Capítulo Cinquenta e Oito: Entre a Luz e as Sombras
Ele segurou o pulso de Ming Shu com a mão, seus dedos tocando levemente sobre o pulso dela, atento ao ritmo de seu coração, e seu olhar tornou-se mais intenso.
— Como está tão debilitada? Naquele dia, quando apliquei as agulhas, fiz questão de retardar o efeito do veneno, assim teria tempo para buscar o bodhi antes que os sintomas se manifestassem. Com as habilidades dos médicos imperiais, não seria difícil para eles retirar as agulhas e eliminar o veneno; como pode estar tão grave?
Ao terminar, Gu Hezhen aspirou levemente o ar, pois desde pequeno era sensível aos odores. Além do aroma dos medicamentos, conseguia perceber um leve cheiro de sangue emanando de Ming Shu.
Seu olhar tornou-se perigoso.
— Você está ferida?
Ming Shu sabia que não conseguiria enganá-lo e respondeu:
— Muitas coisas aconteceram desde que você partiu, é difícil explicar em poucas palavras. Naquele dia, quando tudo aconteceu repentinamente, Rong Wuwang chegou com seus homens, e a situação não permitia falhas; tive que retirar as agulhas antes do tempo, o sangue subiu, e o veneno infiltrou-se nos meus órgãos.
Gu Hezhen apertou os punhos, alarmado.
Ming Shu apressou-se em explicar:
— Antes de entrar no palácio, apliquei agulhas para proteger meu coração, apenas agora meu pulso está mais fraco. Com alguns anos de tratamento e alimentação adequada, não haverá problema.
Desde criança, ela sempre fora frágil e doente, por isso havia ido ao Monte Bugu para buscar tratamento. Quando parecia estar recuperada, agora tornara-se novamente uma criatura frágil.
Vale mesmo a pena sacrificar tanto por alguém como o Nono Milenar?
— E as feridas no seu corpo? — Ele perguntou, com voz gelada.
Ming Shu apertou os lábios.
— Foi um mal-entendido, explicarei melhor outro dia. Por ora, não vale a pena falar disso. Rong Wuwang é um sujeito mesquinho, ainda está irritado pelos acontecimentos anteriores; sua presença aqui pode provocar seu desagrado.
Gu Hezhen semicerrando os olhos, sua voz carregava uma provocação.
— Ora, desde quando você passou a se preocupar tanto com os sentimentos dele? Não será que... — Um sorriso despontou em seus lábios, mas seus olhos guardavam um frio imperceptível. — Você se apaixonou por ele?
— Seria loucura minha — Ming Shu respondeu imediatamente, sem hesitar. — Você e eu sabemos bem quem é Rong Wuwang. Entre nós, é apenas uma troca de interesses, e ele, por sua natureza desconfiada, jamais acreditaria que alguém criada pela Imperatriz mãe se tornaria sua aliada.
Ela encarou Gu Hezhen.
— O que me preocupa é você, irmão. Há alguns dias sugeri a ele que alguém transmitisse uma mensagem para que você retornasse, mas ele recusou prontamente. Temo que, ao descobrir seu retorno, envie alguém para lhe causar problemas.
Gu Hezhen, vendo que ela não mentia, deixou o sorriso invadir seus olhos.
— Sou como uma enguia, se ele quiser me pegar, não será fácil.
Isso, de fato, era verdade.
— Este lugar não é adequado para conversas. Agora que está na cidade, instale-se e envie-me uma mensagem quando encontrar um local para ficar. Em breve, procurarei você; há um assunto que preciso discutir.
Gu Hezhen demonstrou certo despeito.
— Só me procura quando precisa de algo; quando não precisa, parece até esquecer quem sou.
Ming Shu revirou os olhos para ele.
Ambos foram criados por Gu Yi no Monte Bugu, livres e despreocupados. Foi só quando Ming Shu voltou ao palácio que começou a ser moldada pelas regras rígidas da corte. Alguns anos atrás, seu temperamento era tão rebelde quanto o de Gu Hezhen.
Disputas e discussões eram frequentes entre eles, mas há muito tempo não viviam algo assim.
O reencontro trouxe alívio ao coração de Gu Hezhen, e, após a insistência de Ming Shu, ele fez uma careta, saltou ágil para o topo do muro, e sorriu mostrando dentes brancos e reluzentes.
