Capítulo Dez: O Que Se Chama de Laços de Sangue

Cultivando na Vida Moderna Yun Xi Shao 3366 palavras 2026-02-07 12:36:39

Enquanto pensava em que desculpa usar para recusar, o telefone interno tocou de repente. Instintivamente, Zuo Xiaoyao atendeu primeiro.

— Às sete e meia da noite, haverá um banquete no Haiyue. É obrigatório levar acompanhante. Você vai comigo, sairemos juntos depois! — a voz fria do diretor geral, Cheng Luo, veio do outro lado da linha.

— Eu à no... — Ela ainda não havia terminado de dizer que estava ocupada, olhando para o fone que já emitia o tom de desligado. Cheng Luo já havia desligado, deixando claro que, como seu chefe, ele já havia decidido e nem cogitou lhe dar o direito de recusar.

Frustrada, desligou o telefone, pegou o celular, que já havia parado de piscar.

— Olá, Jerry, desculpe, estava atendendo uma ligação. Em que posso ajudar?

— Sem problemas. Está livre hoje à noite? Preciso da sua ajuda com algo!

— A que horas exatamente? Meu chefe acabou de ligar pedindo que eu o acompanhasse em um banquete esta noite.

— Cheng Luo não costuma evitar eventos sociais? Mudou de ideia? É o banquete comemorativo da família Zuo no Haiyue?

— Ele não especificou que tipo de evento é.

— Que pena... cheguei atrasado desta vez. Eu também queria convidá-la para ser minha acompanhante nesse banquete, mas vejo que já tem compromisso.

— Pois é, uma pena mesmo.

— Não tem problema. Só me prometa que, na próxima vez que acontecer algo assim, vai me considerar primeiro. Assim compensamos esta vez, que tal? — sugeriu Jerry, animado.

— Não sei quando será a próxima vez, falamos disso depois. O tempo está corrido, é melhor você procurar sua acompanhante para hoje! — respondeu Zuo Xiaoyao, sorrindo sem o menor pesar.

Ao terminar a ligação e guardar suas coisas, viu Cheng Luo sair da sala, fechando a porta com naturalidade.

— Me espere lá embaixo, vou buscar o carro!

— Está bem! — respondeu ela, levantando-se com um sorriso gentil. Embora não gostasse, sabia que, como assistente de diretoria, acompanhá-lo em compromissos sociais fazia parte de suas funções. No mundo corporativo, havia muitas coisas que não se podia escolher.

Sentada no banco do passageiro, percebeu que Cheng Luo já tinha tudo planejado. Ela, ainda vestindo roupas de trabalho, percebeu que aquele traje não combinava com um banquete. Prestes a perguntar para onde iriam primeiro, ouviu Cheng Luo, que raramente falava, comentar enquanto manobrava o carro:

— Depois do Zhenyan, iremos direto ao Haiyue.

Zhenyan? O nome lhe soou familiar. Zuo Xiaoyao franziu a testa, tentando lembrar, até que se deu conta: era um famoso estúdio de design, o preferido dos produtores de programas de moda, oferecendo desde figurino até maquiagem, tudo de alto padrão!

Pensando no saldo quase irrisório de sua conta bancária, Zuo Xiaoyao rejeitou imediatamente:

— Diretor Cheng, não precisa ir ao Zhenyan. Moro aqui perto, posso ir em casa trocar de roupa. E eu mesma faço minha maquiagem!

— Não se preocupe com dinheiro. Considere que está me ajudando hoje, todas as despesas são por minha conta. Além disso, já estamos fora do expediente, pode me chamar pelo nome. — Percebendo sua preocupação, Cheng Luo sorriu suavemente, com uma expressão rara de gentileza.

— Obrigada, mas não é necessário. Posso cuidar disso sozinha. No próximo cruzamento, vire à esquerda. Moro no condomínio à direita, é bem perto! — Zuo Xiaoyao jamais aceitaria que alguém gastasse dinheiro para arrumá-la. Apesar de ter enfrentado pobreza desde pequena, fora criada pela avó, de uma família tradicional, aprendendo sobre dignidade e autossuficiência. Não abriria mão de seus princípios por nada.

Percebendo a firmeza na voz dela, Cheng Luo sentiu um toque de arrependimento por ter sido precipitado.

Chegando ao prédio, sem convidá-lo para subir, Zuo Xiaoyao pediu que ele esperasse no carro. Prestes a entrar, do lado esquerdo, surgiu de repente uma mulher de meia-idade chorando lamentavelmente:

— Ai, minha pobre e sofrida filha! Mamãe finalmente te encontrou! — soluçava.

Após o choque inicial, Zuo Xiaoyao rapidamente recuperou o controle. Soltou a mão que a agarrava e respondeu friamente:

— A senhora deve estar me confundindo. Com licença, tenho compromisso.

