Ziqiun 4199 palavras 2026-01-30 16:13:02

Chegando a uma rua sombria, os irmãos sentaram-se encostados à parede. Zhenfang, com as mãos sujas, segurava o pequeno pedaço de pão que restava: “Mano, come tu, eu já estou satisfeita.” Han não recusou; antes, sorriu alegremente. Pegou o alimento, que mal preenchia um espaço entre os dentes, partiu-o ao meio e devolveu uma parte à irmã: “Vamos dividir.”

“Está bem”, respondeu ela. Zhenfang rasgou um pedacinho e levou à boca, relutando em mastigar ou engolir, degustando o aroma do alimento apenas com a língua. Ao notar o olhar do irmão, Zhenfang pareceu esquecer a tristeza e sorriu: “Mano, este pão está delicioso.”

Han afagou a cabeça da irmã e prometeu: “Quando eu ganhar dinheiro, vou te dar pão todos os dias.”

“Isso seria maravilhoso”, sonhou Zhenfang.

Depois de embalar a irmã no sono, o sorriso de Han desapareceu. Pegou o bastão de bambu, usando-o como se fosse um bastão para cães, e começou a afiá-lo no chão. Ainda sem muita força, o processo foi lento, mas uma ponta afiada surgiu ao final. Uma lança improvisada estava pronta, suficiente para matar em caso de necessidade.

A experiência recente ensinara a Han que, além do risco constante da fome, havia inúmeros perigos à espreita. Ao tocar a lança, sentiu algum alívio, como se pudesse finalmente controlar o próprio destino.

Ao entardecer, Zhenfang acordou — mais uma vez, acordava de fome. Han apoiou-se na lança e segurou a irmã, avançando pela rua. Comeram cada um metade do pão e, depois de descansarem por horas, recuperaram um pouco das forças, podendo ao menos caminhar eretos para mendigar, sem rastejar como cães.

Chegaram ao portão dos fundos de uma casa. Han bateu por longo tempo até que alguém veio abrir. Antes mesmo que ele pedisse, ao ver os dois, a pessoa fechou a porta com estrondo. Tentaram mais quatro ou cinco casas; apenas uma não fechou a porta de imediato.

“Senhora, tenha piedade, nos dê algo para comer, e os céus lhe darão vida longa”, suplicou Han.

A mulher respondeu: “Aqui em casa não sobrou nada, procurem em outro lugar.”

Em tempos de fome, até pequenos lares não tinham o suficiente para alimentar-se, quanto mais para socorrer pobres ou mendigos?

Vendo que não conseguiria comida, Han pediu: “Dá pra nos dar um pouco de água? Estamos com muita sede.”

A mulher, de bom coração, não recusou: “Esperem aí.”

Ela fechou a porta. Pouco depois, voltou com uma concha de água fresca, perguntando: “Cadê as tigelas de vocês?”

Han mentiu rapidamente: “Uns mendigos quebraram, não querem que a gente peça comida por aqui.”

A mulher, ainda mais comovida, entregou-lhe a concha: “Bebam daí.”

Han deixou que a irmã bebesse primeiro, depois ele mesmo bebeu o resto de um só gole. Devolveu a concha, agradecendo com uma reverência: “Muito obrigado, senhora!”

“Mais um jovem arruinado pela desgraça... ai”, suspirou a mulher ao fechar a porta.

Tão pequeno e já sabia ser cortês — não era apenas mais um menino de boa família caído em desgraça?

Depois de beber água, Han sentiu-se um pouco melhor. Não continuou naquela rua, mas foi em busca da movimentada Rua Leste do Cais, o lugar mais próspero de Tianjin.

Já era noite, mas a Rua Leste estava iluminada como se fosse dia.

Devido ao encalhe das embarcações no canal, muitos comerciantes permaneciam por ali. As hospedarias estavam lotadas; alguns mercadores ricos, sem onde ficar, acabavam nas casas de tolerância fora dos muros da cidade.

Do lado de fora do canal, multidões famintas se amontoavam; na Rua Leste, porém, tudo florescia, e o aroma de carne e vinho saía dos restaurantes.

Han escolheu um restaurante e agachou-se à porta, à espera de algum rico generoso.

Mal se acomodou, um empregado surgiu com um bastão, enxotando-os: “Saiam daqui, seus mendigos!”

Han apressou-se: “Venho de uma família de cozinheiros reais, tenho receitas secretas. Só por dez taéis de prata...”