— Espere pelas boas notícias do seu irmão.
Com um salto, desapareceu do outro lado da rua.
Ming Shu suspirou, resignada.
— Que desperdício de beleza.
Ela saiu do beco e subiu na carruagem, retornando tranquilamente à Mansão do Milenar.
Ao chegar, Ming Shu seguiu diretamente ao escritório. Prometera a Rong Wuwang que encontraria uma solução para o veneno que o afligia, tarefa nada fácil.
Quando criança, ouvira seu mestre mencionar doenças semelhantes, havia tratamento, mas era preciso cuidado com os ingredientes. Algumas das ervas não recordava bem, por isso, sempre voltava à mansão para consultar os livros de medicina e aprofundar-se nos estudos.
O tempo passou até o anoitecer, e só quando percebeu que as luzes estavam acesas no quarto, sentiu os olhos secos e colocou de lado o tratado médico.
Olhou pela janela.
— O Milenar ainda não voltou?
Yiqin entrou carregando uma bandeja de comida.
— Ainda não, — ela arrumou os pratos sobre a mesa — Senhora, venha comer um pouco, desde que voltou da loja não provou nada.
Ming Shu levantou-se, lavou as mãos com a ajuda de Yiqin, provou alguns bocados, mas, sentindo-se cansada, pediu que retirassem a comida, foi ao quarto, lavou-se e trocou de roupa, deitando-se logo em seguida.
Yiqin arrumou o quarto e também foi descansar na sala ao lado.
A noite era profunda e úmida, e Ming Shu dormia inquieta. Os olhos semicerrados, foi surpreendida por uma silhueta alta que a assustou, fazendo com que suasse frio e apertasse o cobertor contra o peito, os dedos puxando algumas agulhas de prata debaixo do travesseiro.
Ao focar melhor, reconheceu Rong Wuwang.
Ming Shu relaxou, mas ficou irritada.
— Senhor, voltar à noite e não descansar já é estranho, mas por que ficar parado ao lado da cama assustando os outros?
Os olhos profundos de Rong Wuwang não revelavam emoções. Seu rosto, sob a luz da lua, era de uma beleza incomparável, e a marca de carmim entre as sobrancelhas parecia hipnotizar.
Ele aproximou lentamente o rosto de Ming Shu, seus dedos longos segurando o queixo dela, e seus olhos frios.
— Hoje, viu alguém?
Ming Shu sentiu um frio por dentro, e forçou um sorriso.
— O que quer dizer, senhor? Você conhece meus passos ao longo do dia melhor do que ninguém.
A mão de Rong Wuwang apertou com força, fazendo Ming Shu franzir a testa de dor.
O homem estava novamente instável.
Rong Wuwang sorriu friamente.
— Sabendo que conheço todos seus passos, ainda ousa encontrar-se secretamente com Gu Hezhen?
Era exatamente como ela temia.
Ming Shu pousou as mãos sobre o pulso dele.
— Senhor... foi apenas um mal-entendido.
Rong Wuwang ergueu as sobrancelhas.
— Mais um mal-entendido? A Princesa tem uma lábia afiada, consegue transformar preto em branco. Você não continua flertando entre mim e a Imperatriz mãe, aproveitando os benefícios de ambos? Que mal-entendido seria agora?
Havia clara ironia em suas palavras.
— Meu irmão... ele é um dos maiores especialistas em venenos, só...
O aperto em seu queixo tornou-se ainda mais forte, Ming Shu conteve a dor.
— Só queria me ajudar a combater o veneno...
De repente, Rong Wuwang soltou o seu queixo, olhando-a de cima.
Ming Shu aproveitou para explicar.
— Meu irmão só estava preocupado comigo, queria ver como estava o veneno, não houve nada além disso.
Ela tentou puxar a mão de Rong Wuwang.
— Senhor...
Antes que terminasse, Rong Wuwang inclinou-se bruscamente sobre ela, rasgando suas roupas com movimentos bruscos. O pescoço delicado de Ming Shu ergueu-se, e ele, com olhar ainda mais intenso, mordeu a pele alva dela.
A dor se espalhou pelo pescoço, Ming Shu sentiu um calor escorrer, o ar ficou impregnado de sangue.
A força aumentava, ele não pretendia parar, e os olhos de Ming Shu tornaram-se frios como o gelo.