Capítulo Dezoito: O Ladrão Que Grita "Peguem o Ladrão"

O Poder dos Eunucos Sob as Saias 2436 palavras 2026-02-07 16:40:44

O coração de Mingzhu ficou surpreso, mas seu semblante permaneceu inalterado. Ordenou a Chuntao que a ajudasse a se arrumar e pediu à cozinha que preparasse uma mesa farta de iguarias.

Chuntao serviu-lhe os pratos, suspirando longamente várias vezes.

— Alteza, não é justo o que lhe acontece. Com a sua beleza, poderia ter ao lado qualquer príncipe ou nobre do Império. Por que se contentar em andar com um eunuco? É um verdadeiro desperdício.

Chuntao havia crescido ao lado da princesa e sabia bem da sua extraordinária formosura, bem como o fascínio fatal que exercia sobre os homens.

Saboreando o licor de frutas, Mingzhu lançou-lhe um olhar de desaprovação.

— Não se pode falar assim. Aqueles nobres e príncipes só sabem se divertir, não são páreo nem para o dedo mínimo do Duque Rong.

Em suas palavras, não escondia a admiração por Rong Wuwang, afinal, ele era o único na corte capaz de enfrentar aquela velha bruxa da Imperatriz Viúva.

Fora o temperamento cruel e inflexível, Rong Wuwang era excelente em todos os demais aspectos.

Chuntao, percebendo o que convinha, calou-se. Se a princesa gostava dele, ela não se oporia.

Só quando uma sombra passou pela janela, Mingzhu esboçou um leve sorriso.

Ela sempre soubera que estava sendo seguida, e compreendia perfeitamente que se tratava de um dos espiões de Rong Wuwang.

— Basta por hoje. É hora de descansar. Amanhã teremos muito com o que nos ocupar.

No dia seguinte.

A notícia do atentado contra a Imperatriz Viúva no Palácio de Fênix foi espalhada por toda a cidade como um vendaval.

O Palácio de Fênix sempre estivera rigidamente protegido, em camadas que nem uma mosca conseguiria atravessar. E, ainda assim, a Imperatriz Viúva fora atacada?

Que tipo de assassino poderia ter tamanha audácia e poder?

A facção da Imperatriz Viúva tremia de medo, temendo que algo de grave lhe acontecesse e, assim, perdessem seu esteio.

O grupo de Rong Wuwang, por sua vez, via tudo com bons olhos. Se a Imperatriz Viúva morresse em decorrência dos ferimentos, sua oportunidade estaria próxima.

Já os neutros não conseguiam esconder a inquietação: se algo realmente acontecesse à Imperatriz Viúva, o Reino de Qisheng mergulharia no caos, e o povo sofreria imensamente.

Quando o chanceler do Tribunal Supremo chegou à residência do Duque, Mingzhu estava belamente vestida, fazendo companhia a Rong Wuwang durante a refeição.

Ambos, com extrema sintonia, não mencionaram o episódio da bebedeira da noite anterior.

Juntos, eram um verdadeiro deleite para os olhos: ele, belo; ela, deslumbrante. Cada gesto parecia digno de um quadro.

Infelizmente, a bela cena foi interrompida pelo chanceler.

— Alteza, princesa, acompanhem-me, por ordem da Imperatriz Viúva. Ela os convoca ao palácio.

Sua atitude era firme e irredutível.

Mingzhu pousou os hashis, respondendo com desdém:

— Ouvi dizer que houve um atentado no palácio. Como está a Imperatriz Viúva? Sofreu algum ferimento?

— Os ferimentos não foram graves, mas ela ficou muito assustada — respondeu o chanceler.

— Se está tão abalada, deveria repousar no palácio. Não convém perturbá-la.

Mingzhu recusou com um sorriso delicado.

Era evidente que estavam sendo chamados para uma armadilha. Ir seria caminhar para a morte.

Nos olhos do chanceler brilhou uma faísca gélida. Ele respondeu, sílaba por sílaba:

— É uma ordem da Imperatriz Viúva. Não ouso desobedecer.

— E por que eu e o duque devemos ir juntos? Deram-lhes alguma explicação?

Mingzhu já suspeitava do motivo, mas fingia inocência.

Na véspera, entregara o selo militar; no dia seguinte, ocorria o atentado.

Como poderia ser mera coincidência?

— Não deram explicações. A ordem da Imperatriz Viúva é que ambos estejam no palácio dentro de uma hora.

