Capítulo Setenta e Dois: Onde Estou?
“Onde estou?”
Ao abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi um teto de palha pendendo cinzento, sustentado por vigas toscas, e teias de aranha nos cantos. Um sobressalto percorreu o coração de Zuo Xiaoyao, que, instintivamente, tentou sentar-se na cama. Imediatamente, uma sensação de fraqueza extrema e tontura, semelhante à que se sente após uma febre de mais de quarenta graus, invadiu-lhe os sentidos.
Apoiando a testa, esforçou-se para se recompor e, em seguida, fez uma rápida avaliação do ambiente onde se encontrava. O quarto era pequeno, com poucos objetos, permitindo que se enxergasse tudo com um só olhar. Assim, Zuo Xiaoyao finalmente compreendeu o verdadeiro significado da expressão “uma casa de paredes nuas”.
A cabana de palha era baixa, e ela estava deitada sobre algo que deveria se chamar “cama”, embora ao tentar levantar-se, o objeto debaixo dela tenha rangido, fazendo sons de “crec” e “chiado”. Não havia cortinas de cama, apenas um armário de madeira muito simples ao lado, cuja camada externa fora pintada de vermelho – ou algo parecido. Na diagonal da cama, estava a porta do quarto, bem fechada, e encostados na parede ao lado dela repousavam quatro ou cinco potes pretos de tamanhos variados. O chão era de terra batida.
Esta era, sem dúvida, a casa de uma família pobre, constatou Zuo Xiaoyao rapidamente, mesmo nunca tendo visto tamanha miséria antes. Nem mesmo nos dias mais difíceis, quando vivia apenas com a avó, sua vida havia decaído tanto a tal ponto. Por que, então, ela teria aparecido subitamente ali? E por que se sentia tão fraca?
Sua última lembrança era de ter se libertado de uma situação em que sua alma fora subitamente suprimida. Viu, então, uma esfera negra voar sozinha para fora da bolsa de armazenamento que carregava no bolso direito. Logo em seguida, uma força extraordinariamente poderosa a subjugou sem que pudesse reagir. Recordava-se vagamente de Qin Xiao e Qin Lian, que estavam por perto, tentarem segurá-la, mas depois disso, perdeu completamente a consciência.
Aquela esfera negra fora comprada por ela, há três anos, durante uma das primeiras missões, numa loja de antiguidades. Tinha uma aura sombria, mas não emanava energia espiritual. Nos dias que se seguiram à compra, intrigada, Zuo Xiaoyao estudou-a diversas vezes. Descobriu que, por mais que tentasse infundir energia espiritual ou consciência nela, a esfera absorvia tudo, mas ela própria não conseguia controlá-la.
Com o tempo, perdeu o interesse e deixou a esfera esquecida num canto da bolsa de armazenamento. Jamais imaginaria que, agora, ela demonstraria tal “poder”, arrastando-a para esta situação sem qualquer aviso.
Ao pensar na esfera negra, lembrou-se também da bolsa onde a guardava. Olhou para baixo e, para seu alívio, percebeu que ainda vestia seu conjunto esportivo, intacto. Tateou o bolso direito e encontrou a bolsa de armazenamento de grande capacidade que costumava usar. Isso lhe trouxe algum conforto. Ao que parecia, os donos daquela casa eram pessoas honestas, pois ninguém mexera em suas roupas ou pertences.
Preocupava-se, entretanto, com Qin Xiao e Qin Lian; será que, ao tentarem ajudá-la, também teriam sido lançados a algum lugar estranho como ela? Não fazia ideia de como terminara o conflito no deserto do Saara, mas, enquanto pensava nisso, tampouco suspeitava que não só Qin Xiao e Qin Lian haviam sido arrastados com ela, mas também Luo Hongtian e Zhuge Jinyu.
Sentindo o corpo excessivamente fraco, sem uma gota sequer de energia espiritual disponível, Zuo Xiaoyao, agora desacostumada à sensação de ser uma pessoa comum, decidiu tentar praticar suas técnicas para, assim que recuperasse suas forças, procurar por Qin Xiao e Qin Lian, caso estivessem por perto.
