Capítulo Catorze — Veneno

O Poder dos Eunucos Sob as Saias 2462 palavras 2026-02-07 16:40:33

A imperatriz viúva, cada vez mais tomada por pensamentos venenosos, exibia um sorriso cada vez mais afável.
— Meu bem, por que ainda te importa aquelas lojas, depois de tanto tempo? São apenas alguns estabelecimentos de pouca prosperidade, de que te serviriam?
Além disso, você é de sangue nobre, como poderia se envolver com tarefas tão pesadas e impuras? Deixe que os criados cuidem da administração dessas lojas.
Se fosse a antiga Ming Shu, ao ouvir isso, já teria desistido. Administrar lojas é cansativo e pouco recompensador; entregar a responsabilidade a outros seria a melhor escolha.
No entanto, só quando morreu em sua vida anterior é que Ming Shu percebeu que aquelas lojas eram muito mais valiosas do que pareciam. Como poderia sua mãe lhe deixar algo inútil?
Sua mãe, ao que tudo indicava, já previra a ambição feroz da imperatriz viúva, e deixou uma carta na manga especialmente para ela. Quando o perigo surgisse, aquelas lojas seriam seu trunfo para proteger a própria vida e o império.
Esses segredos só vieram ao conhecimento da imperatriz viúva um ano depois. Agora, ela não se importava com as lojas, nem queria que Ming Shu obtivesse algum benefício delas.
Mas, quando descobriu o verdadeiro valor daqueles estabelecimentos, tornou-se ainda mais relutante em devolvê-los à princesa.
Além disso, a imperatriz viúva usou a força dessas lojas para elevar significativamente sua própria posição, rompendo o equilíbrio entre as três grandes facções. Isso tornou a luta de Rong Wu Wang contra ela cada vez mais difícil.
— Imperatriz viúva, essas lojas são lembranças que minha mãe deixou para mim. Pode não serem valiosas, mas têm significado. Quando era pequena, não sabia administrá-las, mas agora, adulta, posso cuidar delas com facilidade e desejo ajudar a Vossa Majestade a aliviar suas preocupações.
Ming Shu insistiu em reivindicar as lojas, ignorando as tentativas de dissuasão da imperatriz viúva. O que era dela, deveria ser recuperado; caso contrário, seria usado contra ela.
A imperatriz viúva soltou sua mão, assumindo uma postura severa, e sua voz carregava uma ira reprimida.
O calor da tensão era quase palpável.
— Ainda creio que não é apropriado. Você é uma princesa, não deveria se envolver em tais labores. Se precisa de prata, posso lhe dar dois baús de tecidos finos, ouro e joias, muito mais valiosos do que aqueles estabelecimentos decadentes.
Ming Shu, em pensamento, xingou a astúcia da imperatriz, mas respondeu com voz suave, sem deixar brechas.
— Vossa Majestade é generosa; aceitarei as joias.
Já que não poderia recuperar as lojas agora, era melhor esperar o momento certo. Aceitou de bom grado os tecidos, o ouro e as joias oferecidos. Afinal, para manter relações e influências, nunca é demais ter prata.
E com dinheiro, era mais fácil circular pelo palácio.
A imperatriz viúva, vendo que Ming Shu era sensata e não causava tumulto, relaxou o semblante, massageou as têmporas e fez sinal para que se retirassem.
— Não se esqueça do símbolo militar dentro de sete dias.
O que realmente preocupava a imperatriz era aquele símbolo capaz de mobilizar cem mil soldados. O antigo imperador, enquanto vivo, confiava profundamente em Rong Wu Wang, concedendo-lhe supremo comando e um exército de cem mil homens.
Em tempos de paz, esses soldados permaneciam em prontidão; em guerra, eram uma lâmina implacável, invencíveis. Um eunuco com tais poderes era quase comparável ao general protetor do reino, algo raríssimo.
Ainda assim, a imperatriz viúva via essas tropas como espinhos em sua garganta, não a deixavam dormir em paz. O único modo de tranquilizá-la seria tomar posse desses soldados, enfraquecendo o poder militar de Rong Wu Wang.
— Entendido, Majestade — respondeu Ming Shu, mas só externamente.