Rong Wuwang levantou-se, esboçando um sorriso que não atingia os olhos:

— Vamos, princesa. O que acha?

Já que Rong Wuwang aceitara, Mingzhu não se oporia.

Ela massageou as pernas, e, com um brilho nos olhos, declarou:

— Minhas pernas estão doloridas, não consigo ficar de pé.

Rong Wuwang murmurou um xingamento, achando-a mimada, e ajudou-a a subir na carruagem.

No Palácio de Fênix.

Do chanceler à mais simples criada, todos estavam em posição de alerta, determinados a encontrar o mandante do atentado.

A Imperatriz Viúva, sentada no trono, exibia um rosto pálido, sem vestígio de cor, demonstrando o terror que sentira e a dificuldade em se recuperar.

Ao lado, Mingrou soluçava alto, praguejando contra o monstro desalmado que ousara ferir sua mãe.

Ao ouvir a cena, Mingzhu sentiu tanto escárnio quanto uma pontada de satisfação.

Ao entrar no salão, seu olhar tornou-se subitamente preocupado.

— Soube do atentado, majestade. Está bem? Capturaram o culpado?

Mingrou enxugou as lágrimas, virou-se e lançou a Mingzhu um olhar carregado de ódio, apontando-lhe o dedo.

— Você ainda tem a ousadia de perguntar? O assassino não está aí ao seu lado?

Mingzhu levou a mão à boca, fingindo surpresa, e lançou um olhar ao impassível Rong Wuwang antes de voltar-se para Mingrou.

— Irmã, pode-se comer à vontade, mas não falar sem pensar. Ao meu lado está meu esposo, o Duque Rong. Como poderia ele ser o culpado?

— Aia Zhou, traga o assassino!

Mingrou ainda remoía o tapa que levara de Mingzhu e, finalmente, via a chance de se vingar.

A aia saiu e retornou, arrastando para o chão um homem irreconhecível.

Ele era alto e vestia roupas negras, mas seu corpo não tinha um centímetro sem cortes. Até o rosto estava coberto por centenas de feridas, tornando impossível distinguir seus traços originais.

— E que ligação tem esse criminoso com o Duque Rong? — perguntou Mingzhu, lançando apenas um olhar antes de desviar, para não ter pesadelos com aquela visão horrenda.

— Você pode não reconhecer, mas o Duque certamente reconhece. Afinal, não foi ele quem enviou este homem para matar a Imperatriz Viúva? — acusou a soberana, intercalando o discurso com uma crise de tosse violenta. Após acalmar-se, lançou a Rong Wuwang um olhar assassino.

— Não conheço tal pessoa, e não há razão para que a Imperatriz me acuse sem provas.

Entre Rong Wuwang e a Imperatriz Viúva existia um ódio mortal, mas ele não seria tolo a ponto de mandar alguém matá-la e ainda deixar pistas.

Seria o mesmo que o ladrão gritar “peguem o ladrão”.

— Se não conhece o homem, ao menos reconhecerá o selo militar, não? — rebateu a Imperatriz, agora com um sorriso de satisfação. — O selo do Duque estava justamente com esse homem, que usa as técnicas de luta ensinadas aos seus soldados particulares. Tem mais alguma coisa a dizer?

Mingrou corroborava animada:

— Qualquer outra coisa poderia ser coincidência, mas nunca o selo militar! Guardas, prendam-nos! Rebeldes que, embriagados pelo poder, ousam desafiar a autoridade!

A expressão de triunfo era impossível de esconder.

Eliminando Rong Wuwang, o destino do Reino de Qisheng estaria nas mãos de sua mãe, e ela se tornaria a princesa mais poderosa da capital imperial.

Mal terminou de falar, guardas armados invadiram o salão e cercaram-nos por todos os lados.

O brilho frio das lâminas quase cegava os presentes.

Mingzhu aproximou-se de Rong Wuwang, pensando: afinal, era para isso que a Imperatriz queria o selo.

Como o louva-a-deus que caça a cigarra sem ver o pardal atrás, a Imperatriz Viúva encenara tudo para tirar a vida de Rong Wuwang.

Rong Wuwang voltou-se e fitou o rosto de Mingzhu com intensidade.

— O selo militar, você o entregou.

Ele sabia que Mingzhu o tomara, e apenas seguira o jogo.

E, por causa disso, ele poderia tirar-lhe a vida.

Pelo menos, poderia garantir que ela desaparecesse para sempre de sua frente.