Capítulo Setenta e Cinco – O Obstáculo no Caminho
As pálpebras de Mingzhu ardiam levemente. Ela soltou um leve gemido e abriu os olhos.
O teto era plano, um pendente balançava suavemente. O olhar de Mingzhu se aguçou e, num instante, ela percebeu onde estava.
“Irmão sênior—”
Já estavam a caminho das Terras Miao, então seu estado certamente havia se agravado. Mingzhu quis procurar Gu Hezheng para conversar, mas mal começou a falar, a porta da carruagem foi empurrada de fora, e uma rajada de vento frio entrou, fazendo-a estremecer e sentir uma coceira na garganta.
“Cof, cof, cof—”
Ela começou a tossir violentamente, como se fosse expelir os próprios órgãos.
“Senhora—” Yiqin, agitada, espiava do banco da carruagem. Ao ouvir a tosse de Mingzhu, quis entrar imediatamente, mas ao ver a figura imponente de Rong Wuwang bloqueando a porta, só pôde olhar para ele com ansiedade: “Por favor, Alteza, permita-me passar. A senhora está tossindo tanto, deve estar sofrendo muito. Deixe-me entrar para servi-la...”
Rong Wuwang, porém, ignorou-a completamente.
Seu rosto estava gélido, e com o manto de raposa branca, parecia envolto em neve e gelo, tornando impossível qualquer aproximação.
Yiqin, determinada a proteger sua senhora, cravou os dentes e tentou forçar passagem, mas o som da tosse na carruagem cessou de repente, restando apenas o vento cortante do veículo em disparada.
“Reconhece seu erro?”
Yiqin franziu as sobrancelhas, sem saber para quem Rong Wuwang dirigia aquelas palavras.
Estava prestes a responder quando ouviu a voz de sua senhora, levemente resignada: “Reconheço, venha logo, está tão frio aqui dentro.”
Apenas então Rong Wuwang resmungou, entrando na carruagem. Yiqin tentou segui-lo, mas uma rajada veloz veio em sua direção. Apesar de estar aprendendo artes marciais com Ping’er e An’er, e seu progresso ser lento, sua constituição já era bem mais forte. Vendo o golpe se aproximar do rosto, recuou rapidamente, escapando por pouco do fechamento da porta.
De dentro, ouviu-se Mingzhu: “Por que disputa com Yiqin? Ela não é páreo para você.”
“Garota sem noção, merece uma lição.”
Yiqin rangeu os dentes, entendendo que Sua Alteza não queria que ela cuidasse da senhora. Contudo, ao lembrar do semblante pálido de Mingzhu, saltou da carruagem e foi buscar ajuda.
Dentro do veículo, o rosto de Mingzhu, antes pálido, agora mostrava certa cor devido à tosse. Rong Wuwang a observava em silêncio, sentado com imponência.
Mingzhu não sabia se ria ou chorava.
Já sabia que ele era mesquinho, mas não imaginava que sua aversão por Gu Hezheng fosse tão profunda, a ponto de se irritar só por ela ter chamado o irmão sênior ao despertar.
Seus cílios tremeram, e um pensamento estranho lhe ocorreu:
“Alteza...”
“Fora de casa, chame-me pelo nome.”
Mingzhu arregalou ligeiramente os olhos. O nome de Rong Wuwang girou em sua língua, mas ela não conseguiu pronunciá-lo.
Por fim, desviou-se do tratamento, franzindo o cenho: “Saímos de repente da capital, está tudo resolvido por lá? E quanto ao motivo da partida, e Zhezhe...”
“Pelo visto, sua saúde está ótima, já que se preocupa com esses assuntos insignificantes.”
O tom de Rong Wuwang não era frio, mas mesmo assim fez Mingzhu sentir um calafrio.
Aquela ideia em seu coração só crescia. Num repente, ergueu os olhos para ele, carregando no olhar uma leve curiosidade e sentimentos inexplicáveis: “Você... está zangado?”
“Foi algo que fiz de errado?”
