022【O Virtuoso Governador Provincial】

Imperador Wang Ziqiun 3442 palavras 2026-01-30 16:13:33

Na dinastia Ming, a sede do condado de Yanshan não ficava na vila de Hekou, às margens do rio Xin, mas sim em Yongping, à beira do rio Yanshan.

Ao amanhecer, o magistrado Feng Xun, de Yanshan, aguardava cedo na hospedaria, seguido de vários eruditos locais.

Fei Yinghuan estava ali bocejando sem parar, maldizendo o inspetor em pensamento. Não fosse pelas repetidas advertências de seu patriarca e de seu próprio pai, não perderia tempo acompanhando aquele tolo.

Não se sabe quanto tempo se passou até que um criado abriu o grande portão. O inspetor Wei Zhaocheng saiu caminhando com passos lentos, seguido apenas por um criado de meia-idade.

Ambos, senhor e servo, vestiam-se com simplicidade, exibindo em cada gesto o que se entendia por integridade e honestidade.

— Perdoem-me, perdoem-me, por tê-los feito esperar tanto — disse Wei Zhaocheng, unindo as mãos e sorrindo.

O magistrado Feng Xun foi ao seu encontro, forçando um sorriso para agradar:

— Senhor Yao Hai, não se culpe, a culpa é nossa por termos vindo cedo demais.

— Saudações ao senhor Yao Hai — saudaram todos os eruditos, curvando-se em respeito.

Wei Zhaocheng alisou a barba, lançou um olhar aos presentes e assentiu com um sorriso:

— Vejo que há novos talentos entre os jovens do condado hoje.

Feng Xun apressou-se em apresentar os rostos novos:

— Este é Hu Mengtai, candidato selecionado do condado, de nome de cortesia Youli.

Hu Mengtai uniu as mãos e saudou:

— Saudações respeitosas, senhor Yao Hai.

Wei Zhaocheng notou que, apesar das roupas simples, Hu carregava um pingente de jade valioso, sinal claro de família influente. Seu sorriso tornou-se ainda mais caloroso, apertando a mão de Hu Mengtai:

— Youli é um jovem de aparência nobre. Tão novo e já aprovado nos exames, certamente será um pilar do país no futuro!

— O senhor exagera, não sou digno de tais elogios — respondeu Hu Mengtai, humildemente.

Após esses cumprimentos, Feng Xun apresentou outro jovem:

— Este é Ren Yixie, bolsista do condado...

— Seria ele descendente do mestre Si'an, Ren Xiyi? — perguntou Wei Zhaocheng, apressadamente.

Ren Yixie não escondeu o orgulho:

— Sou um aprendiz tardio, saúdo respeitosamente o senhor Yao Hai.

Wei Zhaocheng apertou-lhe a mão, encorajando:

— O mestre Si'an foi um grande nome da Escola do Princípio; deves estudar com afinco para não manchar o nome de teus antepassados.

Ren Xiyi fora discípulo direto de Zhu Xi, e os títulos póstumos concedidos a Zhu Xi, Zhou Dunyi, Cheng Hao, Cheng Yi e Zhang Zai vieram após petições de Ren Xiyi, tornando-o um dos mais ilustres da escola filosófica.

Como descendente de Ren Xiyi, Ren Yixie respondeu:

— Os ensinamentos dos antepassados soam como grandes sinos e tambores, jamais me atreveria a esquecer.

Aquela troca de cortesias hipócritas continuava.

Fei Yinghuan, parado diante do portão, só pensava em sacar a espada e acabar com o inspetor.

Tanta encenação, busca por fama, era de enojar qualquer um!

Dois dias antes, na casa ancestral da família Fei, em Henglin, Wei Zhaocheng também o havia segurado pela mão.

Naquele momento, até sentiu-se honrado, mas logo percebeu que todos os jovens de famílias influentes tinham de passar por aquele aperto de mãos demorado do inspetor.

Ao investigar melhor, descobriu: ali estava um novo nome na corte.

No ano anterior, o inspetor de Jiangxi era Yang Bangxian, um homem afastado da capital e alheio às mudanças políticas. Acabou por remover as estátuas de Zhou Dunyi, Cheng Hao e Cheng Yi do Templo dos Três Sábios para ali colocar a de Wei Zhongxian, transformando o templo em um santuário para o eunuco.

Era um completo tolo, com final previsível.

Logo em seguida, Lu Wenxian, vice-ministro à esquerda do Tribunal de Censura, foi selecionado para o cargo de inspetor, mas foi destituído antes mesmo de sair de Pequim.

Zhang Yangsu, vice-ministro à direita, assumiu o cargo, conseguiu deixar a capital, mas foi destituído misteriosamente no caminho.