“Fora!” O empregado ergueu o bastão, pronto para bater.

Han ergueu a lança para se proteger, puxou a irmã para trás e, à distância, esperou a generosidade de algum rico.

Não conseguiram comida, mas atraíram um grupo de mendigos.

O mendigo que Han matara antes atuava na Rua Norte; já a Rua Leste era território de outro grupo, sob diferentes chefes, embora todos pertencessem à mesma organização.

Esses mendigos eram mais fortes; vieram mais de dez para arranjar confusão.

Han protegeu a irmã, encostou-se à parede, posicionando a lança como uma baioneta: “Venham!”

Um deles atacou com um bastão, mas sem técnica, girando-o acima da cabeça.

Han não moveu os pés; inclinou apenas o corpo e, num golpe, atingiu a coxa do agressor. O homem urrou de dor; outros atacaram, mas Han feriu vários. Infelizmente, sem força, e tendo de proteger a irmã, também apanhou alguns golpes.

“É alguém que sabe lutar! Avisem o ‘Marquês’!”

Os mendigos, assustados, fugiram. Han conquistou, por força, o direito de mendigar temporariamente na Rua Leste.

Nesse momento, um rico comerciante saía do restaurante e, ao ver a briga, aplaudiu, bêbado: “Que espetáculo! Dou uma esmola!”

O criado do rico pegou um punhado de moedas de cobre e atirou diante de Han.

“Muito obrigado, senhor!”, exultou Han, e, à luz do restaurante, ele e a irmã juntaram-se para apanhar o dinheiro.

Eram moedas de boa qualidade.

Ambos estavam famintos; correram para comprar comida — pães recheados com carne, típicos de Tianjin!

Zhenfang comeu até as bochechas ficarem cheias, parecendo um esquilo, e disse, mastigando: “Muito melhor que pão simples!”

Finalmente saciados, Han sorriu: “Quando eu tiver prata, te compro pato assado.”

Zhenfang olhou o irmão com adoração: “Mano, tu és incrível! Papai sempre dizia que eras esperto...” Mas a frase morreu; a menina entristeceu: “Mano, será que papai e mamãe já morreram? Sei o que é morrer, é como quando o irmão mais velho dormiu e nunca mais acordou.”

Han abraçou a irmã magrinha, consolando: “Não tenha medo, eu estou aqui.”

“Não tenho medo”, respondeu ela, chorando baixinho. As lágrimas deixaram dois riscos claros no rosto sujo de barro.

Ninguém sabe por quanto tempo chorou, até adormecer.

Já Han, confuso, não sabia como garantir o futuro. Viveria mendigando para sempre?

...

Na Rua Oeste do Cais, um mendigo bateu à porta de uma casa, caminhou até a sala e ajoelhou-se: “Marquês, já tenho notícias. Aqueles dois pirralhos entraram no Beco das Amoreiras.”

“Marquês” era um apelido de rua; seu nome real era Deng Gui, ex-militar agora mendigo.

Na disputa por território no cais de Tianjin, perdera um olho. Antes chamado de “Dragão de Um Olho”, depois “Pequeno Marquês Xia”, e agora todos os mendigos do cais o chamavam de “Marquês”.

Tanto os que Han enfrentara antes quanto agora eram subordinados de Deng Gui, que controlava toda a mendicância fora dos muros do norte e também se dedicava a pequenos furtos.

Deng Gui jantava com sua família: uma esposa, duas concubinas, cinco filhos.

Largou os talheres e ordenou: “Mandem uns homens, bloqueiem as entradas do beco, não deixem escapar. Se pegarem, quebrem as pernas!”

Em um dia, perdera um subordinado, outros dez foram postos em fuga por duas crianças — como o “chefe dos mendigos” poderia manter a honra?

Roncou um trovão.

Todos na casa se alegraram. Deng Gui foi ao pátio sorrindo: “Depois de meses de seca, finalmente vai chover.”

Um dos mendigos perguntou: “Marquês, não seria melhor agir amanhã?”

Deng Gui concordou: “Amanhã serve, mas alguém deve vigiar, não quero que o pirralho fuja.”

Afinal, eram apenas mendigos; ninguém queria se arriscar na chuva e adoecer sem dinheiro para médico.

Outro trovão ribombou. O clarão iluminou o pátio, e o vento começou a soprar forte.

...

