Capítulo Dezessete: Sensação de Urgência
— Acredito que você deva ter bastante confiança no seu próprio julgamento, então é melhor valorizar o que tem. Se ousar fazer a Zi Jia infeliz, eu a aconselharei a procurar alguém que realmente a trate bem, assim como fiz antes ao sugerir que ela ficasse com você!
Para surpresa de todos, Zuo Xiaoyao pronunciou em tom meio sério, meio brincalhão, aquilo que antes não passava de uma piada entre elas. Wang Zijia, então, não pôde deixar de repreendê-la carinhosamente:
— Xiaoyao, como pode falar assim? Isso...
— Está tudo ótimo, Zijia. Ela só está me lembrando de tratar você cada vez melhor, de cuidar de você para sempre. Fique tranquila, vou levar isso a sério. Você tem uma amiga tão sensata e generosa que pensa sempre no seu bem. Fico realmente feliz por você! Mesmo que, para mim, isso represente uma espécie de vigilância e provação, tenho confiança de que serei capaz de superá-las.
Zhang Kun, com sinceridade, sorriu e abraçou novamente Wang Zijia, que havia se afastado meio passo. Era evidente sua felicidade por ver realizado o desejo do coração.
Zuo Xiaoyao, porém, balançou a cabeça e falou com serenidade:
— Não, não quis dizer que vou supervisionar ou testar você. Só quero ver se consegue resistir à vigilância e à prova do tempo. O tempo é a verdadeira pedra de toque de todas as promessas! Espero que você consiga. Se não conseguir, acredito que há de haver alguém no mundo que conseguirá.
— Obrigada, Xiaoyao. Eu também vou valorizar o que tenho, seguir seu conselho e viver bem a minha vida!
Conversar à beira da estrada soprada pelo vento frio não era lá muito agradável, ainda mais com o horário já próximo do meio-dia. Então, os três seguiram conversando enquanto se dirigiam a um restaurante de fondue próximo para almoçar. Ao saber que Zijia e Zhang Kun já haviam combinado de ir à pista de patinação com outros amigos à tarde, Zuo Xiaoyao recusou o convite dos dois. Ela, que sempre se considerou um desastre nos esportes, não queria passar vergonha. Conhecendo-a muito bem, Wang Zijia insistiu algumas vezes, mas logo desistiu.
Depois de se despedir do casal, Zuo Xiaoyao voltou para casa pensativa. Após tirar toda a roupa de inverno, decidiu deixar para depois o assunto do aniversário de sessenta e oito anos do Vovô Wang.
Desde que soube, por meio de Wang Zijia, que os pais de sua amiga demonstravam um cuidado talvez excessivo com ela, e ao refletir sobre a relação entre as duas famílias ao longo dos anos, Zuo Xiaoyao começou a nutrir desconfianças. No passado, nunca pensara muito sobre o assunto, apenas sentia-se afortunada por ter uma família amiga tão leal e confiável. Até sua avó, em vida, costumava lembrar com gratidão da ajuda que a família Wang oferecera em muitos momentos, mesmo sem envolver dinheiro ou interesse. Por mais pobre que estivessem, a avó de Xiaoyao jamais aceitava presentes materiais ou dinheiro sem motivo; no máximo, quando não havia saída, pedia emprestado algum mantimento ou quantia para emergências, sempre devolvendo assim que possível e sendo muito grata. Influenciada por ela, Xiaoyao cultivou desde cedo esse mesmo modo de agir.
Na época mais difícil de suas vidas, quando estavam sozinhas, foi a família Wang quem mais ajudou. Aqueles eram tempos de grande escassez material. Embora as dívidas fossem sempre quitadas, e não devessem nada aos Wang, o apoio prestado nos momentos críticos era algo raro e precioso. Por isso, mesmo depois que a distância entre as famílias aumentou e Xiaoyao passou a visitar os Wang com menos frequência, o carinho e a estima por eles nunca mudaram. Nem mesmo após descobrir que o pai de Zijia havia cometido algo que ela desprezava, e que a mãe — doce e elegante — não era tão conformada quanto aparentava.
Não fosse pelas experiências recentes, quase fantásticas, e pelos tesouros místicos de Zizun, Xiaoyao não teria dado tanta importância ao “cuidado” dos pais de Zijia. Afinal, sendo órfã, não havia muito que pudesse despertar cobiça alheia — exceto, talvez, pelo apartamento, o bem mais valioso que possuía. Mas, como Zijia dizia, seu pai era um homem de posses, e aquela casa não teria importância para eles. Apenas aquela família de mesmo sobrenome...