— Confundindo nada! Somos seus pais biológicos. Vai negar? — gritou um homem de meia-idade, surgido ao lado da mulher.

Ao lado deles, uma jovem com feições semelhantes a Zuo Xiaoyao declarou com convicção:

— Você é minha irmã. Papai e mamãe sempre sentiram sua falta. Como pode não reconhecê-los? Você os viu na escola, lembra?

Era hora do rush. Sempre prontos para um espetáculo, os vizinhos logo se aglomeraram ao redor. Bastaram poucas palavras para que várias versões da história surgissem em suas mentes. Cheng Luo, que se colocara discretamente ao lado de Zuo Xiaoyao, disse friamente:

— Xiaoyao, não dê ouvidos a esse tipo de gente. Hoje em dia, os golpistas estão cada vez mais ousados!

— Quem é você para dizer isso? Ela é minha filha, juro por tudo! Se não acredita, fazemos um teste de DNA! Agora que cresceu, acha que pode negar pai, mãe e irmãos?

— Isso mesmo, ai, ai... Xiaoyao, você é minha filha, gerada com tanto sofrimento. Se não me reconhecer, prefiro morrer! — chorava a mulher.

— A que vieram com esse escândalo? — perguntou Zuo Xiaoyao, sem emoção.

— Só queremos você de volta. Não importa o que aconteceu, sempre será nossa filha. Não pode viver sozinha na cidade, somos velhos, queremos aproveitar a vida com os filhos. Sua irmã e seu irmão também estão aqui, devíamos morar juntos, reunir a família! — declarou o homem.

— Seu irmão está entrando na universidade este ano. Vamos para casa conversar. Vamos morar juntos, assim cuido de você. Minha filha, você sofreu tanto esses anos! — completou a mulher, tentando segurar o braço de Zuo Xiaoyao para levá-la escada acima.

— Pelo que sei, Xiaoyao sempre viveu com a avó. Não sei de onde vocês surgiram. Você é Wang Zhaonan, não é? Seus pais se comportam assim, fazendo escândalo na porta dos outros... Não deveria aconselhá-los? — disse Cheng Luo, olhando para a jovem que, desde que chegara, mantinha a cabeça baixa.

— Irmão Cheng... digo, Diretor Cheng, não é bem assim. Ela é minha irmã mesmo. Ficamos anos separados, meus pais sentem muita falta dela, por isso vieram atrás. — Wang Zhaonan explicou nervosa, com os olhos marejados.

— Têm certeza de que foi separação? Pelo que sei, primeiro a abandonaram por dezessete anos, depois a venderam por mais cinco. Ou melhor, venderam a vida inteira dela, não foi? — O coração de Zuo Xiaoyao, calejado pelas dores do passado, já não nutria ilusões de laços familiares. Observando aqueles olhos suplicantes, ela via apenas ganância.

— Como... como você sabe do contrato? — gaguejou o homem, visivelmente abalado, perdendo toda a arrogância.

— Por que não saberia? Vocês me abandonaram numa praia deserta só porque queriam um filho homem. Depois, acusaram minha avó de sequestro, forçando uma senhora idosa a pagar para ter paz. Por que eu não poderia saber? E agora, posso dizer claramente: tenho o direito de acusá-los de tentativa de homicídio, extorsão e tráfico de pessoas! — declarou Zuo Xiaoyao, serena, como se falasse de outra pessoa.

Ao ouvirem isso, os vizinhos ao redor exclamaram incrédulos. Histórias de pais desalmados não eram raras, mas aquele casal atingia um novo patamar de crueldade.

Diante das críticas e olhares de desprezo, a mulher esqueceu o choro, o homem ficou constrangido, e ambos foram puxados pela filha mais velha, fugindo rapidamente pela multidão. Ainda lembraram de pegar a bagagem ao lado do prédio.

Recuperando-se rapidamente do choque ao ouvir Zuo Xiaoyao contar que fora abandonada e vendida pelos pais, Cheng Luo apenas lançou um olhar aos vizinhos dispersando-se.

— Vá descansar. Não precisa ir ao banquete à noite.

Soltando a mão, até então cerrada, Zuo Xiaoyao sorriu como se nada tivesse acontecido.

— Não precisa se preocupar. Espere-me no carro, volto logo. Moro sozinha, não vou convidá-lo para subir.

— Hum... você... — Vendo-a subir, Cheng Luo engoliu as palavras de conforto que quase disse. Ele a conhecia há cinco anos, desde que ela era caloura na universidade e ele, pós-graduando. Uma atenção despretensiosa deixou uma marca profunda em sua memória. Sabia onde ela gostava de pintar, onde vendia seus quadros, que era reservada mas gentil, muito querida entre os colegas. Mas ela nunca soube disso.

ps: Novo capítulo participando do PK. Agradeço o apoio! Se for bem, teremos capítulo extra, ou até três!