033【Que linhagem grandiosa】
Fei Yuanlu, chamado Xueqing, conhecido como Wuxue, era o diretor da Academia Hanzhu e o compilador da Genealogia da Família Fei. Era o filho primogênito legítimo do famoso ministro Fei Yaonian e sobrinho-neto de Fei Hong, o mais jovem laureado do exame imperial da dinastia Ming. Passados dos sessenta anos, mantinha apenas o título de licenciado, tendo ingressado no Colégio Imperial por privilégio familiar. Notabilizou-se pela poesia, autor de "Coletânea do Jardim Jiaxiu". Ninguém mais adequado que Fei Yuanlu para ser o próximo patriarca da família.
Naquele momento, Fei Yuanlu pintava em seu gabinete quando, de súbito, a porta foi aberta. Pang Chunlai, furioso, entrou puxando Xu Ying pela mão. Largando o pincel, Fei Yuanlu limpou as mãos com um lenço de seda e, sorrindo, disse:
— Que vento é esse que trouxe você, Weiran, até a montanha?
— Vento maligno! — respondeu Pang Chunlai, irritado.
Fei Yuanlu ficou surpreso, mas manteve o sorriso:
— Conte-me, quem foi que deixou você assim tão aborrecido?
Pang Chunlai apontou para Xu Ying, indignado:
— Seu primo enlouqueceu meu aluno! Um menino tão bom, ainda hoje cedo estudava comigo, e agora está nesse estado!
Fei Yuanlu, por fim, recolheu o sorriso e passou a observar Xu Ying com atenção. O rapaz olhava fixamente o vazio, os olhos sem foco, recitando incessantemente os Analectos:
— O Mestre disse: "O homem superior é íntegro, mas não inflexível. Íntegro, pois é correto e firme..."
Quanto mais ouvia, mais triste ficava Pang Chunlai, que deixou cair duas lágrimas grossas e, soluçando, disse:
— Este menino é pobre, mas de talento raro, e nunca deixou de lutar. Mesmo enlouquecido, não cessa de recitar os comentários aos Analectos. Desta vez, não descansarei enquanto não fizer justiça por ele!
— Calma, deixe-me examinar — apaziguou Fei Yuanlu.
Pang Chunlai sentou-se apoiando-se na bengala, fechou os olhos e procurou acalmar-se. Fei Yuanlu perguntou:
— Como você se chama?
Xu Ying continuou a recitar:
— O Mestre disse: "Caminhos diferentes não podem ser trilhados juntos." Caminhos, no tom grave. Diferentes, como o bem e o mal, o reto e o desviado...
Fei Yuanlu tomou o pulso de Xu Ying, examinando-o com atenção. Depois de longo tempo, suspirou:
— Ele está acometido de histeria, provavelmente causada por grande susto.
— Há cura? — perguntou Pang Chunlai, ansioso.
— Além de recitar sem parar, ele fala coisas desconexas ou agride alguém?
— Não, só bateu em seu primo — respondeu Pang Chunlai.
Fei Yuanlu tentou abrir as pálpebras de Xu Ying para examinar-lhe as pupilas, mas ao se aproximar, o rapaz assustou-se e recuou diversas vezes. Fei Yuanlu insistiu, aproximando-se para observar de perto, depois voltou à escrivaninha e escreveu uma receita, chamando seu assistente:
— Leve esta receita até a vila de Hekou para buscar as ervas. Aqui em Hanzhu estamos em falta com alguns ingredientes.
— Ele vai se recuperar? — insistiu Pang Chunlai.
— Depende do destino dele — respondeu Fei Yuanlu, tirando um estojo de madeira de onde pegou um conjunto de agulhas de acupuntura. — Weiran, ajude-me a segurá-lo.
Pang Chunlai levantou-se e segurou Xu Ying, dando-lhe tapinhas nas costas e acalmando-o suavemente:
— Não tenha medo, meu filho.