Na verdade, pensava em como agir. A imperatriz era forte e sua influência no governo era profunda; derrubá-la não seria simples. Contudo, se Ming Shu conseguisse se aliar a Rong Wu Wang, suas chances aumentariam consideravelmente.
Mas colaborar com Rong Wu Wang era como negociar com um tigre; seria preciso avançar com cautela. Na situação atual, como ele poderia confiar nela ou aceitar uma parceria?
Suspirando, Ming Shu já tinha um plano em mente.
Ela e Ming Zhe deixaram juntos o Palácio Fengkun.
Quando já estavam longe, Ming Zhe, com olhos límpidos e preocupados, segurou sua mão e perguntou:
— Irmã, depois de tanto tempo ajoelhada, suas pernas doem?
Ming Shu, imersa em seus pensamentos, relaxou ao ouvir isso, sentindo uma onda de ternura. Seu irmão era seu único parente, o único que realmente se importava com ela.
Ela afagou os cabelos dele, falando com doçura:
— Não dói, pode ficar tranquilo. Sua irmã não é tão frágil quanto você pensa.
— Mas por que a irmã precisa se unir a alguém tão traiçoeiro como Rong Wu Wang? Ao estar ao lado dele, não está traindo a mim e à imperatriz viúva?
No rosto inocente de Ming Zhe havia uma expressão de mágoa; ser traído era como sofrer mil cortes. Se fosse outra pessoa, ele não se importaria, mas tratava-se de sua irmã, impossível não se abalar.
— Ming Zhe, se eu disser que as pessoas ao seu redor te enganam constantemente, você acreditaria?
Ming Shu apertou a garganta; ela havia renascido, mas Ming Zhe não. Até o fim de sua vida anterior, ele nunca enxergou o verdadeiro rosto da imperatriz viúva. Agora, será que seu único irmão acreditaria nela?
Ming Zhe franziu as sobrancelhas delicadas, o olhar passando da confusão ao aborrecimento.
— Irmã, você está insinuando que a imperatriz não nos ama de verdade?
Ele compreendeu de imediato, ou talvez houvesse uma sintonia entre ambos; não precisavam de muitas palavras para se entenderem.
Antes que Ming Shu pudesse explicar, Ming Zhe se irritou.
— Irmã, não imaginei que você fosse tão influenciada por Rong Wu Wang a ponto de duvidar da imperatriz viúva. Sem ela, seríamos devorados por outras facções; foi graças à sua proteção que temos futuro.
O jovem imperador, ainda fraco e dependente, contava com o apoio da imperatriz e de Ming Shu. Outras forças os observavam como predadores, ansiosos por destruí-los.
— Isso é apenas o que a imperatriz permite que você veja, na verdade...
Ming Shu deixou escapar um brilho frio nos olhos, mas, sem provas, não podia ser muito clara com Ming Zhe. Quem acreditaria em algo como renascer?
Subitamente, Ming Zhe empalideceu, segurou o peito e só teve tempo de lançar um olhar à irmã antes de desmaiar.
O caos tomou conta do ambiente.
Antes da chegada dos médicos imperiais, Ming Shu examinou cuidadosamente o pulso do irmão, descobrindo que havia um veneno potente em seu sangue. Não era letal de imediato, mas podia alterar profundamente sua personalidade.
O irritante era que Ming Shu não conseguia encontrar uma cura rapidamente; só pôde lhe dar uma pílula para aliviar o calor e neutralizar temporariamente o veneno.
Ao ouvir passos atrás de si, escondeu o frasco de remédios. Não podia revelar suas habilidades médicas diante da imperatriz viúva e seus aliados, pois isso poderia lhe trazer a morte.
— O que aconteceu com Ming Zhe? Ele estava se recuperando bem na montanha, por que ainda está tão debilitado?
A imperatriz viúva, cheia de preocupação, sentou-se à cabeceira, segurando a mão de Ming Zhe e, vez ou outra, enxugando lágrimas inexistentes com seu lenço. Representava a mãe piedosa à perfeição.
— O corpo de Sua Majestade não tem grandes problemas, apenas sofreu uma forte oscilação emocional — explicou o médico imperial.