Capítulo Quatro: Esperança de um Novo Encontro
Vestida com uma roupa lilás clara, semelhante aos trajes femininos da antiga China, a mulher respondeu com um sorriso suave: “Não se assuste! Fique tranquila, não lhe farei mal. O fato de você ter vindo até aqui mostra que temos um laço de destino!”
Apesar do sorriso da mulher, era impossível esconder a mágoa em seu olhar. Zuo Xiaoyao forçou um sorriso exagerado e disse, hesitante: “Eu... eu não estou assustada. Não sei por que vim parar aqui de repente, nem como sair. Poderia me orientar, por favor? Muito obrigada!”
A mulher, antes de responder, deu uma volta ao seu redor e só então disse: “Sair é fácil. Basta querer, e você poderá partir com a mesma facilidade com que entrou. Mas já que foi seu sangue e suas lágrimas que me despertaram, deveria me fazer companhia antes de eu partir. Considere como retribuição o presente dos Três Tesouros de Zizun. Que tal?”
“Ah! Os Três Tesouros?... Você se refere ao grampo de cabelo, ao espelho e à pequena pente de osso? Mas eles desapareceram de repente! Sendo seus, deve saber onde foram parar, não é? Pode pegá-los de volta, não faço questão. Para mim, não têm serventia e, de todo modo, já não os encontro.”
Ao ouvir a menção aos “três” tesouros, Zuo Xiaoyao lembrou-se instintivamente dos objetos que sumiram misteriosamente, como se tivessem entrado em sua mente. Apesar de certa relutância, afinal eram os presentes de casamento que sua avó lhe pedira para guardar com tanto carinho antes de partir, reconhecia que aqueles objetos eram tão sobrenaturais quanto a própria mulher que parecia ter saído de uma pintura.
Concluiu que apenas alguém extraordinário deveria possuir tais coisas. Para alguém comum como ela, podiam até trazer problemas. Seu maior desejo, por ora, era sair rapidamente daquele lugar estranho. Embora seu coração doesse, não sabia onde estavam os objetos e achou melhor devolvê-los, desde que pudesse ir embora rapidamente.
A mulher hesitou por um instante, depois soltou uma risada que soava tanto como autodepreciação quanto como ironia, e então, com o riso se apagando, comentou: “Você sabe o que são essas coisas, para rejeitá-las assim tão facilmente?”
“Não sei. Minha avó só disse, antes de morrer, para que eu os guardasse bem, como enxoval para o meu casamento.” Ao perceber a tristeza nas palavras da mulher, Zuo Xiaoyao se acalmou e, contaminada pela emoção, sentiu-se também melancólica.
“Conte-me sobre você.”
“Sobre mim?”
A mulher de lilás sorriu com gentileza e explicou: “Venha, sente-se também e me fale sobre sua vida. O que a fez sentir uma dor tão profunda?”
A ponto de me despertar...
Então era isso: queriam saber sobre sua vida. Diante do sorriso acolhedor da mulher, Zuo Xiaoyao, que nunca gostara de expor seus sentimentos, sentiu uma súbita vontade de desabafar. Sentou-se ao seu lado no leito de bambu lilás e, sem perceber, contou tudo: como foi abandonada aos três dias de vida, recolhida pela avó solitária que percorreu a vizinhança em busca de alguém para amamentá-la, criando-a com muita dificuldade; como cuidou da avó, e o quanto sentiu sua ausência após sua morte recente.
Quando acabou, percebeu que chorava novamente, mas seu coração se sentia mais leve após o desabafo. Viu que a mulher ao seu lado parecia surpresa, até confusa.
Enxugou o rosto com a manga, um tanto constrangida, e disse: “Minha vida é simples assim. Acostumei-me a ser feliz enquanto tinha minha avó. Agora estou só e é normal sentir solidão e saudade. Mas a vida é assim, ninguém pode ficar para sempre ao lado de alguém. Quando chega a hora, temos de seguir sozinhos. No início é difícil, mas com o tempo a gente se acostuma. Seja como for, o caminho precisa ser trilhado.”
Vendo o semblante sereno de Zuo Xiaoyao – não de resignação, mas de verdadeira coragem diante das adversidades – a mulher de lilás, agora desperta de seus pensamentos, suspirou: “Sim, você tem razão. No fim das contas, é preciso seguir adiante, mesmo sozinha. Não se pode esperar que alguém esteja sempre ao nosso lado. O caminho é nosso e devemos trilhá-lo sozinhas.”
