Capítulo Sessenta e Cinco: O Chamado do Chefe
Ao deixar a Cidade B, onde estivera quase três vezes a trabalho, Zuo Xiaoyao retornou à Gai Shi após quase meio ano de ausência. Embora nos últimos três anos estivesse frequentemente em viagem, e cada retorno tivesse como objetivo apenas aceitar novas missões, no total, seu tempo de permanência ali não era tão curto. Afinal, apesar do quadro de missões exibido incessantemente na tela de transmissão estar sempre repleto, nem sempre surgiam tarefas que valessem o seu esforço. Às vezes, para conseguir uma missão adequada, precisava esperar três ou quatro meses, enquanto a execução das missões em si raramente tomava muito tempo. Com seu cultivo já no estágio intermediário da Fundação, as tarefas, apesar de trabalhosas, eram quase triviais, longe de representarem qualquer perigo real.
Durante esse tempo, Zuo Xiaoyao passou a admirar secretamente o chefe da Gai Shi, conhecido como “Chefe” e frequentemente elogiado por Wei Tong. Era realmente alguém notável. Não apenas pelos inúmeros serviços comuns realizados por funcionários habilidosos, mas também pelas missões que exigiam cultivadores e que desfilavam sem cessar na tela de transmissão. Os clientes dessas tarefas variavam desde autoridades de vários países e grandes facções do submundo, até cultivadores do próprio mundo oculto.
Se não fosse por sua habilidade estratégica, vastos recursos e relações, e até mesmo certa influência no mundo dos cultivadores, dificilmente teria conseguido manter para si aquele local de alta concentração de energia espiritual. Era possível que já tivesse sido eliminado por alguma força insatisfeita. Afinal, tanto para os comuns quanto para os cultivadores, ninguém gostaria de ver seus próprios segredos expostos, sobretudo por uma organização como a Gai Shi, que só investigava por encomenda.
Quando entrou na Gai Shi, Wei Tong mencionou admirar o discernimento do chefe. Zuo Xiaoyao ficou intrigada, sem entender como, sem uma investigação prévia, o “Chefe” julgara que ela tinha qualificação para trabalhar em troca de quitar uma dívida.
Com o tempo, ao se familiarizar mais com o ambiente e analisando suas próprias ações, Zuo Xiaoyao suspeitou que chamara a atenção do “Chefe” por conta de um deslize cometido durante a execução de uma missão. Optar por alugar apenas os equipamentos, sem solicitar ajuda de pessoal da Gai Shi, era uma atitude incomum. Afinal, instalar discretamente todos os dispositivos de monitoramento ao redor dos protegidos da família Wang, sempre rodeados de ex-militares, era tarefa quase impossível sem a confiança deles. Que ela conseguisse ativar o sistema experimental de rastreamento sem levantar suspeitas certamente chamou a atenção do “Chefe”, que sabia exatamente as precauções necessárias para usar aquele equipamento com sucesso.
Claro, se sua teoria estava correta ou não, era impossível saber. Desde que iniciou sua jornada de “trabalhar para pagar” na Gai Shi, não viu o “Chefe” sequer uma vez em três anos. Como não era do tipo que precisava desvendar cada mistério, Zuo Xiaoyao logo deixou o assunto de lado, concentrando-se em quitar a dívida e aprimorar-se no cultivo.
Após atingir o estágio intermediário da Fundação, restavam-lhe ainda muitas pílulas de segunda categoria de qualidade suprema. No início, essas pílulas até ajudavam na elevação do cultivo, mas agora já não surtia efeito algum; a evolução dependia unicamente da absorção de energia espiritual. Felizmente, possuía um espaço secreto de energia densa, onde não precisava se preocupar com a intensidade do qi. O problema era que não podia entrar e sair livremente sem arriscar ser flagrada por câmeras ocultas.
