Capítulo Um: A Caixa de Ferro

Cultivando na Vida Moderna Yun Xi Shao 3460 palavras 2026-02-07 12:36:35

Ao terminar essa viagem, ao retornar para a casa um tanto fria, deixou a mochila de lado e se jogou no sofá, onde ficou de olhos fechados, imóvel, por quase meia hora antes de pegar o telefone e pedir comida entregue em casa. Só depois de saciada e descansada, com o cansaço da viagem quase dissipado, levantou-se revigorada, trocou de roupa por uma veste mais confortável e, após uma higiene rápida no banheiro, finalmente teve ânimo para conferir o que havia trazido da viagem.

Não fora uma viagem comum. Sua intenção era realizar o desejo da avó, um sonho que ela nunca pôde concretizar. Esperava que, de algum lugar do paraíso, a avó pudesse acompanhar cada passo daquela jornada repleta de saudade. Por isso, durante toda a viagem, não teve cabeça para diversão, tampouco pensou em trazer qualquer lembrança típica do lugar.

Além da bagagem de ida e volta, algumas telas já finalizadas e incontáveis fotos no cartão de memória da câmera, havia ainda uma caixa de ferro, pequena, um pouco maior que a palma da mão, já enferrujada, mas ainda bem conservada, trancada com um minúsculo cadeado de bronze. Sem chave, abriria seria uma tarefa trabalhosa.

— Vovó, veja só, essas são paisagens da cidade X e do vilarejo X. Tem lugares mesmo muito bonitos, parecidos com o que você descrevia, mas tantos outros já mudaram completamente! Se você visse com seus próprios olhos, será que ficaria decepcionada? — murmurou ela, folheando as imagens da terra natal da avó na câmera, os olhos marejados e, ainda assim, um sorriso suave nos lábios.

— Pelo menos aquele templo ainda existe, só está mais deteriorado e agora é ponto turístico. Aquela escadaria de pedra realmente cansa, viu? Sorte que o baú que você e o vovô esconderam ainda estava na fenda da rocha, senão eu teria perdido a viagem! — continuou, como se conversasse com a avó.

— Mas aquele lugar era mesmo difícil de achar, não sei como vocês tiveram paciência para uma coisa tão romântica! Olha só, fotografei as pedras, o lago, as escadas... — E entre lágrimas, continuou a falar sozinha com a avó em meio ao silêncio da casa.

Terminando de ver as fotos, cobriu o rosto com as mãos e, em pensamento, imaginou inúmeras vezes como seria se a avó ainda estivesse ali, vendo aquelas imagens. Certamente apontaria cada paisagem, contando como era no passado, o que viveu com o avô naquele lugar, quantas alegrias partilharam...

Respirou fundo, baixou as mãos e encarou a parede em frente ao sofá, onde uma foto, a “foto de família”, mostrava apenas ela e a avó. Pegou então a pequena chave de bronze presa a um cordão vermelho em seu pescoço e acariciou-a, murmurando: — Vovó, o que será que tem dentro dessa caixa? Por que nunca me contou? Se não disser, vou levar para alguém avaliar, e se valer muito, vendo tudo, largo tudo e vivo de luxo! Afinal, você disse que era meu enxoval! Se não valer, bem, fico com ela mesmo assim.

Ela, que fora abandonada à beira da estrada poucos dias após nascer, foi criada pela avó, que perdera o marido jovem e, anos depois, também o único filho em um tempo conturbado, sem sequer ter recuperado o corpo do filho.

Durante vinte e dois anos, foram só as duas, uma existindo pelo apoio da outra. Menos de um ano após sua formatura, a avó, já com quase oitenta, partiu vítima de doença. Para ela, esse foi o maior golpe da vida.

Não importava o quanto a vida fosse dura, o quanto o mundo fosse hostil, ou as humilhações sofridas por ser diferente das demais crianças, ela sempre manteve a cabeça erguida, sustentada pelo amor incondicional da avó. Nada parecia impossível de suportar, desde que tivesse esse apoio. A avó era seu esteio, a única pessoa diante de quem podia se permitir ser frágil.

Ao abrir cuidadosamente a caixa que a avó só lhe revelara no leito de morte, mesmo brincando, não conteve o choro ao ver o conteúdo: o que a avó chamava de “enxoval”, itens que também haviam sido presenteados pelo avô — um espelho, um pente e um grampo de cabelo, os três objetos prediletos da avó. Segurando-os com todo o carinho, chorou como não chorava desde que depositara as cinzas da avó junto ao túmulo do avô.

A força ensinada pela avó já estava cravada em seus ossos, e ela sabia que aquele seria o último momento em que se permitiria chorar tão profundamente pela perda. Daí em diante, guardaria a saudade apenas no coração, não mais mergulharia em tristeza sem fim, alimentando a ilusão de que a avó ainda estava por perto.

Viver de verdade, viver bem — era o último desejo feito pela avó, e ela, agora, prometia a si mesma que o cumpriria, custasse o que custasse.