Wei Zhaocheng, então, ocupava o cargo de censor chefe do Ministério de Funcionários, tendo como mestre Chen Yuting, vice-ministro de Nanjing.

Depois da queda de Wei Zhongxian, Chen Yuting participou das avaliações de funcionários em Nanjing, e Wei Zhaocheng ficou encarregado da estatística dos oficiais do império.

Após concluir o trabalho, Wei Zhaocheng foi promovido oito posições de uma vez, tornando-se chefe do Templo Imperial.

Ainda assim, não estava satisfeito; tramou contra dois vice-ministros e, finalmente, conseguiu o cargo de inspetor de Jiangxi.

...

O magistrado tornou-se guia turístico, os eruditos acompanharam o tempo inteiro e atrás deles vinham numerosos criados.

Com os oficiais locais abrindo caminho e fechando a procissão, o cortejo se estendeu por dois ou três quilômetros.

Ao chegarem a uma viela popular, o magistrado apontou para um pequeno pavilhão:

— Senhor Yao Hai, este é o famoso Pavilhão da Gratidão.

Wei Zhaocheng arrumou as vestes e se aproximou da tabuleta, exclamando surpreso:

— É mesmo caligrafia do mestre Zhu Xi, devo reverenciá-la!

Ergueu as vestes, ajoelhou-se longamente diante da inscrição de Zhu Xi, e os estudantes, sem opção, seguiram o exemplo.

Após as reverências, Wei Zhaocheng levantou-se para partir, mas avistou uma pedra com uma grande cabeça de repolho esculpida.

Franziu o cenho e perguntou:

— Este é o pavilhão com o nome do mestre Zhu Xi. Quem ousou colocar aqui este monumento?

Feng Xun respondeu:

— Foi obra do antigo magistrado.

— Arranquem-no! — ordenou Wei Zhaocheng.

O magistrado sussurrou, cauteloso:

— Senhor Yao Hai, não convém removê-lo, ou provocaremos a fúria do povo.

Wei Zhaocheng ficou perplexo e pediu detalhes.

Feng Xun explicou:

— Dez anos atrás, Yanshan sofreu grande calamidade. Fome por toda parte, além do aumento dos impostos militares. Restaram apenas vinte mil habitantes, mas a taxa imposta era de trinta mil taéis de prata. O magistrado Da Jiliang mandou esculpir o repolho, com os dizeres: “Aos pais do povo, não ignorem este sabor; a meus filhos, não deixem padecer assim.” Ele comia com os oficiais o mesmo mingau e sopa de verduras, persuadiu as famílias nobres a doarem grãos e, assim, garantiu a paz local.

Wei Zhaocheng ficou em silêncio, sem saber o que dizer; era uma situação delicada.

O condado de Yanshan era próspero; impossível ter restado só vinte mil habitantes.

Certamente, muitos se abrigaram sob proteção de famílias poderosas e não constavam nos registros oficiais.

Quanto a persuadir as famílias a doarem grãos...

Provavelmente deve ter usado de meios rigorosos e até violentos!

Wei Zhaocheng examinou a inscrição do monumento, recordando informações sobre Da Jiliang, e logo exclamou:

— Então era Da, o censor. Não imaginava que tivesse tal mérito administrativo.

Feng Xun, surpreso:

— O antigo magistrado tornou-se censor?

— Foi nomeado este ano para o Ministério da Fazenda. Recebi ordens para avaliar os funcionários do império, e o nome raro do censor Da ficou gravado em minha memória.

Da Jiliang foi magistrado em Yanshan por seis anos, desagradando tanto as famílias influentes que estas se cotizaram para comprá-lo um cargo em Ganzhou.

A região de Nan’gan era famosa por sua bravura e banditismo, um cargo ingrato, mas Da Jiliang prosperou e logo foi transferido para Shanxi, sempre com apoio dos poderosos locais.

Em poucos anos, tornou-se censor do Ministério da Fazenda.

Curiosamente, tanto Wei Zhaocheng quanto Da Jiliang eram ligados ao Partido Donglin.

Porém, Da Jiliang fora rotulado como tal pelos eunucos e destituído em Shanxi, agora readmitido como aliado pelo próprio Partido Donglin.

Diante do monumento do repolho, o inspetor sentiu-se desconfortável; após alguns elogios, apressou-se a partir, sem mais mencionar a destruição da pedra.

A longa comitiva deixou a cidade e embarcou rumo à antiga residência de Xin Qiji.

Yongping era o equivalente ao centro do condado, e o barco de Zhao Han estava ancorado fora da vila.