Depois de experimentar pessoalmente a eficácia dos modernos dispositivos de vigilância, Zuo Xiaoyao passou a ser ainda mais cautelosa. Hoje, com câmeras disfarçadas e sem emitir energia, até cultivadores têm dificuldade em detectá-las. Por isso, estava ansiosa para quitar logo a dívida e poder se isolar em algum lugar seguro, livre de olhares indiscretos.
Três meses depois de concluir mais uma missão, retornou ao seu “quarto” na Gai Shi de bom humor. Faltavam apenas três missões para conquistar a liberdade total. Estava cansada da sensação de estar endividada!
Cinco dias depois, ainda sem escolher a próxima missão, relaxava no sofá da sala assistindo TV e acompanhando a tela de transmissão de missões, quando ouviu o som repentino da campainha. Instintivamente, ergueu os olhos para o grande relógio de parede e percebeu que ainda não era hora do almoço, ficando intrigada.
Desde que se mudara para ali, nunca recebera visitas. Apenas os funcionários do restaurante da Gai Shi, que entregavam as refeições previamente encomendadas, tocavam a campainha. Fora isso, era raro receber qualquer contato. Os cultivadores, em geral, eram ainda mais reservados que os habitantes urbanos modernos, vivendo lado a lado por anos sem sequer cumprimentar o vizinho. Casos como o de Zuo Hongtian eram exceção.
Apesar da dúvida, Zuo Xiaoyao sentou-se ereta e usou o controle remoto para abrir o portão. Menos de dois minutos depois, ouviu uma voz familiar: “Xiaoyao, boas notícias! O Chefe está te chamando para tratar de um assunto importante!”
Era Wei Tong, o funcionário com quem mais convivera nesses três anos. Sempre era ele quem recebia os relatórios e entregava as recompensas após cada missão. Surpresa e curiosa, Zuo Xiaoyao permaneceu sentada e sorriu: “Alguma dica de bastidor? Por que será que o Chefe lembrou de me ‘convocar’ de repente? É coisa boa ou problema?”
“Não faço ideia. Assuntos do Chefe estão além da nossa compreensão. Mas deve ser coisa boa! Quem sabe ele se empolga com seu desempenho e perdoa as três missões restantes? Digo, temos bastante gente por aqui, mas ninguém é tão assíduo quanto você, sempre correndo atrás de tarefas!”
Wei Tong lançou um olhar pela sala de estar, que permanecia exatamente como quando Zuo Xiaoyao chegara, e sorriu, percebendo que ela não pretendia se estabelecer ali. Diferente dos outros, não se incomodava em personalizar o ambiente.
Com autocrítica, Zuo Xiaoyao fez um muxoxo: “Deixa disso. Já percebi, seu Chefe é pão-duro. Não vai desperdiçar a chance de extrair mais três trabalhos meus!”
Talvez por saber que ela tinha razão, Wei Tong, apesar de admirar profundamente o Chefe, não contestou. Apenas riu, dizendo: “Não sei dos detalhes. Só sei que ele pediu para chamar os cultivadores mais avançados da Gai Shi. Vai anunciar tudo de uma vez!”
Cultivadores no estágio da Fundação eram figuras raras, mesmo no mundo oculto. Muitos viam os cultivadores da Gai Shi como pessoas que haviam ‘caído’ ao ponto de depender de missões mundanas para sobreviver. Tanto os funcionários fixos quanto os temporários, no máximo, apresentavam o nível de Wei Tong, estágio intermediário do Condensamento de Líquido. Diziam que, além do Chefe, não havia ninguém no estágio da Fundação.
Zuo Xiaoyao, claro, não recusaria. “Está bem. Vai ser no salão do segundo andar?”
O salão do segundo andar era reservado aos assuntos dos cultivadores, local das reuniões trimestrais. Zuo Xiaoyao só ia lá para entregar missões. Já outros cultivadores, menos desapegados, pediam carros esportivos, compravam casas para amantes ou planejavam viagens, tudo ali. Qualquer pedido resolvível com dinheiro era prontamente atendido pela Gai Shi, que até mantinha um setor exclusivo para isso em outro prédio, com funcionários destinados apenas a cumprir esses mandados. O tratamento dispensado ali era completamente distinto do dado aos funcionários comuns.