Talvez por sentir-se próximo de Pang Chunlai, Xu Ying logo se aquietou, parando até de recitar os Analectos, ficando tranquilo para que Fei Yuanlu aplicasse as agulhas.
Enquanto aplicava a acupuntura, Fei Yuanlu explicou:
— Este menino ficará por enquanto aqui na montanha. Eu mesmo lhe aplicarei acupuntura duas vezes ao dia. Não permitirei que desça, para evitar novos sustos. Aqui, ninguém ousa incomodar.
— Toc, toc, toc!
Alguém bateu à porta:
— Diretor, alguns alunos querem vê-lo.
— Diga-lhes que aguardem — respondeu Fei Yuanlu.
De repente, o mensageiro exclamou, assustado:
— Como vieram até aqui? Não podem entrar sem permissão!
Do lado de fora, ouviu-se a voz de Fei Ruhe:
— Senhor, os pais de Fei Yuanjian estão aqui, certamente procurando confusão por causa de Xu Ying... Estão entrando, estão entrando no pátio!
Fei Yuanlu, impassível, continuou a acupuntura e ordenou:
— Expulsem-nos, nada de confusão no pátio!
No pátio, Fei Songnian, pai de Fei Yuanjian, e sua esposa, Dona Zhang, chegaram carregados em liteiras, seguidos por mais de dez criados. Diante da ordem do diretor, alguns servidores tentaram barrar a entrada.
— Baixem as liteiras!
O casal logo desembarcou, apoiado por quatro criados. Fei Songnian era de alta linhagem, sobrinho do famoso ministro Fei Hong das eras Zhengde e Jiajing. Tão obeso que mal conseguia andar sem perder o fôlego; era admirável que os carregadores o tivessem trazido até ali.
Dona Zhang, por outro lado, estava muito bem conservada; com mais de cinquenta anos, mal aparentava a idade. Era a segunda esposa de Fei Songnian. A esposa legítima dera-lhe quatro filhas, e as concubinas, mais três — sem um único filho homem. Já Dona Zhang, mesmo casando-se já madura e passando anos sem filhos, deu-lhe finalmente um herdeiro quando Fei Songnian estava quase sessentão.
— Onde está o moleque que feriu meu filho? Está escondido aí dentro? — perguntou Zhang, furiosa.
O criado de Fei Yuanlu respondeu:
— Ordem do diretor: estranhos não devem perturbar.
Zhang explodiu:
— Eu, estranha? Até seu diretor me chama de tia na minha presença!
O criado não respondeu, apenas mandou que os servidores fechassem a porta.
Zhang ordenou aos seus criados:
— Venham, ponham esses insolentes para fora!
Os criados se entreolharam, mas ninguém ousou agir — afinal, estavam na Academia Hanzhu.
— Pra que servem, então?
Zhang, furiosa, tomou um bastão das mãos de um deles e foi ela mesma bater nos servidores da academia. Por ser a tia do diretor, eles não ousaram revidar e apenas se encolheram, protegendo-se como podiam.
Aproveitando a confusão, Zhang contornou os servidores e, bastão em punho, correu para a sala do diretor.
— Senhora, por favor, volte! — Zao Han, recém-chegado, postou-se à frente dela.
Zhang berrou:
— E você, de que ramo é, que ousa barrar meu caminho?
— Lago dos Gansos — respondeu Zao Han.
Zhang riu com desprezo:
— Mesmo de lá, o mais importante é meu sobrinho! De que geração você é?
Zao Han não respondeu.
Fei Ruhe, refletindo, postou-se ao lado de Zao Han e saudou:
— Saúdo a avó.
Bater nos servidores da academia era tolerável, mas os membros da família Fei não podiam revidar, ou isso traria problemas com os mais velhos.
Zhang olhou para além de Zao Han e Fei Ruhe, gritando em direção ao gabinete:
— Fei Yuanlu, sou sua tia! Saia já e faça justiça, seu irmão mais novo quase foi morto!
— Expulsem-nos! — trovejou a voz de Fei Yuanlu de dentro.