Infelizmente, pouco depois, sentada de pernas cruzadas na cama e tentando meditar, abriu os olhos, tomada por um choque e pânico indizíveis. Por mais que tentasse, não conseguia visualizar o estado do próprio campo de energia. Nem sentia um traço sequer de energia espiritual ao praticar as técnicas de nível básico. Estava, mais uma vez, reduzida a uma pessoa comum, sem qualquer aptidão para o cultivo. Mesmo as técnicas mais elementares não produziam efeito algum. Sua consciência espiritual e força mental, embora extremamente debilitadas, ainda existiam, mas estavam completamente desconectadas dos Três Tesouros do Violeta Supremo em seu mar espiritual.
A perda total da capacidade de cultivo e a impossibilidade de usar os Três Tesouros do Violeta Supremo, cada uma dessas desgraças, por si só, já seria uma tragédia para Zuo Xiaoyao. Agora, ambas se abatiam ao mesmo tempo, quase como se fosse um desastre irreversível. E isso sem que ela soubesse de um outro infortúnio ainda por descobrir, pois não tinha plena consciência da gravidade de sua situação.
Apesar do choque inicial e da sensação de impotência, Zuo Xiaoyao logo recuperou a calma. Afinal, já passara por muitas coisas e sabia que, diante de uma crise, entrar em pânico só piora as coisas. Era melhor focar em compreender o ambiente em que estava, procurar informações sobre Qin Xiao e Qin Lian, e depois tentar descobrir como perdera suas habilidades e por que nem as técnicas mais básicas funcionavam.
Decidida, respirou fundo, ignorou o mal-estar e a dor no lado direito do abdômen, levantou a colcha surrada – remendada inúmeras vezes, mas ainda assim cheia de buracos – e, esforçando-se, tentou sair da cama. Calçou os sapatos, mas, ao tentar se levantar, o mundo girou ao seu redor. Por pouco não caiu no chão, mas conseguiu se apoiar na beira da cama e manteve-se em pé com dificuldade.
“Ai, moça! Por que está se levantando? Volte a deitar-se imediatamente! Se precisar de algo, é só chamar. Você dormiu três dias e três noites, claro que está muito fraca!”
Surpreendida, Zuo Xiaoyao olhou para a mulher de meia-idade que acabara de entrar empurrando a porta. A mulher largou apressada o cesto que carregava e correu para amparar o corpo trêmulo de Zuo Xiaoyao, ajudando-a a se recostar na cama. O que mais intrigava não era a simplicidade e a naturalidade calorosa da mulher, mas suas roupas e penteado: uma blusa curta combinada com uma saia longa, presa alta na cintura por uma faixa de tecido, quase alcançando as axilas. Tudo era de tecido grosso azul-escuro. Nos pés, sapatos de pano cinza-amarronzado de bico redondo, também remendados, mas limpos. Os cabelos estavam presos num coque. Ficava claro que se tratava de alguém muito prática.
Pelo sotaque, parecia ser de alguma região do nordeste da China. Embora Zuo Xiaoyao já tivesse viajado bastante e, com a influência da televisão e da internet, conseguisse entender quase tudo o que a mulher dizia, ainda assim tinha certeza de que, a não ser que estivesse voltando de algum set de filmagens, ninguém na sociedade moderna se vestiria como uma camponesa chinesa dos tempos antigos. E, à julgar pelo ambiente...
Sem saber onde estava o erro, respirou fundo, e sem esconder o espanto causado pela presença da mulher, perguntou, um tanto perdida:
“Como devo chamá-la? Onde estamos?”
ps: Agradeço aos leitores Três Grandes Risadas, Luli Xiaoxiao e Garota Confusa pelo apoio. Anteontem fiquei escrevendo até as quatro da madrugada; ontem não aguentei e fui dormir à meia-noite. Hoje, desde cedo, não parei um instante. Só agora consegui tempo para passar de mil para mais de duas mil palavras. Amanhã vou tentar escrever ainda mais!