Capítulo Vinte e Cinco – Fuga Desesperada
Primavera ainda nunca tinha ouvido sua princesa responder desse modo à Imperatriz Viúva, ficando levemente surpresa.
Mas, afinal, era criada de Sua Alteza, não um cão de guarda da Imperatriz Viúva.
Ela respondeu suavemente: “A princesa tem razão, o Reino de Qisheng sempre pertenceu à senhora e ao imperador. O que a Imperatriz Viúva diz não tem valor algum.”
Sheng Mingshu sorriu graciosamente e retirou uma pulseira de jade, presenteando-a.
Na vida anterior, Primavera passara por muitas dificuldades ao seu lado, sendo a única que lhe permaneceu verdadeiramente leal.
Primavera recusou várias vezes: “Vossa Alteza já disse que não possui propriedades em seu nome, nem gere os assuntos da casa no Palácio do Príncipe, que geralmente não dispõe de muitos recursos. Uma serva como eu não ousa aceitar.”
O sorriso de Sheng Mingshu se aprofundou. Tomou a mão da criada e colocou-lhe a pulseira à força.
“Estamos juntas há tantos anos, somos quase irmãs. Além disso, tua aparência reflete minha imagem. Se alguém te desprezar, não será também a mim?”
Só então Primavera, assustada, aceitou. Lembrava-se de que, antes, a princesa não só tinha um temperamento difícil, como também era altiva. Embora não maltratasse as criadas, jamais as trataria como irmãs.
Agora, porém, Sua Alteza era acessível, forte e imponente, fazendo brotar em Primavera um orgulho espontâneo.
Tornou-se ainda mais firme em seu propósito: protegeria Sua Alteza a todo momento, não permitiria que sofresse o menor infortúnio.
Do lado de fora da carruagem, ouviu-se nova gargalhada.
Gong Xipeng tentava escapar dos oito brutamontes e, ao se levantar, quase conseguiu apanhar o pacote de remédios.
Xu Hao, porém, fingiu um ataque e desferiu-lhe um chute no peito, derrubando-o novamente ao chão.
Desta vez, Gong Xipeng já não tinha forças para se erguer.
As zombarias dos outros eram cortantes, levando Sheng Mingshu a franzir as sobrancelhas.
“Gong Xipeng, não é você o instrutor de artes marciais? Como pode ser tão inútil? Nem consegue recuperar um pacote de remédios?”
Xu Hao, que já fora derrotado por Gong Xipeng no passado, não engolia o orgulho ferido. Desde então, aproveitava qualquer oportunidade para humilhá-lo e atacá-lo.
Reduzia Gong Xipeng ao pó, torturando-o sem piedade.
Tirar-lhe a vida não teria graça; o prazer era fazer com que ele sofresse diariamente, esmigalhando seu orgulho até desejar a morte. Só assim Xu Hao sentia algum alívio.
“Dou-lhe mais uma chance, não lhe dificultarei. Basta passar por baixo das minhas pernas e o pacote será seu, miserável.”
Xu Hao ergueu a túnica, fazendo um gesto provocador para Gong Xipeng.
Até Primavera, ouvindo aquilo, cerrou os punhos de raiva: “Se fosse um inimigo comum, bastaria matar ou ferir. Mas humilhar assim? Como poderá esse homem voltar a erguer a cabeça?”
Sheng Mingshu bebia seu chá e assistia à cena, esperando que Xu Hao se perdesse ainda mais.
Assim, Gong Xipeng odiaria ainda mais a família Xu.
Gong Xipeng, enfurecido, socava as pedras do chão; as mãos ensanguentadas, veias saltando na testa, os olhos injetados. Queria, se pudesse, tirar a vida de Xu Hao ali mesmo.
Mas, lembrando-se da irmã doente que o esperava em casa, engoliu o sangue que lhe subiu à garganta.
Fitou Xu Hao por muito tempo. Quando todos pensaram que desistiria, começou a rastejar na direção dele, usando mãos e joelhos.
No chão, deixou um rastro vermelho de sangue.
“Eu dizia: de que adianta tanta habilidade nas artes marciais? Não passa de um cão sarnento.”
