Capítulo Cem: No Fundo do Lago

Cultivando na Vida Moderna Yun Xi Shao 3338 palavras 2026-02-07 12:37:44

Seria possível que fosse o Leite da Fonte Espiritual de Dez Mil Anos? Ao perceber a presença de energia espiritual ao redor naquele líquido leitoso que chegava a quase dois metros de profundidade, além de exalar um aroma sutil e penetrante que acalmava o espírito — tão tênue que só era perceptível a quem estivesse completamente submerso, como ela —, e ainda possuir o poder de purificar e transformar o corpo, mesmo sem recorrer a técnicas de cultivo, bastava estar imersa para sentir as mudanças ocorrendo, Zuo Xiaoyao conjecturava consigo mesma. Apesar de já ter passado por múltiplas transformações físicas devido ao uso de elixires ou avanços de nível, nunca experimentara algo semelhante de forma tão direta.

Entretanto, mesmo considerando que aquela substância era tida como um tesouro inatingível, existente apenas em lendas do mundo moderno da cultivação e desaparecida há milênios, a energia contida na água da Fonte Espiritual de Dez Mil Anos deveria ser muito mais densa, quanto mais a do leite da fonte, que representava sua essência mais rara! A intensidade do poder ali contido certamente excederia a imaginação de qualquer mortal. Não só magos comuns, que ainda não haviam transcendido a condição humana, seriam incapazes de suportar, mas até mesmo cultivadores de alto nível como ela sofreriam consequências fatais ao tomar banho ali — a única diferença seria a rapidez com que seus corpos explodiriam.

Se não fosse por isso, Zuo Xiaoyao não lembraria de nenhuma outra substância natural, leitosa, capaz de produzir tal efeito. Embora sua percepção espiritual não conseguisse ir muito longe naquela água levemente leitosa, ainda assim era suficiente para suas necessidades, poupando-lhe esforços ao investigar a origem do “lago”, sem precisar incomodar os outros praticantes ou pedir-lhes que se afastassem.

Por sorte, o fundo do lago não era grande e, ao examinar cuidadosamente quase toda sua superfície de pouco mais de cem metros quadrados, Zuo Xiaoyao conseguiu perceber uma área de cerca de três metros quadrados de onde emanava uma distinta flutuação de energia. Coincidentemente, a pessoa que escolhera aquele local para cultivar era alguém com quem ela tinha alguma ligação: Jiao Yunfan.

Circulando ao redor, hesitou. Se usasse força espiritual para atacar aquela área, que efeito isso teria sobre Jiao Yunfan, que ali meditava com a cabeça submersa? O barulho seria excessivo? Zuo Xiaoyao não ousou agir impulsivamente — não queria correr o risco de prejudicar-se por tentar uma artimanha malsucedida. Os três anciãos à beira do lago, embora mais relaxados, ainda guardavam o local.

Causar um alarde não era o que desejava, pois o campo restritivo que preparara só conseguia abafar as grandes perturbações abaixo da superfície, não sons capazes de atrair atenção. Após pensar um pouco, retirou um artefato mágico deixado para trás por Liu Cheng, a Pérola de Isolamento Sonoro, e lançou ao redor uma barreira de silêncio.

Quando estava prestes a agir, hesitou novamente. O resultado era incerto e não queria ser responsável pela morte de alguém. Se Jiao Yunfan morresse inocentemente, ela não se perdoaria.

Após refletir, percebeu, quase por acaso, que próxima ao local estava Mei Suyun, cujas roupas, molhadas, colavam ao corpo, realçando suas curvas mesmo submersa. Um lampejo de astúcia brilhou nos olhos de Zuo Xiaoyao.

Ela ampliou a barreira de silêncio com mais energia espiritual, incluindo Mei Suyun, e então, com um leve movimento, lançou uma diminuta flecha d’água contra o braço esquerdo da outra. Um grito de susto e pânico ecoou no lago, destacando-se claramente apenas para quem estava sob a barreira, enquanto todos os outros permaneciam alheios.

Como Zuo Xiaoyao previra, ao ouvir o grito de Mei Suyun, Jiao Yunfan despertou do cultivo, olhou instintivamente para ela — e, ao ver a expressão apavorada da jovem, também emergiu, protegendo a cabeça com um escudo de energia, e nadou rápido até ela, perguntando preocupado:

— Suyun, o que aconteceu?

Meio atordoada, sentindo o calor da preocupação de Jiao Yunfan, Mei Suyun lançou-se, trêmula, em seus braços, ainda mais assustada:

— Irmão Yunfan, que bom que está aqui! Meu braço esquerdo… de repente senti uma dor intensa, como se algo tivesse me picado. Ainda dói! Será que há alguma criatura perigosa aqui?

Jiao Yunfan, que supunha ser apenas um problema de cultivo, ficou perplexo ao ouvir a suspeita sobre possíveis criaturas, mas logo a tranquilizou, batendo levemente em suas costas:

— Não pode ser! Este é o Lago Sagrado. Dizem que nem serpentes, nem insetos, nem mesmo magos de baixa energia conseguem sobreviver aqui. É completamente seguro, não se preocupe, deve ter sido só impressão.