O trovão acordou Zhenfang, que se alegrou com o vento fresco: “Mano, vai chover!”

Han levantou-se: “Vamos procurar abrigo.”

Bem alimentados e descansados, não estavam mais tão fracos. De mãos dadas, tatearam pela escuridão em busca de um abrigo.

Ma Wu era um novo membro entre os mendigos. Precisava entregar uma parte do que arrecadava ao chefe ou apanhava.

A estrutura da irmandade era frouxa; com a chuva iminente, as ordens nem sempre chegavam como deviam.

Todos se esquivaram; Ma Wu ficou sozinho com a tarefa de vigiar Han e Zhenfang a noite toda.

Sabia apenas que os dois entraram no Beco das Amoreiras, mas, cego à noite, não tinha como encontrá-los — era como pôr um cego de vigia.

“Malditos, acham que sou tolo! Não vou me arriscar assim”, resmungou Ma Wu, abrigando-se sob o beiral de uma casa, decidido a dormir antes de tudo.

Fantasias de comida enchiam-lhe a cabeça, mas passos o despertaram; limpou apressado a boca.

Os passos se aproximaram, mas Ma Wu nada via claramente.

Um relâmpago cortou o céu.

Han viu alguém encolhido sob o beiral e aproximou-se: “Tio, há algum templo abandonado aqui perto?”

Ma Wu respondeu sem pensar: “Fica longe, o Templo do Senhor da Cidade está no sudeste.”

Han observou: o beiral era estreito, a chuva entraria com o vento. Levou a irmã para procurar abrigo melhor.

Ma Wu ficou confuso, mas logo percebeu e resolveu segui-los.

Ele não sabia o que era seguir alguém e, com a visão prejudicada, fazia barulho suficiente para qualquer um notar.

Depois de um tempo, Han virou-se de repente, aproximou-se e perguntou: “Por que está nos seguindo?”

“Não... não estou!” negou Ma Wu.

Han ergueu a lança, encostando a ponta à garganta do homem: “Fale!”

Ma Wu lembrou-se do boato: naquele dia, um chefe fora morto a dentadas na Rua Norte, e este garoto era mesmo perigoso. Tremendo, ajoelhou-se: “Por favor, me poupe!”

“Fale!”, ordenou Han.

Ma Wu, apavorado, contou tudo: “Você matou um dos homens do Marquês, e ele mandou te procurar. Se te pegarem, vão quebrar tuas pernas. Como são crianças, com as pernas quebradas, mendigariam melhor. O Marquês não vai matar vocês.”

Quebrar as pernas dos dois e usá-los para mendigar?

Han conteve a raiva e perguntou: “Quem é esse Marquês?”

Ma Wu respondeu: “É o chefe dos mendigos aqui do cais.”

“Chefe dos mendigos?”, Han insistiu.

“Na verdade, somos da Sociedade da Flor de Lótus”, corrigiu Ma Wu.

Han continuou: “E o Marquês, só é chefe dos mendigos? Não tem outro papel?”

“Só manda nos mendigos, não pede mais esmolas ele mesmo”, explicou Ma Wu.

“Você diz que o cais é território dele. E o resto de Tianjin?”

“O resto não. Ele cuida só do trecho entre o muro norte e o cais”, respondeu Ma Wu.

O trovão aumentava, e a chuva começava a cair.

Han calou-se, apertando e relaxando as mãos sobre a lança, ponderando sua situação.

Primeiro, o caos se aproximava.

Segundo, ele e a irmã eram apenas crianças.

Dois pequenos, tendo de pensar em como sobreviver nos tempos turbulentos.

Que ano era exatamente, Han já não sabia.

Logo, talvez no próximo ano, talvez em dois ou três, os exércitos da Manchúria atravessariam as fronteiras e marchariam até as portas de Pequim.

Quando chegasse o caos, Tianjin também não seria segura.

Se tivesse vinte anos, Han teria várias opções, até juntar-se às rebeliões em Shaanxi.

Mas tinha só dez — e uma irmã de seis para cuidar.

A única saída era buscar oportunidade para rumar ao sul, crescer em segurança no Jiangnan, onde o inverno não matava de frio.

Mas isso era para depois; agora, alguém queria quebrar suas pernas e fazê-lo um instrumento da mendicância!

Han endireitou as costas; o olhar antes incerto firmou-se. Gritou: “Diz logo, onde mora esse Marquês?”