Capítulo Cento e Dez: Há um Assassino
Sheng Mingshu também percebeu a mudança em Gu Hezhen, mas não quis mais trocar olhares com o irmão sênior naquele momento. Afinal, Rong Wuwang ainda estava presente, e se os dois começassem a discutir novamente, isso a deixaria desesperada. O agito ainda não havia começado; era melhor não se preocupar com essas coisas agora.
Os três seguiram em silêncio até a entrada da escada. Para separar o primeiro do segundo andar, os homens de Rong Wuwang haviam colocado uma pequena porta de madeira no topo da escada assim que embarcaram.
Através daquela porta, que mal podia bloquear a visão, Sheng Mingshu facilmente avistou uma mulher ajoelhada na entrada. O cabelo da mulher estava desgrenhado, a roupa ainda relativamente limpa, mas no rosto havia algumas manchas roxas, como se tivesse sido agredida recentemente.
Sheng Mingshu franziu a testa. Ela imaginava encontrar uma mulher astuta, mas essa parecia tão miserável, tão diferente do que esperava.
Um leve mistério surgiu em seus olhos.
— Senhora! — implorou a mulher, batendo a cabeça contra a madeira repetidamente, fazendo barulho que gelava a espinha.
Sheng Mingshu arqueou as sobrancelhas.
Rong Wuwang não demonstrava interesse na cena; desviou o olhar quando a mulher começou a falar, seu semblante carregado de impaciência e desagrado.
Sheng Mingshu também não quis que Rong Wuwang a acompanhasse até ali; além disso, aquele tipo de situação não era algo para ele resolver.
Então, ela lançou um olhar para Yiqin.
Yiqin imediatamente entendeu e foi até a mulher, dizendo:
— Nos encontramos por acaso, mas por que você procura meu senhor para pedir ajuda? Não somos parentes nem conhecidos; será que quer se agarrar ao nosso senhor?
As palavras de Yiqin foram sutis, enquanto a mulher continuava a bater a cabeça no chão, contando suas dificuldades.
Ela explicou que nunca fora realmente a preferida do marido, mas ele usara truques para forçá-la a se casar com ele.
Além disso, ela pretendia voltar à casa dos pais, mas o marido insistiu em acompanhá-la até a região de Miaojiang e a impediu de partir. Ela foi obrigada a embarcar naquele navio.
E, embora estivesse se comportando, permanecendo em seu quarto, nunca imaginou acabar entrando no quarto errado...
— Senhora, eu estou realmente sendo injustiçada. Não tenho para onde ir. Meu marido enlouquece e bate em todos; tenho medo. Se continuar neste navio, certamente serei morta. Por favor, tenha piedade e me dê um lugar para ficar. Estou disposta a trabalhar duro para a senhora.
Gu Hezhen ouviu em silêncio por um tempo, depois sorriu levemente:
— Você é uma pessoa interessante. Nem nos conhece e já vem pedir ajuda. Não tem medo de que sejamos ainda mais cruéis que seu marido? Se te matássemos e jogássemos no rio, o que faria?
A mulher ficou apavorada, claramente não esperando que pessoas tão vestidas com luxo e aparência distinta falassem com tamanha dureza.
— A senhora provavelmente não faria isso...
A mulher gaguejou, sem saber o que dizer.
Gu Hezhen sorriu ainda mais profundamente:
— Por que não faríamos? Seu marido pode ser ruim, mas é seu marido. Você conhece as pessoas sob seu comando, certo? Por que não pede ajuda a elas, mas vem procurar estranhos como nós? Você acha que somos idiotas?
Ao perceber que Gu Hezhen tinha descoberto suas intenções, o rosto da mulher empalideceu, a timidez e dor desapareceram, dando lugar à raiva. Ela lançou um olhar furioso a Sheng Mingshu e aos outros, e de repente cuspiu uma adaga escondida.
— Cuidado!
Gu Hezhen já desconfiava da mulher e a observava atentamente, mas não esperava que ela escondesse uma adaga na boca. Ao vê-la pronta para atacar, Gu Hezhen saltou para proteger Sheng Mingshu, porém Rong Wuwang foi mais rápido.
Sheng Mingshu viu tudo ficar turvo e, no instante seguinte, foi puxada para o abraço de Rong Wuwang, sendo virada de frente para longe da mulher.
A força dele era grande e sua cabeça bateu contra o peito firme, deixando-a atordoada.
Gu Hezhen tentou agarrar a mulher, mas falhou e despejou sua raiva nela:
— Prendam-na!
Mas ninguém se moveu.
Gu Hezhen gritou novamente, ainda sem resposta.
Com o rosto vermelho de raiva, ele estava prestes a agir sozinho, quando Rong Wuwang falou calmamente:
— Prendam-na.
Imediatamente, os homens ao redor avançaram e capturaram a mulher que tentava fugir.
Ao perceber que seu plano havia falhado, os lábios da mulher se moveram levemente.
Os presentes, que tinham visto sua habilidade com a adaga, se prepararam para se esquivar, mas Gu Hezhen mudou de expressão, avançou e agarrou o queixo dela, torcendo com força.
Um estalo soou; o osso do queixo da mulher foi deslocado.
— Vigiem-na. Não a deixem se matar.
Todos perceberam que a mulher não pretendia atacá-los, mas que, ao ser descoberta, queria tirar a própria vida para proteger seu segredo. Os rostos se tornaram sombrios.
Tentar enganá-los daquela forma era imperdoável.
Alguns foram imobilizar a mulher, enquanto Sheng Mingshu pediu:
— Marido, pode me soltar.
Rong Wuwang continuou a segurá-la, e ela pensou que poderia haver perigo iminente, mas viu os guarda-costas agirem com eficiência, sem sinais de problemas, então quis verificar a situação da mulher.
Rong Wuwang, porém, não a soltava. Depois de esperar um tempo, ela falou.
Ele a soltou.
Sheng Mingshu sorriu levemente para ele, então voltou sua atenção para a mulher.
O olhar de Rong Wuwang sobre ela era sombrio e indecifrável.
— Cuidado, ela pode ter outras armas escondidas.
Gu Hezhen alertou com preocupação, já que a mulher havia escondido uma adaga na boca, podendo haver outros mecanismos ocultos.
Sheng Mingshu assentiu, examinou a mulher cuidadosamente e perguntou com curiosidade:
— Você é uma assassina?
Embora não tivesse experiência no submundo, Sheng Mingshu sabia que havia muitos indivíduos assim em Qisheng. Muitos dominavam técnicas místicas, como a numerologia do Bagua, que ela estudara um pouco antes, apesar de ter sido controlada pela Imperatriz Viúva e depois presa por Rong Wuwang, impossibilitada até de encontrar pessoas do submundo e correlacionar os conhecimentos dos livros.
Felizmente, depois de tudo que viu, não era estranha a essas questões.
— Já que o plano foi descoberto, podem me matar se quiserem, mas não revelarei uma palavra sequer!
Assim ela declarou, firme e resoluta.