Capítulo Quarenta: Confronto
A agilidade de Pêssego de Primavera era notável; em poucos dias, resolveu todos os assuntos. Nesses dias, nem se sabia com o que Rong Wuwang estava tão ocupado, pois não teve tempo sequer de se importar com ela. Melhor assim: ela mesma se poupava do incômodo de lidar com ele com sorrisos e reverências.
Yi Qin, nesse instante, trajava o vestido de princesa e estava sentada na cama, enquanto Pêssego de Primavera prendia-lhe cuidadosamente os adornos no cabelo. Yi Qin desde pequena aprendera etiqueta no palácio e, por anos, convivera com Ming Shu, conhecendo bem seus gostos e modo de falar. Além disso, seu porte assemelhava-se ao de Ming Shu; ao se disfarçar assim, realmente dava a impressão de que uma fora substituída pela outra.
Já Ming Shu vestia-se como uma criada rude, curvada, a cabeça enfeitada com tiras de pano velho; o rosto, todo borrado de rouge por Yi Qin, tornava impossível reconhecer-lhe as feições originais.
— O tempo já avança, princesa. Vá e volte logo — disse Yi Qin, apressando-a, mas a preocupação em seu olhar só aumentava.
Ming Shu afagou-lhe o dorso da mão, tentando acalmá-la. — Não se preocupe.
Em seguida, saiu com Pêssego de Primavera. Pelo caminho, Pêssego de Primavera resmungava:
— Achei que o quarto da princesa precisasse de uma criada forte, e, pensando nas dificuldades da sua família, recomendei você. Quem diria que ousaria cobiçar os adornos da princesa! Já é bondade da princesa não ter mandado espancá-la até a morte. Agora, vai embora, e não manche os olhos da princesa!
Ming Shu, curvada, acompanhava com acenos de cabeça. Saíram da mansão, contornaram algumas vielas e só então subiram na carruagem.
— Princesa, vá cuidar dos seus assuntos sem se preocupar com a mansão. Eu e a irmã Qin saberemos agir conforme a situação.
Sabendo da urgência, Ming Shu não ousava perder tempo. A carruagem partiu. Balançava de um lado para o outro, como se ainda não estivesse segura, vagando várias vezes pelas ruas antes de finalmente entrar num pátio no extremo leste do subúrbio.
Ming Shu bateu à porta. Alguém, que parecia esperar havia muito, abriu imediatamente.
Um jovem gracioso, como jade, era Gu Hezhen.
Ele a examinou de cima a baixo e imediatamente puxou-a para dentro.
— Se veio, por que tanta cautela?
Ming Shu sorriu, mostrando os dentes. — Se é para representar, que seja com perfeição. Não foi você quem me ensinou isso, irmão?
Gu Hezhen apertou os lábios, sem resposta. Às vezes, sua irmã de aprendizado era ainda mais obstinada do que ele.
Sabia também que, uma vez que Ming Shu tomava uma decisão, não voltava atrás.
— Não precisava ir tão longe. Você...
— Irmão! Você sabe que preciso daquele objeto. É a única coisa que minha mãe me deixou neste mundo.
Ming Shu sabia o que o irmão, de coração mole, iria dizer. Sorriu, amarga.
— Não tenho outra escolha. Só posso usar a mim mesma como isca para começar o jogo.
Gu Hezhen a olhou longamente e, por fim, suspirou, resignado.
— Já que decidiu mover as peças, só me resta ajudá-la.
No quarto, os longos cabelos de Ming Shu desabaram, o colarinho aberto revelando a pele branca e lisa sobre o peito. O suor banhava-lhe a testa, e a dor que suportava era tamanha que mordeu o lábio até sangrar. Os fios da testa estavam molhados, e o vermelho do sangue tingia seus lábios, tornando-a ainda mais sedutora e misteriosa.
Gu Hezhen, concentrado, aplicou a última agulha e soltou um suspiro de alívio.
— Depois desta noite, o veneno começará a agir. Você sentirá como cupins corroendo os ossos, pior que a morte. Se não conseguir o antídoto em dez dias, morrerá sem dúvida.
