Capítulo Oitenta e Cinco: Anomalia no Fundo do Penhasco
Não se sabia quanto tempo havia passado, mas era certo que ambos tinham se esforçado enormemente. Utilizando espadas longas, duas adagas de tamanhos diferentes, duas facas de cozinha de largura distinta e galhos de árvore como apoios improvisados para escalar, não apenas Zuo Xiaoyao conseguiu chegar ao fundo do precipício, como também, com a ajuda da fruta mágica de líquido púrpura que ela fez surgir, o jovem de roupas negras, que recuperou quase totalmente suas forças e curou seus ferimentos, aterrissou em segurança.
Graças a isso, os dois puderam cooperar habilmente: um usava sua força interior para construir os apoios, enquanto o outro, ao descer, removia os que não eram mais necessários, tarefa que só era possível graças ao vigor de suas habilidades.
Zuo Xiaoyao, após examinar com sua percepção espiritual o entorno árido do fundo do precipício, escolheu um caminho ao acaso e seguiu adiante, sentindo-se frustrada. Dizem que, diante de perigo extremo, o corpo humano pode liberar potenciais desconhecidos, mas sua energia espiritual desaparecida continuava sem dar sinais de retorno. Falam que, após sobreviver a um grande desastre, a sorte traz benefícios inesperados, mas ela não via nenhuma oportunidade nas paredes lisas de pedra que a cercavam, nem tampouco encontrava qualquer vantagem naquele chão infértil e desolado.
Percebendo que, desde que chegaram ao fundo do precipício, o jovem de preto não se afastava dela, especialmente depois que viu que ela era capaz de materializar coisas do nada, Zuo Xiaoyao, incomodada com o olhar carregado de perguntas que ele lhe lançava, finalmente não conseguiu se conter e virou-se para dizer:
— Você pretende continuar assim? Afinal, eu sou sua salvadora em várias ocasiões. Nem ao menos faz questão de se apresentar, e fica me analisando desse jeito. Por quê?
O jovem de preto, surpreendido pela súbita reclamação, ficou visivelmente constrangido, mas respondeu com voz firme e postura respeitosa:
— Peço desculpas. Perdi a compostura por um momento, espero que a senhorita Xiao me perdoe. Meu nome é Gu Yan Nan.
Vendo que Zuo Xiaoyao cruzava os braços e não respondia, Gu Yan Nan, um pouco desconfortável, continuou:
— Percebo que a senhorita possui habilidades extraordinárias, semelhantes àquelas da “Santa” reverenciada no Reino Fengluan. Estou curioso, poderia me dizer de onde vem e se tem algum vínculo com ela?
Zuo Xiaoyao, agora ainda mais convencida de que tinha alguma ligação com essa Santa de Fengluan, apenas sorriu suavemente e respondeu com naturalidade:
— Nunca deixei o Reino Fengyun, jamais encontrei essa Santa de Jing'en, como poderia saber se temos algum vínculo? Não precisa se preocupar, senhor Gu.
A firmeza de Zuo Xiaoyao era evidente, e embora Gu Yan Nan permanecesse intrigado, sentia-se incerto. Afinal, ela não negou explicitamente qualquer relação com aquela Santa admirada por tantos. Segundo suas informações, a Santa de Jing'en não só era capaz de criar ou transformar objetos, como também podia voar, era imune a armas e exibia uma aura singular. Já Zuo Xiaoyao parecia uma pessoa comum, e suas habilidades para enfrentar adversários eram apenas físicas.
Zuo Xiaoyao, ciente das dúvidas de Gu Yan Nan, não pretendia explicar nada. Para ela, revelar suas diferenças a alguém e não eliminar a testemunha já era um ato de generosidade; decidiu poupá-lo, levando-o em segurança ao fundo do precipício principalmente porque sua sobrevivência só foi possível graças à mão estendida por Gu Yan Nan no momento crítico. Sendo sempre justa, ela achou correto retribuir.
Retirando alguns bolos frios de legumes de seu saco de armazenamento, entregou três ao faminto Gu Yan Nan, enquanto o advertia:
— Este lugar é muito inóspito, não sabemos como sair daqui. Eu trouxe pouca comida, então coma com moderação. Seria lamentável se, depois de escapar da morte, acabássemos morrendo de fome. Infelizmente não há madeira por aqui; se pudéssemos assar a carne daquele monstro, teríamos alimento para alguns dias.
Pensando no monstro de carapaça impenetrável, que acabou tão destroçado, Zuo Xiaoyao suspirou e sentiu-se ainda mais grata a Gu Yan Nan, mesmo que ele devesse ser o mais agradecido. Ao ouvir o suspiro, Gu Yan Nan achou que ela lamentava não poder assar a carne do monstro e não sabia como responder, pois também vira claramente os restos horríveis da criatura, uma cena assustadora. Só de lembrar, o bolo que parecia delicioso lhe dava náusea, mas a fome era maior.
Tentando entender como algo tão repulsivo poderia despertar apetite em alguém, Gu Yan Nan se surpreendeu com a exclamação de Zuo Xiaoyao:
— Espere! Quando caímos, que horas eram?
— Era por volta das dezoito horas... Ah!
Ao responder, Gu Yan Nan percebeu a anormalidade: eles haviam caído à noite, portanto o fundo do precipício deveria estar completamente escuro, impossível enxergar qualquer coisa. Mas ele pôde ver a árvore torta na parede de pedra, conseguiu segurar Zuo Xiaoyao que caía ao lado, e juntos chegaram ao fundo em segurança. Tudo isso parecia acontecer em plena luz do dia; mesmo agora, caminhando naquela profundidade, era como se fosse dia, embora ao olhar para cima só vissem a pedra.
Ao se dar conta da estranheza, Zuo Xiaoyao sentiu uma onda de emoções conflitantes, sem saber se deveria se alegrar ou temer. Algo fora do comum geralmente é sinal de perigo. Não era normal: era noite, e mesmo em pleno dia, aquele fundo de precipício deveria ser sombrio, nunca tão claro. Só agora, ao mencionar o assado, ela se recordou do detalhe.
Anormalidades geralmente indicam perigos desconhecidos, mas também podem representar oportunidades ocultas. O que significava aquela luminosidade incomum naquele lugar desolado, ninguém poderia afirmar.
Sem perceber, Gu Yan Nan entregou a decisão a Zuo Xiaoyao, que também compreendia a gravidade da situação:
— Para onde devemos ir agora? Procurar a fonte dessa luz?
Zuo Xiaoyao assentiu sem hesitar, apontando para diante:
— Claro. Sinto que a luz é mais intensa naquela direção. Vamos seguir em frente!
Não era um palpite: ao chegar ao fundo, ela usou sua percepção espiritual para examinar ambos os lados e percebeu claramente que aquele lado era mais iluminado, enquanto o outro era mais escuro. O instinto humano de buscar a claridade fez com que ela escolhesse esse caminho, sem pensar na questão do tempo ou na anormalidade do lugar. Supôs que o espaço ali era maior, permitindo mais luz, talvez até vegetação.
Agora, tudo indicava que a fonte da luz anormal estava naquela direção!
ps: Segundo capítulo entregue, peço que continuem apoiando, e quem sabe amanhã teremos mais dois capítulos!