“Ridículo. Sempre arrogante, no fim não passa de alguém rastejando aos pés do patrão.”
“Bem feito! Isso tudo é culpa dele mesmo!”
As chacotas eram cruéis, mas Gong Xipeng as ignorava.
Sua irmã, à beira da morte, aguardava que ele lhe levasse o remédio.
Nesse momento, Sheng Mingshu desceu da carruagem.
O povo ao redor ficou boquiaberto.
A moça, mesmo de véu, exibia olhos tão belos que provocavam suspiros; só podia ser de beleza inigualável sob o tecido.
Com um gesto leve, atirou uma faca de arremesso que passou rente à virilha de Xu Hao, que sentiu um frio imediato entre as pernas, como se começasse a sangrar.
Xu Hao gritou, furioso: “Quem ousa atentar contra minha vida? Apareça, covarde!”
Uma voz fria ecoou:
“Quem lhe deu coragem para humilhar alguém assim em plena rua?”
Sheng Mingshu aproximou-se, enquanto Primavera ajudava Gong Xipeng a se levantar.
“Não tema, senhor, com minha senhora aqui, ninguém ousará feri-lo.”
“Vá embora, moça. Xu Hao é um animal, não quero que se envolva por minha causa.”
“Já está nesse estado, não seja teimoso!”
Primavera lançou-lhe um olhar severo. A princesa não mudaria de ideia por palavras tão frágeis.
Gong Xipeng tossiu forte, só melhorando ao cuspir sangue, e olhou para a silhueta delicada de Sheng Mingshu.
Como alguém tão frágil poderia escapar das garras de Xu Hao?
Xu Hao, inicialmente furioso, ao ver tamanha beleza diante de si, teve sua raiva reduzida pela metade.
“Epa, bela donzela, tire o véu para que eu admire seu rosto. Se for bonita, levo você para casa como concubina.”
Primavera cuspiu, indignada: “Um sapo querendo devorar um cisne! Deveria olhar-se no espelho para ver que tipo de lixo você é!”
“Como se atrevem? Nesta rua, só eu mando! Quem vocês pensam que são?”
Xu Hao, irritadíssimo, queria levá-los todos de volta, especialmente a de olhar mais frio, para ‘ensinar-lhe bons modos’.
Vendo os oito brutamontes avançando, Sheng Mingshu retirou sua placa de identificação e disse, despreocupada: “Vocês, cães imundos, acham que podem tocar alguém da Mansão do Príncipe Rong?”
Príncipe Rong?
Essas palavras causavam mais temor na capital do que o nome do próprio jovem imperador.
Era melhor ofender o soberano do que irritar o sanguinário Príncipe Rong.
Xu Hao empalideceu, os dentes batiam de medo. Aquela placa era verdadeira — aquela moça era mesmo da mansão do Príncipe Rong!
Príncipe Rong não precisava de motivos para matar. Aquilo era sua sentença de morte.
Os oito homens olharam para Xu Hao, hesitantes: “Senhor, ainda atacamos?”
“Atacar o quê, estão loucos? Vai mexer com gente do Príncipe Rong? Se quer morrer, vá sozinho.”
Xu Hao recuou trêmulo, lançando um olhar odiento a Gong Xipeng e deixando uma ameaça:
“Teve sorte hoje. Quero ver se terá na próxima!”
Despejou sua raiva esmagando o pacote de remédios com o pé. Mesmo não querendo o item, não permitiria que Gong Xipeng o tivesse.
Preferia destruir do que ceder!
“Que tipo de gente é tão arrogante assim?”
Primavera desprezava Xu Hao. Não passava de dono de uma farmácia, nem sequer tinha cargo oficial, mas se achava dono da cidade, como se não houvesse leis.
“É apenas outro cão da Imperatriz Viúva.”
O olhar de Sheng Mingshu reluziu em frieza. Na vida anterior, fora ingênua e não percebeu o quanto a Imperatriz Viúva já havia acumulado poder.
Se ao menos tivesse enxergado a ambição voraz da Imperatriz Viúva, não teria caído numa desgraça tão amarga.
Gong Xipeng deu dois passos adiante, agachando-se para recolher os restos do remédio.