Fei Songnian, o pai de Fei Yuanjian, parecia um pouco mais sensato. Rolando como uma bola, aproximou-se de sua esposa e tentou acalmá-la:
— Os médicos já disseram, Jian só sofreu ferimentos leves, o chapéu o protegeu. Vamos conversar com calma...
— Papo furado! — Zhang agarrou a orelha do marido, ralhando como se fosse um neto. — Nosso filho sangrou tanto, quase morreu, e você quer que eu fique calma? Quero ver você ficar calmo!
— Acalme-se, minha senhora, acalme-se! — Fei Songnian, quase octogenário, demonstrava temer a mulher. Pedia clemência enquanto os servidores da academia reprimiam o riso, deixando-o envergonhado. Livrou-se dela e protestou:
— Que absurdo, que desrespeito, uma vergonha para nossa família!
Zhang ralhou:
— Inútil, só sabe bancar o teimoso comigo. Chame logo seu sobrinho!
Fei Songnian, sem alternativa, dirigiu-se ao gabinete:
— Sobrinho, venha conversar.
Lá dentro, enquanto aplicava a acupuntura, Fei Yuanlu ironizou:
— O tio realmente tem fibra de homem, não sei se imita Fang Xuanling ou admira Qi Wuyi?
Fei Songnian calou-se, o rosto corando de vergonha.
De repente, Pang Chunlai saiu e fechou a porta atrás de si. Aproximou-se de Fei Songnian e lhe estendeu o "Comentário dos Quatro Livros" encharcado.
— Reconhece este livro?
Fei Songnian, respeitosamente, respondeu:
— Naturalmente, é o "Comentário dos Quatro Livros", anotado pelo Mestre Zhu.
Pang Chunlai explicou:
— Tenho um aluno pobre, que mal consegue comprar livros. Ele sofre frequentemente humilhações de seu filho, e hoje este ainda destruiu seu livro. Recorda-se do "Código de Conduta da Família Fei"?
— Sim... sim, lembro — respondeu Fei Songnian, suando.
Pang Chunlai continuou:
— O código ensina a maltratar vizinhos e humilhar colegas?
Fei Songnian ficou sem resposta.
— E ensina a destruir livros sagrados?
Zhang irrompeu em gritos:
— Velho pedante, não venha com sermão. Meu filho...
— Paf!
Fei Songnian, de repente, virou-se e deu um tapa na mulher, ordenando:
— Cale a boca!
Zhang ficou atônita, depois caiu em prantos, esbravejando:
— Tantos Fei Songnian! Eu, uma filha de um grande clã, aceitei casar-me com você como segunda esposa, dei-lhe um filho aos quarenta e tantos anos, e agora, quando quase matam nosso filho, você nem tenta fazer justiça e ainda me agride? Onde está sua consciência? É homem ou não é?
Fei Songnian, profundamente constrangido, não sabia o que fazer, apenas tentou acalmá-la:
— Minha senhora, vamos para casa conversar.
— Não me interessa! Hoje preciso desabafar! — Zhang não largava o osso.
Fei Songnian sussurrou:
— Aqui é a Academia Hanzhu, e nosso Jian está errado. Ele destruiu um livro sagrado. Mesmo que levemos o caso ao templo ancestral, não teremos razão. Ouça-me, não faça mais escândalo. Oportunidade para desabafar não faltará, e você não precisa temer os camponeses do vilarejo.
Zhang, sentindo-se convencida, mas não querendo dar o braço a torcer, apontou para o gabinete:
— Muito bem, Fei Yuanlu, protege estranhos para humilhar os mais velhos? Veremos, virei cobrar satisfações outro dia!
Vendo a facilidade com que o casal se retirou, Zao Han achou estranho.
Sussurrou então para Pang Chunlai:
— Mestre, acho que vão se vingar da família de Xu Ying.
Pang Chunlai refletiu por um momento:
— Ajude-me a ir ao templo ancestral da família Fei!