As missões realizadas pelos cultivadores rendiam somas exorbitantes à Gai Shi, mas dizia-se que alguns clientes pagavam com materiais de cultivo, o que explicava a variedade de recompensas oferecidas após cada missão.
Como Wei Tong ainda precisava avisar outros cultivadores de alto nível, Zuo Xiaoyao dirigiu-se sozinha ao salão do segundo andar. Já acostumada ao trajeto, cruzava de vez em quando com funcionários comuns vestindo o uniforme padrão da Gai Shi.
Dizia-se, segundo Wei Tong, que a ideia dos uniformes partira dele próprio, tendo contratado uma famosa fábrica de moda para produzi-los. As roupas, de qualidade e material superiores, tornaram-se símbolo da empresa. Muitos sonhavam em vestir o uniforme, sem saber que sua principal função era distinguir funcionários comuns dos especiais, como os cultivadores. Naturalmente, os benefícios excelentes também atraíam os melhores profissionais.
Quando alguns funcionários comuns viram Zuo Xiaoyao sair da área das vilas, seus olhos brilharam. Ela parecia mais jovem do que muitos deles, despertando inveja. Sabiam que quem morava ali tinha enorme influência e, se quisesse, podia demitir até gestores com um simples olhar.
Durante o treinamento, todos os novos funcionários eram instruídos a tratar qualquer pessoa vinda das vilas com extremo respeito, mesmo sem saber o motivo. Depois de testemunhar o destino de quem desrespeitava a regra, ninguém mais ousava ignorá-la.
Claro que havia exceções. Por exemplo, ao sair pelo portão, Zuo Xiaoyao presenciou um jovem de vinte e poucos anos, ainda com o orgulho típico de recém-formado, discutindo: “Por que eu deveria ceder o espaço? Aqui é a calçada da empresa, você não pode estacionar aqui, ainda mais sendo nossa Gai Shi!”
Um homem de meia-idade, encostado no carro, respondeu com desdém: “E daí que é a calçada da empresa? Se eu quiser entrar com o carro aqui, ninguém vai reclamar. Você tem coragem? Quero ver…”
“Que movimentação é essa? O que aconteceu?” Zuo Xiaoyao interveio com um sorriso gentil ao notar o pequeno tumulto, que já chamava a atenção de funcionários e transeuntes entre os prédios. Um carro e mais de dez pessoas bloqueavam o caminho. O homem ao volante era Chen Jinyang, cultivador de nível máximo do estágio de Inspiração, um dos que mais frequentavam o salão do segundo andar. Já o conhecia de duas ocasiões, apresentadas por Wei Tong – também era funcionário especial fixo da Gai Shi.
Ao vê-la, Chen Jinyang se recompôs na hora, deixando de lado toda arrogância. Esquecendo imediatamente a irritação da discussão, endireitou o corpo com respeito e sorriu, prestativo: “Ora, se não é a Sênior Zuo! Está de volta? Para onde vai? Precisa de uma carona?”
Ignorando o espanto dos demais com a mudança de atitude de Chen Jinyang, Zuo Xiaoyao manteve o sorriso calmo: “Não precisa. O Chefe me convocou, vou ao segundo andar. Seu carro está bloqueando o caminho. Não só eu, Wei Tong já foi avisar outros, e Li Tian e os demais devem chegar logo.”
Com expressão constrangida, Chen Jinyang sorriu: “Vou tirar o carro agora mesmo, sênior. Vá em frente!”
ps: Agradeço pelo apoio, garota confusa. Espero postar mais um capítulo à noite! (Havia mais um trecho, mas aí passaria das quatro mil palavras, então precisei dividir aqui!)