— Não foi impressão, irmão Yunfan, eu juro…

O rosto belo de Suyun demonstrava mágoa e convicção, mas as palavras morreram-lhe na boca quando algo inesperado aconteceu ali perto, atraindo a atenção de ambos, que olharam, atônitos, para o jovem que surgia de repente.

De costas para eles, o recém-chegado sequer se preocupou em cumprimentá-los, concentrando-se diretamente na área central do lago, atacando o local lendário de nascimento do Lago Sagrado. A energia liberada causava uma sensação estranha, ao mesmo tempo familiar e desconhecida — certamente não era apenas força mágica ou marcial.

Graças à Pérola de Isolamento Sonoro e ao campo restritivo, Zuo Xiaoyao pôde agir sem ser notada pelos outros, ainda que o movimento no fundo do lago não fosse pequeno — somente Mei Suyun e Jiao Yunfan perceberam.

— Quem é você? O que pensa em fazer? — questionou Jiao Yunfan, em tom severo.

Olhando para o belo casal que ainda se abraçava, Zuo Xiaoyao sorriu com ironia:

— Quanto tempo, espero que estejam bem. Ouvi dizer que você conquistou o título máximo deste mundo, parabéns!

— Xiaoyao! O que faz aqui? — Reconhecendo seu rosto e notando como suas vestes largas permaneciam secas, sem precisar de proteção mágica, Jiao Yunfan, surpreso, não pôde deixar de perguntar. Ele tinha certeza de que ela não estava entre os vinte selecionados.

Após um breve teste, Zuo Xiaoyao confirmou que havia algo suspeito naquele local, pois sua percepção espiritual, que antes não penetrava longe na água, agora conseguia atravessá-lo e vislumbrar algo semelhante a outro espaço. Sem pressa de partir, disse com interesse:

— Sim, sou eu. Como você disse na última vez, nosso encontro é obra do destino. Talvez eu traga algum incômodo, mas deixarei esta compensação!

— O que está tramando? — Jiao Yunfan, ainda segurando Mei Suyun, pegou instintivamente o pequeno saquinho de couro que Zuo Xiaoyao lhe lançou e, sentindo que a situação era mais séria do que imaginava, perguntou em voz alta. Por mais que tentasse entender o que se passava, não conseguia explicar por que ninguém mais percebia nada, mesmo os que estavam a poucos metros.

Como se lesse seus pensamentos, Zuo Xiaoyao sorriu:

— Não se preocupe, senhor Jiao. Diferente de alguém que talvez tenha sido meu conhecido há nove anos, a compensação que lhes dou é suficiente para cobrir qualquer perda. Adeus, não digo “até logo”.

— Você… — Ele não teve tempo de terminar. Zuo Xiaoyao, liberando novamente aquela energia misteriosa, desferiu outro golpe no local suspeito, desaparecendo em seguida. Jiao Yunfan, atordoado, murmurou baixinho:

— …É uma mulher!

— O que aconteceu aqui? — Quando Zuo Xiaoyao partiu, recolheu não só sua consciência temporária, deixada no Mar do Trovão, mas também a Pérola de Isolamento Sonoro. O ruído de seu último ataque chamou a atenção de todos, inclusive dos três anciãos na margem do lago. Sua súbita partida foi testemunhada por todos, e, ao ouvirem a voz retumbante do mago de mais alto nível, finalmente todos despertaram para o ocorrido.

Vendo os três mestres descerem rapidamente ao lago para investigar, retornando após poucos instantes sem encontrar nada, todos os olhares se voltaram para os presentes. Jiao Yunfan e Mei Suyun, recompondo-se, relataram tudo o que tinham visto, incluindo o encontro anterior com Zuo Xiaoyao no Pavilhão Yan Hua. Sobre a compensação — o saquinho que ela lançara — ambos, em silencioso acordo, omitiram qualquer menção.

Mesmo anos depois, Jiao Yunfan sentia orgulho da decisão instintiva de guardar segredo sobre aquilo. Para preservar o mistério, chegou a se casar com Mei Suyun, que sempre o amara unilateralmente. Na verdade, o saquinho continha apenas uma receita de remédio, mas, como a própria Zuo Xiaoyao dissera, era suficiente para compensar a perda do Lago Sagrado, dando à família Jiao a base para tornar-se, no futuro, a mais poderosa da região.

Mal Zuo Xiaoyao quebrou a barreira, desapareceu do fundo do lago, e o local atingido retornou ao normal, como se nada houvesse acontecido.

Ao adentrar o espaço que antes sondara sem perceber perigo, finalmente pôde respirar aliviada. A busca pelas pegadas do velho amigo chegava, enfim, a uma breve pausa.

Ainda restava muito a fazer e o fim era incerto, mas, ao menos, sabia estar no caminho certo. Não precisaria mais se preocupar em evitar os grandes mestres da região. Uma vez que seu amigo desaparecera misteriosamente no Lago Sagrado, provavelmente deixara rastros ou pistas em alguma caverna de estalactites sob o lago, indicando para onde fora depois. Zuo Xiaoyao estava ansiosa!

ps:
ps: O próximo capítulo sairá antes das nove!