Capítulo Oitenta e Quatro: Investida Repentina
Àquela hora, o crepúsculo já cobria o céu. Apenas os cinco irmãos da família Zheng, que montavam guarda ao redor de Zuo Xiaoyao, continuavam a exibir um vigor inabalável e, ao perceberem que ela abrira os olhos, deixaram transparecer um sorriso de alívio. Os demais, exaustos pelo combate feroz do dia, haviam se reunido em pequenos grupos ao redor das fogueiras acesas, muitos já repousando, enquanto, de tempos em tempos, os feridos mais graves não conseguiam conter gemidos abafados.
Talvez atentos ao movimento, tanto o jovem de negro sentado mais próximo quanto o sempre presente Dongfang Hong se levantaram e se acercaram. Ao notarem que Zuo Xiaoyao parecia exatamente igual a antes, um leve brilho de surpresa cruzou-lhes o olhar.
Eles desconheciam o que seria aquela reluzente Erva Dourada Gêmea, mas, ao verem a importância que ela lhe dava, ignorando por completo o tesouro cobiçado por todos, o Fruto Sagrado Púrpura, imaginaram que só poderia ser algo ainda mais precioso. No entanto, agora, constatavam que a tal erva nada mudara em Zuo Xiaoyao, que apenas se sentara ali, sem qualquer alteração ao seu redor. Um alívio involuntário lhes percorreu o peito.
Eis um sentimento tipicamente humano: o Fruto Sagrado Púrpura era tão valioso que, para obtê-lo, arriscaram a vida até os confins da morte. Mas, como Zuo Xiaoyao fora decisiva num momento crítico, consideraram justo dividir parte do fruto com ela, ainda que a contragosto. Todavia, ao vê-la recusar o Fruto Sagrado Púrpura e prontamente consumir aquelas duas estranhas ervas, não puderam evitar um leve arrependimento, como se tivessem deixado escapar um tesouro desconhecido. Mal sabiam que a poderosa energia contida num simples broto da Erva Dourada Gêmea poderia destruí-los por completo!
— Xiaoyao, por que teve tanta pressa em comer aquelas duas ervas? Não parece ter adiantado nada — perguntou diretamente Zheng Ning, o caçula dos irmãos da família Zheng, recém-erguido do chão, ecoando a dúvida que também pairava sobre os outros dois jovens.
Zuo Xiaoyao, ajeitando as vestes de linhagem espiritual que permaneciam limpas, sorriu suavemente ao responder:
— Mais cedo, lutei contra aquela criatura. Por sorte escapei, mas fiquei bastante ferida e envenenada. Aquela erva crescia ao lado do monstro, então deduzi que seria um antídoto.
— E conseguiu eliminar todo o veneno, irmão Xiaoyao? — indagou o jovem de semblante refinado, com um tom de sincera preocupação. Embora sentisse que ela ocultava algo, não tinha argumentos para contestar. Afinal, ao chegarem ali, haviam notado pelo cenário devastado que uma batalha feroz ocorrera recentemente, o que justificava a pressa em atacar o monstro, antes que outro grupo lhes tomasse o Fruto Sagrado. Mesmo o ancião mago admitira sentir uma aura perigosíssima naquela criatura.
Zuo Xiaoyao assentiu, agradecida:
— Obrigada pela preocupação, estou praticamente recuperada. Em poucos dias de repouso, estarei bem.
O fato de a Erva Dourada Gêmea não lhe restaurar o poder espiritual era motivo de grande mágoa para Zuo Xiaoyao. Sem desejo de prolongar o assunto, mudou de tema:
— Vocês vieram por causa daqueles frutos? Por que os irmãos Zheng vieram juntos?
Sabendo que a dúvida era sobre o motivo de estarem servindo aos outros, Zheng Wen, constrangido, preparava-se para responder, mas foi o jovem refinado quem tomou a palavra:
— Sim. Os irmãos Zheng vieram a nosso pedido. O plano era nos encontrarmos na Cidade de Luo, mas acabamos cruzando o caminho antes do previsto. Graças à ajuda de vocês, conseguimos chegar em segurança.
Certamente, havia segredos ali que Zuo Xiaoyao desconhecia, mas ela limitou-se a sorrir:
— O destino é mesmo curioso. Quanto aos frutos... você—
Antes que pudesse terminar, dois guarda-costas atrás do jovem refinado subitamente atacaram o rapaz de negro. Surpreendido, ele, ainda visivelmente pálido e debilitado, não teve tempo de reagir e tombou na direção de Zuo Xiaoyao, que estava mais próxima.
Tudo aconteceu de forma abrupta. Embora jamais tivesse cogitado aceitar a oferta de aliança, Zuo Xiaoyao sabia que aquele jovem era o senhor ao qual os irmãos Zheng devotavam lealdade. Instintivamente, estendeu a mão esquerda para ampará-lo, enquanto a direita golpeava os dois guarda-costas.