Havia alívio em sua tristeza, e o ambiente entre as duas tornou-se denso. Zuo Xiaoyao hesitou, sem saber se deveria continuar. A mulher, porém, logo retomou o sorriso e perguntou: “Você disse que, desde pequena, estudava e vendia pinturas para ajudar em casa, e que depois de tantos anos na escola, já com mais de vinte anos, ainda não se casou e precisa trabalhar. Ninguém acha isso estranho? Por que isso acontece?”
Por que acontece? Não é assim com todos? Bem, talvez não. Ela era um pouco diferente, pois desde cedo teve de se virar sozinha, mas não era nada extraordinário.
Diante da expressão confusa de Zuo Xiaoyao, que parecia considerar tudo normal, ela respondeu: “Minha família é pobre, isso é comum. Há muitas crianças pobres no país vivendo assim.”
A mulher de lilás ponderou um momento e continuou: “O que quero dizer é: sendo sua família tão pobre, por que uma filha como você foi aceita na escola? E por tantos anos? As mulheres não podem prestar exames oficiais. E mesmo com mais de vinte anos, não casou e ainda saiu para trabalhar. Ninguém critica? Não deveriam as moças casar ao atingirem certa idade? Como é que ninguém fala nada?”
Escola? Idade de casar? Agora foi a vez de Zuo Xiaoyao se confundir. Mas, ao notar a roupa da mulher, compreendeu de imediato e passou a explicar, de modo simples, como era o mundo moderno, como se formou, e as mudanças sociais.
Ao saber que, no mundo atual, as mulheres competem com os homens, têm liberdade para casar ou se divorciar, que há aviões que voam, submarinos que mergulham, e que não é raro viajar milhares de quilômetros por dia, a mulher ficou visivelmente impressionada.
“Os mortais... o mundo dos mortais pode mesmo...” Pela voz baixa, notava-se que não era o voo ou o mergulho que a surpreendiam, mas sim o fato de tudo isso ter sido realizado por simples mortais.
Zuo Xiaoyao percebeu como ela se referia a “gente como ela”, mas não achou estranho. Se a mulher se chamasse de mortal, talvez seria mais difícil de aceitar. Afinal, alguém que “saiu” de uma pintura não poderia ser uma pessoa comum, mas sim uma figura digna de lendas.
A mulher, de fato, não era comum. Com espírito elevado, logo se recuperou do espanto inicial e começou a fazer inúmeras perguntas sobre o mundo moderno. Já sem o constrangimento de antes, Zuo Xiaoyao respondia a tudo, explicando com exemplos do cotidiano e tentando satisfazer todas as curiosidades da visitante.
Por hábito, Zuo Xiaoyao sabia que, entre elas, havia diferenças, mas como não buscava nada da mulher além do método para sair dali, sentia-se tranquila e conversava com naturalidade. Justamente por essa sinceridade e simplicidade, passou a ser vista com admiração pela mulher, que revelava nos olhos um brilho de aprovação.
De repente, o corpo da mulher, até então tão real, tornou-se translúcido, prestes a desaparecer. Zuo Xiaoyao não pôde deixar de se preocupar: “Você... o que está acontecendo?”
“Não se preocupe. Já disse que lhe darei os Três Tesouros de Zizun e ensinarei como sair daqui. Infelizmente, o que ficou deste lado foi apenas um fragmento do meu espírito, que precisa ser recolhido quando o tempo se esgota. Caso contrário, gostaria mesmo de conhecer o seu mundo. Por sua causa, compreendi muitas coisas e consegui, enfim, me desapegar do passado. Sou muito grata a você. Espero que possamos nos encontrar novamente. Quando isso acontecer, quero que você...”
Com um clarão verde-azulado, tingido de roxo, que penetrou em sua testa, Zuo Xiaoyao desmaiou mais uma vez.
Ao acordar, estava de novo deitada no sofá da sala de sua casa. Ao recordar tudo o que vivera naquele espaço misterioso, já não sabia o que era real ou não. Mas uma dor aguda invadiu sua mente, e, como se lesse um livro, ela revisitou cada detalhe. Só então compreendeu: tudo aquilo era real.
Mesmo sendo uma experiência extraordinária, ela sabia que, dali em diante, também faria parte desse mundo de fantasia!