Ming Shu estava exausta. Recostou-se na cama, encontrou o olhar preocupado de Gu Hezhen e esboçou um sorriso fraco.
— Você me conhece. O que eu quero, eu consigo.
— Mas...
BAM!
Gu Hezhen ainda queria dizer algo, mas o som brusco de alguém arrombando a porta o interrompeu.
O alarme soou no íntimo de Ming Shu. Ela olhou para Gu Hezhen com firmeza intransigente:
— Vá! Depressa! Fuja da capital!
Gu Hezhen franziu o cenho. Ming Shu, aflita, sabia o que lhe preocupava e garantiu, confiante:
— Não me acontecerá nada. Confie em mim.
Gu Hezhen hesitou, mas, ao ver o olhar quase suplicante dela, cedeu.
— Espero por notícias suas.
Dito isso, saltou e desapareceu pela janela.
Ming Shu rapidamente removeu as agulhas do corpo antes do tempo previsto. A pressa fez com que a energia vital circulasse ao contrário, enchendo-lhe a boca com o gosto forte de sangue. Mordeu os dentes com força e apoiou-se para tentar levantar.
A porta foi arrombada com violência, partindo-se em pedaços no chão.
Ao ver quem era, Ming Shu prendeu a respiração, mas manteve um leve sorriso nos lábios.
— Alteza...
Antes que pudesse terminar, sentiu a garganta ser apertada.
Rong Wuwang, com olhos avermelhados, fitava-a ferozmente, apertando cada vez mais.
— Você ousa!
Ming Shu entendeu o mal-entendido. Cerrou os lábios de dor, as mãos tentando afastar as dele. Rong Wuwang não afrouxava o aperto. O rosto dela começou a ficar arroxeado, os olhos revirando, um fio de sangue escorrendo pelos lábios.
O sangue respingou na mão de Rong Wuwang, cujo toque frio dissipou lentamente a fúria de seus olhos. Ele soltou a mão.
Ming Shu, enfim podendo respirar, arfava, tossindo convulsivamente, o rosto alternando entre pálido e rubro.
Rong Wuwang a olhava do alto, altivo como se fitasse um inseto, o olhar sem emoção alguma.
Ming Shu, uma das mãos ao peito, estava tão fraca que sua mão delicada parecia poder ser quebrada com facilidade. Segurou a barra da roupa dele, balançando suavemente.
Antes que dissesse algo, vomitou sangue sobre o lençol, uma mancha chocante.
Ao ver aquilo, Rong Wuwang franziu ainda mais a testa. Mas ela não largou seu manto.
Ming Shu reuniu as últimas forças para se manter erguida. Levantou o olhar, as palavras saindo num fio:
— Sei que Vossa Alteza não acredita em mim. Não me justifico, só peço dez dias. Após isso, tudo será esclarecido. Se eu não lhe der uma resposta satisfatória, não precisará sujar as mãos: eu mesma me enforcarei diante de sua mansão.
Uma lágrima cristalina escorreu do canto do olho.
Rong Wuwang, ao ver aquilo, sorriu de escárnio.
— A princesa realmente me surpreende. Sua atuação supera a dos melhores atores do palco.
Ming Shu engoliu o sangue, sorrindo amargamente. Soltou a roupa de Rong Wuwang, ergueu a mão em juramento, fitando-o diretamente com olhar decidido.
— Juro pela memória da minha mãe: se eu fizer algo que manche o nome de Vossa Alteza, tudo o que desejo será em vão! Tudo o que tentar, jamais conseguirei!
Rong Wuwang encarou aqueles olhos firmes, ouvindo suas palavras, e um sentimento inexplicável lhe revolveu o íntimo, perturbando-lhe o controle e fazendo-o semicerrar os olhos.
Ming Shu, por fim, perdeu todas as forças e desmaiou.
Rong Wuwang olhou para ela, agora sem vida, e seu ar gélido afastava qualquer um. Num instante, abaixou-se e a recolheu nos braços.
Com seus mais de dois metros de altura, Ming Shu parecia uma criança em seu colo.
Olhando para o rosto pálido dela, virou-se e ordenou friamente:
— Mantenham segredo absoluto sobre o ocorrido. Não deixem que se espalhe.