Capítulo Setenta e Sete: Desprezado
Quase dez dias depois, Zuo Xiaoyao finalmente chegou à capital regional de Caoyang, onde se localizava o vilarejo de Liuroukou, em Caozhou. Esta cidade possuía uma escala considerável, sendo classificada como de porte médio dentro do País dos Ventos, um dos mais remotos do continente de Fengxing, e Caozhou era, por sua vez, uma das províncias mais distantes da capital nacional.
A região era vasta e pouco povoada, o que tornava as instituições relativamente flexíveis. Além disso, devido à extrema pobreza, até mesmo os funcionários corruptos que buscavam enriquecer evitavam permanecer em Caozhou, onde nem mesmo os vilarejos mais populosos ofereciam qualquer perspectiva de lucro.
Por outro lado, os camponeses locais viviam, em geral, de maneira relativamente feliz. Essa era a impressão de Zuo Xiaoyao após percorrer a região: não era apenas o povo do vilarejo de Liuroukou, onde passara mais tempo, que desfrutava de tranquilidade. Na verdade, a maioria dos habitantes das aldeias e vilas da área levava uma vida digna, ainda que a pobreza fosse generalizada e a carência material severa. Ao menos conseguiam vestir-se adequadamente e não precisavam preocupar-se com a próxima refeição.
Zuo Xiaoyao já sabia, pelos livros, que no País dos Ventos, como em muitos outros países deste mundo, tanto a nobreza quanto o povo comum veneravam profundamente os magos, figuras a quem até mesmo os nobres deviam respeito. Esses magos recebiam, desde o nascimento, uma herança especial e, após adequada preparação, desenvolviam habilidades extraordinárias. Embora seus poderes variassem em grau, desfrutavam de imensa reverência junto à população. Praticamente todo país possuía um Tribunal dos Magos, no qual o cargo mais alto era ocupado pelo Grande Mago, a quem até o soberano devia obediência.
No entanto, ver com os próprios olhos era diferente de apenas ouvir falar. Ao ampliar seu conhecimento sobre esse mundo, Zuo Xiaoyao percebeu que subestimara profundamente o prestígio dos magos, que para o povo eram quase divindades. Sobre eles recaíam as esperanças e a veneração de incontáveis pessoas; muitas famílias chegavam a consagrar tabuletas com o nome do Grande Mago nacional em seus lares, na esperança de que ele realizasse seus desejos.
Segundo o que Zuo Xiaoyao conseguiu apurar, o termo “deus” jamais era mencionado ali, tampouco lendas sobre demônios e monstros. Em contrapartida, histórias ligadas aos magos ou aos ancestrais da magia eram abundantes, falando de feitos grandiosos e benevolentes, comparáveis aos das divindades das lendas modernas.
Era quase certo que essa linhagem de poderes, sustentada por métodos misteriosos, não tinha relação com as tradições de cultivo espiritual — nota-se isso pelo fato de que raramente um mago superava o século de vida. Assim, embora curiosa, Zuo Xiaoyao não se viu tentada a investigar mais profundamente.
Por mais insignificante que fosse Caozhou, Caoyang ainda era a capital provincial, construída com imponência e de área vasta, repleta de vida e movimento. Multidões percorriam as ruas ladeadas por casas de chá e restaurantes luxuosamente decorados, além de lojas de todos os tipos. Pessoas elegantemente vestidas entravam e saíam desses estabelecimentos, algo muito diferente das pequenas cidades pelas quais Zuo Xiaoyao havia passado.
Apesar do contraste marcante entre Caoyang e o vilarejo de Liuroukou, Zuo Xiaoyao, que passava apenas de passagem, não pretendia demorar-se ali. Seu objetivo era claro: deixar Caozhou, cruzar a vizinha Mengzhou e alcançar Luoling, a província fronteiriça entre o País dos Ventos e o País de Fengluan, junto à Serra de Weishan.
Obviamente, sua intenção não era investigar se a chamada “Santa” de Fengluan seria Qin Lianke, mas sim alcançar a Floresta de Jialuo, uma das duas maiores florestas primitivas do continente. Dizia-se que essa floresta era imensa, repleta de feras selvagens e poderosas, e suas bordas eram um paraíso para aventureiros experientes. Quem conseguisse sair de lá ileso retornava com riquezas: plantas medicinais, frutos, minerais, peles de animais valiam muito dinheiro.
O interior da floresta, porém, era extremamente perigoso. Jamais alguém atravessou-a por completo, nem mesmo os magos respeitados ou os mestres de artes marciais do mais alto nível. Aqueles poucos que se arriscaram retornaram, na melhor das hipóteses, gravemente feridos; a maioria jamais voltou.
Zuo Xiaoyao não buscava aventura ou riqueza ao decidir viajar à Floresta de Jialuo, mas sim uma chance, uma oportunidade que pudesse ajudá-la a recuperar suas habilidades, pois, ao perceber que depender apenas do próprio esforço seria um caminho quase interminável, não lhe restou alternativa senão buscar esse risco.
Ela ainda não conhecia bem o nível real dos poderosos deste mundo. Apesar de se preparar arduamente, estudando antigas técnicas de artes marciais, não tinha certeza se, ao se arriscar na floresta, encontraria de fato uma oportunidade de recuperar sua energia espiritual. Ainda assim, não podia apenas esperar pelo destino; precisava buscar, com todos os esforços, aquela sorte que muitos julgavam inalcançável.
