Capítulo Oitenta e Um: O Descontentamento de Rong Wuwang
Todos ficaram atônitos. Chegaram a pensar que talvez tivessem ouvido errado. Ali estavam a Princesa Real de Qisheng e o poderoso Rong Qiansui! Quem era aquela pessoa que ousava acusá-los diretamente de traição, de serem espiões do país vizinho?
— Senhorita... — O subordinado de Rong Wuwang tentou se explicar, mas uma multidão de guardas irrompeu pelo portão da cidade, cercando-os completamente.
Agora, mais do que surpresos, todos estavam sem palavras.
— Devemos ir junto com eles? — Os homens que Rong Wuwang trouxe eram muitos; se quisessem lutar, certamente conseguiriam sair, mas tinham acabado de chegar a Liancheng e ainda precisavam atravessar a cidade. Se causassem problemas, bastaria uma investigação dos interessados na capital para saberem quem eram os responsáveis, e aqueles que haviam ficado para trás certamente os alcançariam novamente.
— Vamos observar a situação primeiro. — Normalmente, atravessar a cidade não requereria envolver as autoridades locais. Talvez nem todos conhecessem Rong Wuwang pessoalmente, mas seu nome era famoso em todo Qisheng, ninguém desconhecia sua reputação.
Liancheng não ficava longe da capital; era de se esperar que o governador local soubesse do prestígio de Rong Wuwang. Sabendo disso, provavelmente não correriam perigo, então ninguém reagiu com violência.
Yi Qin apressou-se ao lado de Sheng Mingzhu, vendo-os sendo empurrados para dentro da cidade. Yi Qin estava indignada pela sua princesa.
— Quem afinal é essa pessoa? Por que é tão arrogante e insolente? — Até mesmo sua senhora, princesa real de Qisheng, nunca agiu dessa maneira na capital.
Essa mulher estava bem? Como podia fazer algo assim em plena luz do dia?
— Deve ser parente do governador de Liancheng. — Se não tivesse relação com o senhor da cidade, como ousaria agir com tamanha prepotência? Além disso, ao ver que podia reunir tantos homens com um simples comando, era evidente que era filha do governador, alguém de status elevado, abaixo apenas do próprio pai.
— Isso é um desrespeito total à lei! O governador é um oficial do imperador; como ousam agir assim em Liancheng?
O olhar de Sheng Mingzhu reluzia de frieza. Se não tivesse encontrado essa situação por acaso, jamais saberia que sob o governo de seu irmão havia um governador que se aproveitava tanto do poder. Pensou na imperatriz-mãe, que só sabia manipular intrigas, sem qualquer talento para governar; quando seu irmão assumiu, ela não soube controlar os subordinados.
Não era de se admirar que, em sua vida anterior, Rong Wuwang tivesse conseguido virar Qisheng de cabeça para baixo tão facilmente.
Os parentes da imperatriz-mãe, apoiados por ela, causavam problemas na capital, e ela, por egoísmo, conspirava contra os leais, levando muitos à morte injusta ou à fuga. A família imperial de Qisheng havia perdido a confiança dos ministros após uma série de decisões desastrosas da imperatriz-mãe.
Isso ainda não seria irreparável; se o soberano demonstrasse competência, os ministros saberiam a quem apoiar. Mas a imperatriz-mãe, cheia de ideias e sem habilidade, permitiu o caos na capital, e o resto do país estava ainda pior.
Liancheng, tão próxima da capital, tinha a filha do governador agindo com tamanha insolência, claramente ignorando a autoridade imperial.
Os habitantes de Liancheng, ao testemunhar a cena, alguns se esquivavam, outros desviavam o olhar fingindo não ver, e até havia quem parecesse se alegrar, como se fosse bom que hoje alguém tivesse azar, pois assim ninguém mais seria prejudicado na cidade. Era evidente que acontecimentos assim eram comuns em Liancheng.
O governador de Liancheng ousava ser tão arrogante.