Ao encarar o rosto inocente e um pouco magoado da jovem, Rong Wuwang sentiu uma opressão inexplicável.
Passara a noite ao lado dela, saíra ao amanhecer por breve momento para resolver assuntos com os subordinados e, ao voltar, ouvira-a chamar pelo irmão sênior.
Hmph.
Seriam todas as mulheres tão volúveis?
Seu olhar se aprofundou, mas afinal, o que isso importava?
“Não, você acabou de acordar, não fale muito. Descanse.”
Levantou-se para sair, mas ao chegar à porta, parou, como se tivesse lembrado de algo, e lançou em tom grave: “Tudo já está resolvido.”
Sem esperar resposta, partiu apressado.
O vento frio entrou, logo sendo bloqueado novamente. Mingzhu estremeceu, um leve traço de dúvida nos olhos.
Esse Rong Wuwang estava estranho.
...
“Alteza Rong.”
A comitiva precisou parar para reabastecer; homens e cavalos necessitavam de descanso. Gu Hezheng, ao ouvir que Mingzhu despertara, quis ir vê-la, mas foi impedido por Rong Wuwang à porta da carruagem.
“O que significa isso, Alteza Rong?”
Gu Hezheng pousou a mão na flauta presa à cintura.
Rong Wuwang lançou-lhe um olhar de desprezo: “Está devidamente preparado para ir às Terras Miao?”
A partida fora apressada, e Rong Wuwang temia que Gu Hezheng decepcionasse.
Gu Hezheng arregalou os olhos: “Está duvidando da minha capacidade?”
Que piada! Quando ele já percorria o mundo, Rong Wuwang já era... bem, já tinha poder absoluto.
“Hum,” Gu Hezheng coçou os lábios, disfarçando o constrangimento: “Fique tranquilo, já estou preparado. Mas, Alteza, aviso desde já: encontrar o veneno vitalício não será fácil; aquele povo das Terras Miao não é de fácil trato. Basta um deslize e acabaremos em conflito. Minha irmã não aguentará muito mais.”
O semblante de Rong Wuwang se fechou, mas antes que pudesse responder, ouviu-se um alvoroço ao longe.
Trocaram olhares, Gu Hezheng saudou-o e entrou direto na carruagem.
Rong Wuwang semicerrrou os olhos, conteve a raiva e dirigiu-se rapidamente ao local do tumulto.
“O que houve?”
Alguns subordinados se afastaram, permitindo que Rong Wuwang visse a cena—
Um grupo de refugiados miseráveis, de aspecto famélico e roupas esfarrapadas, ajoelhava-se no chão. Haviam percebido a riqueza da comitiva e imploravam por compaixão, desejando um pouco de comida.
“Se não for comida, ao menos alguma roupa... Por favor, tenha piedade... O inverno já está chegando, vamos morrer de frio...”
“Misericórdia, não queremos morrer...”
Rong Wuwang lançou um olhar indiferente àquela miséria, e, sem demonstrar emoção, fez um gesto com a mão: “Resolva isso.” Virou-se para partir.
“Você não pode ir embora!”
Uma voz infantil ressoou: “Você claramente é rico, por que não nos ajuda?”
Gu Hezheng e Mingzhu ouviram a algazarra de dentro da carruagem. Mingzhu já estava bem melhor; embora o interior do veículo fosse estável, sentia-se sufocada. Pediu a Yiqin que a cobrisse com um manto e saiu, ouvindo justamente aquela frase.
Mingzhu se surpreendeu ao ver que o todo-poderoso Alteza Rong, tão influente na capital, agora era interpelado numa estrada rural por alguém exigindo auxílio.
Mesmo Gu Hezheng, de bom coração, achou a situação embaraçosa: “Dizer isso a Rong Wuwang? Mesmo a mim, não adiantaria pedir.”
Mingzhu ia concordar, mas ao perceber, pelo canto do olho, o braço nu de uma criança, seu olhar se aguçou: “Tragam aquela pessoa aqui!”