O aniversário do Vovô Wang seria dali a vinte dias, ainda havia tempo, mas presentes para os mais velhos exigem preparação antecipada — razão pela qual Zijia trouxe o assunto à tona logo cedo. Como de costume, Xiaoyao planejava pintar um quadro para presentear a família Wang. Graças às obras prontas que guardava no Reino Ziyuan, não precisava se preocupar em preparar algo com antecedência.
Desde o surgimento do “caldeirão de pedra”, que lhe revelou a existência de outros cultivadores no mundo, Xiaoyao, passada a surpresa inicial, não se iludiu achando que aquilo representava uma grande oportunidade ou que deveria correr para se juntar a algum “grupo maior”. Pelo contrário, sentiu uma urgência ainda maior em fortalecer sua própria cultivação, aprimorando-se ao máximo. Mesmo que trilhar esse caminho sozinha fosse difícil, sem mestres ou companheiros para orientar, discutir ou compartilhar experiências.
Quanto mais sentia os poderes adquiridos graças àquela técnica misteriosa, mais percebia o quanto a força pode trazer autoconfiança e tentação, e o quanto os tesouros de Ziyuan são valiosos. Isso só tornava Xiaoyao mais convicta de que jamais poderia deixar que os outros soubessem deles. Afinal, sendo ainda fraca, sem saber quais poderes ou intenções teriam os outros cultivadores, qualquer descuido poderia despertar cobiça e colocá-la em perigo, ameaçando até sua sobrevivência.
Embora não soubesse como os outros cultivadores — ocultos em algum lugar do mundo — interagiam entre si, Xiaoyao tinha certeza de que, sendo humanos, não escapariam das fraquezas humanas: rivalidades, busca por interesses, bajulação dos poderosos, desprezo pelos fracos, e até crimes. Com poderes tão além dos comuns, não poderia esperar que respeitassem as leis e normas vigentes como ela mesma tentava fazer.
Assim, seu objetivo era claro: esforçar-se para progredir cada vez mais na cultivação, só assim teria força para enfrentar riscos futuros. Afinal, por mais que pudesse evitar problemas por um tempo, não seria possível fugir deles para sempre. Pela sua própria experiência, cultivadores não costumam gostar do ambiente caótico das grandes cidades, e vivendo em S., a chance de encontrar outro era pequena, mas ela tampouco poderia passar a vida toda ali.
Desde que entrou nesse caminho, Xiaoyao mantinha-se firme: queria trilhar a senda da cultivação até onde fosse possível, não por fama ou riqueza, mas para reencontrar aquela mulher de vestes violetas e realizar a última promessa que lhe deixara. Também era grata a ela por tê-la conduzido a esse caminho, pois, após perder a avó, Xiaoyao encontrara nele um novo objetivo, algo pelo que viver com entusiasmo.
A expectativa pelas duas pílulas adequadas ao estágio de absorção de energia só aumentava. Com o frio intenso, seu plano de procurar ervas frescas fora da cidade era inviável; ainda assim, ficou satisfeita ao perceber que, praticando, conseguira extrair a essência das ervas secas — mesmo que, por falta de habilidade, quase tudo acabasse desperdiçado, sem formar pílulas.
No entanto, segundo o método de alquimia gravado em sua mente pela dama de violeta, mesmo usando ervas frescas, o importante era extrair a essência antes de condensá-la em pílulas. Talvez as ervas secas vendidas nas farmácias também servissem, já que, embora desidratadas, ainda preservavam boa parte das propriedades. Não custava tentar.
Movida por esse impulso, Xiaoyao rapidamente vestiu o casaco, pôs o chapéu e foi até uma farmácia longe de casa, onde gastou uma quantia considerável em ervas chinesas. Ao ver o valor na tela do celular, sentiu o bolso doer. Para quem realmente era pobre, cinco mil yuan não eram pouco — especialmente considerando que o investimento talvez fosse em vão.
Como a principal erva da outra fórmula, a raiz de folha roxa, era caríssima, Xiaoyao não se atreveu a comprar. O restante servia para preparar a Poção Revigorante, e como eram apenas ervas desidratadas, custavam menos que os fitoterápicos prontos. Embora as duas grandes sacolas não fossem tão pesadas, traziam quantidade suficiente para algum tempo — embora, claro, tudo dependesse do ritmo de consumo durante os experimentos.
ps: Agradeço o apoio da Garota Desatenta, desejo a todos um ótimo fim de semana! Vou tentar postar dois capítulos por volta das oito horas!