Capítulo Trinta e Quatro: Aposta
A princípio, Mingrou era uma mulher destemida, que nunca temia nada nem ninguém. Costumava dirigir-se a Mingzhu de maneira sarcástica, fazendo-a passar por maus bocados. Contudo, nos últimos tempos, Mingzhu tornara-se cada vez mais enigmática; tudo em que ela se envolvia parecia acabar em desgraça. Bastou um olhar de Mingzhu para que Mingrou se recordasse dos tapas que recebera dela e, tomada de receio, apressou-se a desvincular-se da criada de rosto arredondado.
Se fosse antes, Mingzhu certamente não perceberia as ironias em suas palavras e não reagiria com tanta veemência. Desta vez, porém, não só percebeu o tom sarcástico, como ainda ameaçou entregar a criada ao Tribunal de Justiça. Se aquela garota de rosto redondo acabasse por denunciá-la, não seria um grande prejuízo? O que poderia fazer, então? Restava apenas empurrar a criada à culpa.
"O que está esperando? Bata nela com força!"
Mingrou ordenou à ama de companhia que agisse, mas, com um olhar, deixou claro que era apenas para fingir, sem machucar de verdade a jovem. Depois de dois tapas, Mingzhu falou friamente:
"A ama não almoçou? Por que está tão fraca?"
A ama respondeu: "Já bati com toda a força, alteza."
"Ainda ousa retrucar? Chuntao, mostre-lhes o que significa bater com força."
As demais jovens silenciaram, sentindo, pela primeira vez, o peso da autoridade da Princesa Imperial em Mingzhu.
Chuntao avançou e deu um tapa tão forte na ama que sua própria mão ficou inchada e vermelha. A ama cambaleou e caiu dos degraus, demorando a se levantar.
Mingrou, furiosa, levantou-se e gritou, apontando para Chuntao:
"Você, insolente, ousa bater assim na minha ama?"
Chuntao ajoelhou-se, mantendo a compostura:
"Não entendo, alteza. A ama caiu porque não se firmou, o que isso tem a ver comigo? Será que está encenando para fazer Vossa Alteza se compadecer?"
Mingrou quis protestar, mas Mingzhu sorriu:
"Irmã, por que se exaltar tanto por causa de uma criada? Se ela é idosa demais para se manter de pé, é hora de trocá-la por alguém mais ágil. Chuntao, continue."
Chuntao obedeceu e bateu no rosto da jovem de face arredondada até que este ficasse inchado.
Algumas jovens aristocratas suspiraram de alívio por não terem sido elas a provocar a princesa.
O Pavilhão dos Oito Tesouros estava agitado, atraindo olhares de muitos jovens nobres. O jovem marquês do Norte, curioso, olhou várias vezes na direção do pavilhão.
"Lá está animado, por que não vamos ver?"
"Se o senhor deseja, vamos até lá."
Enquanto isso, Rong Wuwang permanecia sozinho à beira do quiosque, bebendo uma taça após outra, alheio ao burburinho, sua frieza assustando os que passavam. Ainda assim, qualquer novidade do salão era imediatamente relatada por Xiaozhuzi.
Rong Wuwang lançou um olhar na direção do pavilhão, e embora nada enxergasse claramente, ao imaginar o rosto vivo e resplandecente da Princesa Imperial, ordenou:
"Observe. Se alguém ousar fazer-lhe mal, faça com que se arrependa amargamente."
Ninguém, além dele, tinha permissão de intimidar Mingzhu.
Quando Chuntao deu mais de uma dezena de tapas na jovem, uma mão vigorosa a deteve.
"Hoje é uma rara festa de primavera, um dia para abençoar Qisheng. Como pode Vossa Alteza agir assim? Não teme ser chamada de cruel e insensível?"
O jovem marquês Meng Yueguang fitou Mingzhu, o desprezo evidente em seus olhos.
Os jovens nobres aguardavam ansiosos pelo desenrolar da cena. Todos em Jingcheng sabiam do amor que a Princesa Imperial nutria pelo jovem marquês do Norte. Era tão intenso que, em tempos, quase se atirara ao lago quando não foi correspondida. Desiludida, acabou casando-se com o Duque Qiansui, mas o sentimento pelo marquês certamente permanecia.
Agora, o confronto entre Mingzhu e o marquês prometia ser memorável! Ele, homem de coração bondoso, jamais suportava ver injustiças, especialmente perpetradas por Mingzhu, de quem tanto desgostava. Portanto, sentia-se obrigado a intervir.
Mingrou, já tomada pela raiva, reviveu-se ao ver Meng Yueguang aproximar-se, seus olhos brilhando de esperança. Ambos, ela e Mingzhu, haviam sido apaixonadas por aquele jovem vistoso. Mas ela não era tão bela nem possuía o mesmo status.
Para conquistar o coração do marquês, Mingrou intrigou e caluniou Mingzhu inúmeras vezes. Até hoje, Mingzhu não compreendia o motivo da aversão do marquês.
Enfim, Mingzhu era agora casada, e o amor do marquês era um objetivo que Mingrou não abriria mão.
"Marquês, precisa nos defender. Minha irmã, por ser princesa, nos ameaça com violência. É assustador."
Mingrou escondeu sua arrogância, refugiou-se atrás do marquês e olhou Mingzhu com superioridade, certa de que nada mais havia a temer.
"Fique tranquila, não tolerarei injustiças", assegurou Meng Yueguang, virando-se para Mingzhu, exigindo uma explicação.
"O que isso tem a ver com você?"
Mingzhu abriu os lábios pintados de vermelho, desprezando tanto Mingrou quanto Meng Yueguang.
Na vida passada, ela já se encantara por Meng Yueguang, acreditando que ele era radiante como o sol nascente. Mas, ao conhecê-lo, percebeu que não passava de alguém comum. Ele acabou casando-se com Mingrou e juntos criaram uma família harmoniosa, cujo filho herdou o trono.
Ora, o império de Qisheng terminaria nas mãos do Duque do Norte? Inconcebível.
Agora, ao reencontrar Meng Yueguang, ela o achava banal, sem comparação possível com Rong Wuwang, cuja nobreza e frieza natural não podiam ser imitados.
Meng Yueguang, crendo que Mingzhu cederia, ficou surpreso com sua resposta cortante.
"Você... Quero dizer, não pode tratar os outros assim, está abusando do seu poder."
Pela primeira vez, Meng Yueguang avaliou Mingzhu seriamente. Hoje, ela estava diferente. Sua beleza era inegável, mas a antiga timidez desaparecera, como uma joia ofuscada que, ao ser limpa, brilhava intensamente.
"Se tiverem capacidade, tentem me superar", desafiou Mingzhu.
E abusar do poder, então? Ser princesa não é para isso?
Meng Yueguang, irritado, respirou fundo.
"Por que Vossa Alteza não aceita conselhos? Que tal fazermos uma aposta?"
Havia pincéis, tinta e papel sobre a mesa e ele pretendia convencê-la pela razão.
"Ah?", Mingzhu arqueou a sobrancelha.
"Vamos competir em pintura. Se eu vencer, você a perdoa."
Era certo que ele ganharia, apenas uma formalidade.
"E se eu ganhar?", indagou Mingzhu, acomodando-se e fitando-o.
Mingrou não pôde deixar de zombar:
"Meng é o maior artista do reino, como você poderia vencê-lo?"