Neste mundo, o papel da mulher era submisso ao do homem, mas os costumes eram relativamente abertos. As mulheres podiam passear livremente, trajando vestidos coloridos sem véus ou chapéus que lhes ocultassem o rosto. Pelas roupas refinadas das damas e criadas de famílias nobres em Caoyang, feitas de seda, cetim e tecidos finos, Zuo Xiaoyao percebeu que a indústria têxtil era bastante desenvolvida, ao passo que a agricultura ainda era limitada. Daí a vida luxuosa dos ricos e a luta pela sobrevivência dos pobres.
Mas nada disso dizia respeito a Zuo Xiaoyao, que sempre se considerou apenas uma viajante. Seu propósito era claro: recuperar seus poderes o quanto antes, depois ir ao País de Fengluan para verificar se a “Santa” era de fato uma velha conhecida e procurar Qin Xiao, que provavelmente também havia sido trazido para este mundo, e, juntos, planejar o futuro. Embora procurá-los envolvesse certos riscos — afinal, sabiam que ela evoluía rapidamente em suas habilidades —, ambos tinham sido trazidos ali em parte por sua causa.
Apoiando-se no parapeito do pavilhão construído sobre o barco, com um pequeno embrulho nas costas, Zuo Xiaoyao lançou um suspiro ao contemplar as águas caudalosas do rio. Na vida moderna, nunca tivera a oportunidade de viajar numa embarcação de passageiros movida a remos, tampouco vira rios tão límpidos quanto aquele. O vento suave e o ar puro a fizeram sentir-se, por um momento, bastante animada.
A fronteira entre Caozhou e Mengzhou era marcada por um rio de quase cinco quilômetros de largura. Para atravessá-lo, era necessário tomar um barco. O navio de passageiros em que Zuo Xiaoyao seguia fazia apenas uma viagem diária, a um preço acessível de trezentas moedas, transportando em sua maioria camponeses comuns. Os mais abastados preferiam alugar embarcações privadas, não se misturando à multidão.
O rio, chamado Luoning, tinha seis ou sete mil quilômetros de extensão, e sua reputação no continente não ficava atrás da do lendário Rio Amarelo do mundo moderno. Zuo Xiaoyao se perguntou se ali também viveriam criaturas de tamanho colossal. Enquanto se perdia nesses pensamentos, uma voz alegre soou ao seu lado: “É a primeira vez que o amigo vai para Mengzhou?”
Virando-se, Zuo Xiaoyao viu ao lado um jovem de feições corretas e sorriso radiante, com olhos límpidos. Apesar da interrupção inesperada, não se sentiu incomodada. Ao embarcar, notara que ele e outros quatro rapazes exalavam uma aura típica de quem treinara artes marciais, razão pela qual lhes prestara atenção. Não imaginava que aquele moço, de aparência quinze ou dezesseis anos, fosse de temperamento tão expansivo. Sorrindo, respondeu: “Exatamente, posso saber como adivinhou?”
“O amigo ficou olhando o rio desde que embarcamos, em vez de ir descansar. Logo percebi que era sua primeira vez numa embarcação dessas, tal como aconteceu comigo!”, respondeu o rapaz, orgulhoso, e, sem cerimônia, continuou: “Meu nome é Zheng Kaining. Como se chama? Parecemos ter a mesma idade, então dispenso formalidades! Você está viajando sozinho? Meus irmãos já estiveram aqui várias vezes; talvez possam lhe dar alguns conselhos.”
Sou quase o dobro da sua idade, pensou Zuo Xiaoyao, mas, por ser mulher de compleição delicada, ao se disfarçar de homem parecia ainda mais jovem, sem pretender desfazer o engano do simpático rapaz. Sorrindo, agradeceu: “Agradeço a gentileza, irmão Zheng. Chamo-me Xiao Yao. Estou apenas de passagem por Mengzhou, a caminho de Luoshan, então não será necessário incomodar sua família.”
Zheng Kaining arregalou os olhos: “Luoshan? É muito longe! Você vai sozinho? Há muitos ladrões naquele caminho, é perigoso!”
“Já ouvi falar desses perigos, mas preciso ir à Floresta de Jialuo e me preparei bem. Viajar sozinho não será problema!”, respondeu Zuo Xiaoyao, com um sorriso sereno, demonstrando não se preocupar com os riscos.
Diante de tanta tranquilidade, Zheng Kaining franziu as sobrancelhas: “Acho que você nunca passou por isso, por isso não leva a sério o perigo. Mas desta vez você tem sorte; eu e meus irmãos também vamos à Floresta de Jialuo. Podemos viajar juntos e, se houver problemas, nos ajudamos!”
Antes que Zuo Xiaoyao respondesse, Zheng Kaining a avaliou de alto a baixo e disse: “Mas, sendo sincero, com seu porte físico, acho difícil que consiga algo lá; pode até acabar se prejudicando. Tem certeza que quer mesmo ir?”
Mesmo com a crítica sutil, Zuo Xiaoyao não se ofendeu — afinal, a intenção era boa. Engolindo a recusa que estava a ponto de proferir, sorriu e assentiu: “Muito bem, irmão Zheng. Conto com sua ajuda!”
Sem perceber a ironia nas palavras de Xiaoyao, nem suspeitar que ela já avaliara a força dele e de seus colegas, Zheng Kaining apenas assentiu e convidou: “Venha, vou apresentá-lo aos meus irmãos ali no pavilhão. Eles são muito habilidosos nas artes marciais!”