Mas o momento já lhes escapara: os guarda-costas, preparados, conseguiram unir forças e, antes de serem arremessados pela palma enérgica de Zuo Xiaoyao, desferiram um ataque devastador contra o jovem de negro, que ela tentava segurar. Apesar de sua energia espiritual abundante, Zuo Xiaoyao, com um homem pesado em seus braços, não conseguiu desviar a tempo. Ambos recuaram rapidamente, indo direto ao penhasco de Vento e Trovão.
O grupo já se encontrava próximo à beira do abismo e, com o passo em falso, Zuo Xiaoyao não pôde evitar: despencou junto com o jovem de negro. Por um instante, custou a acreditar em sua própria má sorte. Transportada misteriosamente para outro mundo, incapaz de acessar seu poder espiritual, sem contato com o Tesouro Sagrado Púrpura, condenada a viver como uma mortal comum, dedicou-se a buscar ervas nas florestas, valendo-se de sua habilidade marcial. E agora, estava à beira da morte, despencando no abismo, sem esperança de sepultura digna.
Inconformada! Como poderia aceitar tal destino?
Sabia que não podia se desesperar. Precisava manter a calma, ou a morte seria certa. Com poder espiritual, talvez sobrevivesse à queda, ainda que ferida. Mas, naquela condição de simples mortal, cair significava morte certa. Ouvindo o uivo do vento, sua mente estava mais lúcida do que nunca.
Enquanto forçava os olhos a buscar algum ponto de apoio na parede do abismo, ouviu, de repente, uma voz fraca vinda de baixo:
— Segure-se em mim!
No instante seguinte, sentiu sua mão ser agarrada. Surpresa, ergueu a cabeça e viu que era o jovem de negro, que, tendo caído mais rápido por ser mais pesado, conseguira agarrar uma árvore torta que brotava de uma fenda na rocha. O tronco, pouco mais grosso que seu punho, já sustentava o peso do rapaz a muito custo; com ela, tornava-se ainda mais arriscado.
O jovem, ainda convalescente, já estava exausto, após a incursão pela Floresta de Jialuo em busca do Fruto Sagrado Púrpura. Esperava apenas que o fruto amadurecesse logo, mas o ataque traiçoeiro agravara ainda mais sua condição. Quase desmaiando, reuniu forças para agarrar a árvore e, ao conseguir segurar Zuo Xiaoyao, permitiu-lhe um instante de alívio.
Se não fosse por ele, ela jamais teria alcançado a árvore, dado o ângulo da queda. Sabendo disso e compreendendo bem o estado debilitado do rapaz, a mágoa que sentia por estar naquela situação por culpa dele logo se dissipou. Não era de sua índole atribuir a outros a responsabilidade por seus infortúnios. Mesmo que, sem ele, talvez não tivesse passado por tal provação, sabia que também fora imprudente: não desviara quando o viu cair em sua direção, nem se afastara da beira do penhasco ao ampará-lo. Se tivesse agido assim, talvez o desfecho fosse outro.
Sem tempo para se preocupar com quanto tempo a árvore aguentaria, Zuo Xiaoyao rapidamente expandiu sua percepção espiritual para sondar a distância até o fundo do abismo. A queda fora rápida demais para usar a percepção antes, mas agora percebeu: já estavam muito distantes do topo. Restava apenas torcer pelo melhor lá embaixo.
Oitenta metros!
Mesmo se canalizasse toda sua energia, dificilmente sobreviveria à queda, ainda mais considerando que não havia árvores ou água para amortecer o impacto — apenas uma laje de pedra tão dura quanto a parede do abismo. Próxima a alguns restos mortais ainda frescos, era fácil imaginar qual seria o destino deles.
Não, isso era inaceitável! Zuo Xiaoyao apertou instintivamente a mão, sentindo o jovem de negro também segurar com mais força, como se quisesse puxá-la para cima. Vendo seu rosto pálido, coberto de suor, ela compreendeu a intenção dele e suspirou interiormente. Era, sem dúvida, um homem de caráter, mas não deveria aguentar muito mais.
Ao baixar o olhar, notou por acaso a espada pendurada na cintura dele. Um lampejo de esperança brilhou em seu coração: afinal, o céu nunca fecha todas as portas!
Sem entender, o jovem viu Zuo Xiaoyao sacar sua espada com a outra mão. Ele já nem tinha forças para falar, só desejava conseguir puxá-la para perto da árvore, para que ela própria pudesse se salvar. Apesar do ressentimento e do desespero, ele sabia que seu corpo estava no limite e a árvore não resistiria por muito tempo. Se não fosse a surpreendente leveza de Zuo Xiaoyao, talvez nem tivessem aguentado até ali. Agora, só queria garantir que ela tivesse uma chance de sobreviver, mesmo que isso lhe custasse a vida.
Com os pés firmes na espada, ainda segurando a árvore, o jovem sentiu um alívio momentâneo e, mordendo os lábios, pensava em pedir a Zuo Xiaoyao que o largasse e tentasse descer sozinha, pois, no seu estado, só seria um fardo. Mesmo que sobrevivesse, sem o Fruto Sagrado Púrpura, seu destino estava selado.
De repente, Zuo Xiaoyao materializou em sua mão uma adaga de cerca de trinta centímetros, deixando o jovem boquiaberto.
ps: Por volta das sete horas, haverá uma segunda parte!