Fei Yinghuan, acompanhado de Wei Jianxiong, separou-se do grupo e logo chegou ao próprio barco, ordenando ao timoneiro:

— Siga aquela comitiva!

Zhao Han, Qinxin, Jiandan e Jiupou, por terem jogado cartas até tarde na noite anterior, ainda dormiam no camarote.

Ao ouvirem o movimento, levantaram-se e saudaram:

— Jovem mestre, tio Wei!

— Papai, tio Wei!

Fei Yinghuan estalou o pescoço, sentou-se exausto e disse:

— Nada de conversa fiada, venham logo me fazer uma massagem.

Antes que Zhao Han reagisse, o trio do “hum-ha-hey” correu rápido: Jiandan e Jiupou ficaram aos lados massageando as pernas, Qinxin foi para trás apertar os ombros.

— Ah, que alívio! — Fei Yinghuan fechou os olhos, desfrutando o relaxamento e não resistiu a comentar: — Esse tal de inspetor Wei é mestre na dissimulação, deve ser um corrupto que só pensa em intrigas políticas. O povo de Jiangxi vai sofrer.

Zhao Han perguntou:

— Mas não dizem que o inspetor Wei é íntegro e frugal?

Fei Yinghuan torceu a boca:

— Justamente esse tipo de integridade é preocupante!

O que é gratuito costuma sair caro.

Quando um oficial ostenta honestidade, se for corrupto, será de matar, não é com migalhas que se contenta.

Fitando as cartas sobre a mesa, Fei Yinghuan animou-se:

— Ainda falta um trecho até o túmulo de Jiaxuan, velho Wei, venha jogar comigo para passar o tempo!

Wei Jianxiong sentou-se de pernas cruzadas e pegou as cartas:

— Por que tantas cartas assim?

Jiupou, orgulhoso, explicou:

— É que o Han inventou um novo jeito de jogar: duas baralhos misturados, quatro cartas para formar um “kan”, e quando sai a flor do kan, as apostas aumentam muito. Dá pra fazer “duplas”, vários pares e já se ganha...

— Parece interessante, explique as regras em detalhe — pediu Fei Yinghuan, sorrindo.

E logo, todos começaram a jogar uma espécie de mahjong.

Fei Yinghuan, Wei Jianxiong, Zhao Han e Jiupou sentaram-se à mesa, Qinxin continuou a massagear os ombros e Jiandan, ao lado, servia de consultor de cartas ao jovem mestre.

Após algumas rodadas, Fei Yinghuan pegou o jeito e achou o jogo bem mais divertido que antes.

O jovem Fei se alegrou:

— Velho Wei, ponha dinheiro na mesa, sem aposta não tem graça!

Wei Jianxiong tirou algumas moedas antigas, distribuindo duas para cada um. Ganhos e perdas ficavam por conta de Fei Yinghuan, e até quem não jogava recebia gorjeta.

Quanto ao inspetor Wei, Fei Yinghuan já o esquecera completamente.

Na embarcação ao lado, Hu Mengtai, da família Hu de Yongping, também parecia não querer mais servir de companhia ao inspetor.

Hu Mengtai, mais irreverente ainda, cansado de perder tempo, saiu abruptamente do camarote até a proa e, com um “plof”, caiu ao rio.

— O jovem caiu na água! O jovem caiu na água! — gritaram os criados, alarmados.

Fei Yinghuan, que estava formando uma sequência de cartas, ao ouvir os gritos ordenou:

— Remem depressa e salvem-no! “Peng”, oito de bambu!

O rio virou uma confusão; barcos próximos uniram-se para resgatar Hu Mengtai.

Fei Yinghuan mandou que ninguém mexesse nas cartas, saiu do camarote e, de longe, perguntou:

— Está tudo bem, Hu?

— Meu jovem desmaiou! — respondeu o criado da família Hu.

— Levem-no de volta ao condado para atendimento urgente — disse Fei Yinghuan.

O barco da família Hu deu meia-volta às pressas. No momento em que as embarcações se cruzaram, o supostamente desmaiado Hu Mengtai abriu os olhos e lançou um sorriso maroto para Fei Yinghuan.

Fei Yinghuan bateu a coxa e lamentou:

— Que ideia genial! Por que não pensei nisso antes? Hu, és realmente um talento!

Wei Jianxiong sugeriu:

— E se nós também caíssemos na água?

— Tolo! Uma vez basta, imitar só faz passar vergonha! — repreendeu Fei Yinghuan.

Zhao Han assistia à cena, sem palavras. Que gente era aquela?

(Dedicado a um livro: "Renascido: Ascensão em Hong Kong", novo romance do mestre Bintie.)