Na Rua das Artes e Livros, na loja de artes Zhenxin!

— Vovô Wang, está ocupado agora?

O senhor idoso, de óculos e semblante gentil, levantou os olhos do livro e viu entrando uma jovem de cabelos longos, mochila nas costas, aparentando pouco mais de vinte anos, sorrindo para ele como uma velha conhecida. Ele respondeu sorrindo: — Ora, se não é a Xiaoyao! Há quanto tempo não aparecia!

Depois, com o semblante mais sério, continuou: — Sobre sua avó, meus pêsames, minha menina. Precisa ser forte, como já disse antes. Se precisar de qualquer coisa, venha a mim ou aos pais de Jiajia, não somos estranhos.

Ao ouvir o nome da avó, o sorriso de Xiaoyao vacilou um instante, mas logo voltou a agradecer: — Obrigada, Vovô Wang. Se não fosse o senhor, o Tio Wang e a Tia Zhao, tudo teria sido muito mais difícil. Fique tranquilo, sei que a vovó queria que eu fosse feliz e não ficasse presa à dor. Não vou me recusar a encarar a realidade.

O velho assentiu, emocionado: — Sempre foi uma menina madura. O maior desejo da sua avó era te ver bem. Mesmo com tantas dificuldades, você nunca a decepcionou; ela pôde descansar em paz, sabendo que te criou com amor.

O clima ficou um tanto melancólico. Xiaoyao piscou algumas vezes, tentando afastar a tristeza, e sorriu: — O senhor tem razão. A única mágoa da vovó foi não ter me visto casar e ter filhos. Mas ela agradecia a Deus por poder, enfim, reencontrar o vovô e o tio. E eu, mesmo sentindo falta, só posso desejar a eles toda a felicidade do mundo, não é?

Exceto pela avó, ninguém conhecia tão profundamente aquela jovem quanto o velho senhor — sabia de sua força, das cicatrizes e do amor entre elas. Mesmo vendo o sorriso radiante, percebia as lágrimas escondidas.

Para não prolongar o assunto, o idoso pegou a chaleira para preparar chá: — Sente-se. Por onde andou esses dias? A Jiajia reclamou que você largou o emprego e sumiu. Seu telefone não funcionava direito, as ligações caíam...

— Não se preocupe, deixa que eu faço o chá. Fui até a cidade P. Quando a vovó ainda vivia, queria muito levá-la para viajar, mas quando ela estava bem, eu não podia. Quando pude, ela já não aguentava mais. Agora, mesmo que ela tenha partido, fui por ela. Afinal, mesmo no céu, sei que ainda cuida de mim. No fundo, viajamos juntas, de um jeito diferente — respondeu Xiaoyao, sorrindo, enquanto preparava o chá como de costume.

A cidade P era a terra natal da avó. Desde que se casara, quase não voltara ao lar de origem. Ela não dizia, mas o tom saudoso ao relembrar aquelas terras deixou em Xiaoyao a certeza de que aquele era um lugar especial, onde o avô e a avó haviam se apaixonado e que ela jamais esqueceu, mesmo que tudo ali já tivesse mudado.

O velho sorriu, resignado, após um gole do chá servido por Xiaoyao: — Diga, veio por algum motivo especial? Não me diga que veio só para me ver, não acredito!

— Vovô Wang, assim magoa meu coração! Antes eu vinha aqui só para visitar o senhor! — protestou, fingindo indignação.

— Ah, essa desculpa não cola. Se fosse só visita, você ia lá em casa, encontrava os pais de Jiajia e dizia que foi vê-los. Quando aparece aqui, é porque tem outro motivo!

Teria sido tão óbvio assim? Refletindo se não teria sido cuidadosa o suficiente, Xiaoyao sorriu, mudando de assunto: — É que costumo vir aqui especialmente para o senhor. E hoje, aproveitei para trazer alguns quadros. Queria muito ouvir a sua opinião!

Ao mencionar as pinturas, o velho logo se animou: — Está bem, está bem, nunca consegui resistir aos seus pedidos! Mostre logo as telas, quero ver se você evoluiu!

Desdobrou então as quatro telas produzidas durante a viagem. O velho, após analisar cada uma com atenção e comentar com sinceridade, expressou um certo pesar: — Muito bons, excelentes! Sempre achei que você tem um talento raro. Em todos os anos lecionando, vi muitos jovens promissores, mas ninguém produziu obras desse nível nessa idade. Alguns já são chamados de artistas de renome por aí, mas você... ah... — suspirou.

Xiaoyao, sem se alegrar demais com os elogios, respondeu sorrindo: — Pronto, já agradeci ao Professor Wang. O senhor me conhece bem. Desde pequena, antes mesmo de saber ler, eu já rabiscava no chão com gravetos. Minha avó, sua esposa, também era artista, e com mestres como vocês dois, vinte anos de prática acabam compensando qualquer falta de dom!