Sheng Mingzhu sentia-se tomada pela raiva. Seu corpo já estava debilitado; a caminhada fazia suas mãos suarem frio, e ao entrar na cidade e sentir o vento gelado, começou a tossir de forma dilacerante.
A mulher de vermelho, montada a cavalo, mostrou desprezo:
— Essa aí não está com tuberculose? Só tosse, tosse, tosse! Joguem-na fora!
A mulher de vermelho já havia se encantado pelo homem de branco, Rong Wuwang. O homem que ela escolhia ninguém podia tomar. Mas, ao perceber que ambos eram estranhos, pensou que não deveria agir precipitadamente sem saber quem eram, e por isso encontrou um pretexto para trazê-los à cidade primeiro.
Tudo isso aprendera com seu pai. Ele, governador, era o mais respeitado de Liancheng; ela, filha do governador, podia escolher qualquer homem que desejasse.
No passado, recrutou amantes por toda Liancheng; qualquer homem de aparência razoável era favorecido por ela. Mas não queria manter muitos ao seu redor, então dispensava os que não gostava, mas não permitia que se casassem ou tivessem filhos. Por isso mandou construir o Pavilhão do Vento Sul, onde esses homens estudavam e praticavam, melhorando-se. Se gostasse de algum, o trazia de volta.
Dizia-se que a competição no Pavilhão do Vento Sul era acirrada, com homens brigando por sua atenção, o que a deixava muito satisfeita.
Achava que já havia escolhido os melhores, mas agora surgia um verdadeiro exemplar raro. Pena que esse homem aparentemente já tinha uma esposa, e de beleza notável. A mulher de vermelho considerava sua própria beleza incomparável, mas não esperava encontrar alguém mais belo que ela mesma. Seguindo as advertências do pai, nunca ousou ofender quem não devia, o que lhe permitiu manter seus segredos ocultos em Liancheng, sem que se espalhassem.
Embora percebesse que o homem não era de família comum, queria levá-lo para conhecer melhor antes de decidir agir. Mas ao ver como ele cuidava da mulher, sentiu uma pontada de ciúmes.
Ela desejava que todos os homens do mundo se rendessem a seus encantos; como podia tratar outra com tamanha dedicação? Então, arranjou um pretexto para separá-los.
Rong Wuwang, até então passivo, não pretendia intervir, mas ao ouvir aquelas palavras, seu olhar reluziu com intenção assassina; estava prestes a falar, quando Sheng Mingzhu segurou sua mão.
— Não se irrite, meu marido —, murmurou Sheng Mingzhu, a voz rouca pela tosse, suave e afetuosa.
Rong Wuwang baixou o olhar para ela e viu Sheng Mingzhu tossindo até lacrimejar, olhos claros e belos, como se lavados por água, tocando o coração dele, que suavizou a voz, temendo assustá-la:
— Você tem um plano?
Sheng Mingzhu não era alguém fácil de intimidar; se ousou enfrentar até a imperatriz-mãe, o que seria uma simples filha de governador?
Ela assentiu:
— Já imagino quem seja. Liancheng está muito próxima da capital; se o governador age assim, temo que os habitantes sofram. Zhe’er acaba de assumir o governo; preciso investigar os problemas desta cidade. O governador deve ser punido. Qisheng não pode tolerar um oficial tão opressor e cruel.
Ao ouvir cada palavra voltada para o irmão dela, o rosto de Rong Wuwang tornou-se gelado.
— E você pensou em sua saúde?
Essa mulher só podia estar louca, com o corpo tão frágil e ainda preocupada em proteger Sheng Mingzhe, aquele ingrato.
Hoje mesmo, aquele ingrato enviara presentes à imperatriz-mãe, tratando-a com banquetes e agrados!
Rong Wuwang sentiu uma raiva inexplicável.
Ele soltou a mão de Sheng Mingzhu abruptamente, e ela, sem apoio, exclamou surpresa, tombando para o outro lado...