Capítulo Nove: Só Posso Contar Comigo Mesmo

Cultivando na Vida Moderna Yun Xi Shao 2278 palavras 2026-02-07 12:36:38

Capítulo Nove – Só se pode contar consigo mesmo

Ao recuperar-se do choque e do desgosto, ouvindo ainda os comentários da multidão ao redor, Luo Kai, com o rosto tomado pela fúria, apontou para Zuo Xiaoyao e exclamou: "Zuo Xiaoyao, você enlouqueceu! Com quem eu tomo café é problema meu, não tem nada a ver com você! Quem te deu o direito..."

Zuo Xiaoyao lançou um olhar frio para Ding Ya, que, com o rosto banhado em lágrimas, tentava limpar o café do rosto e dos cabelos com um lenço, e rebateu furiosa: "Luo Kai, com quem você toma café realmente não é da minha conta. Mas você e essa Ding Ya, no meio do saguão, diante de todos, tumultuaram os bons costumes e macularam a moralidade. Como testemunha, não pude me calar! Eu tinha que denunciar! Todos aqui, julguem vocês: já viram pessoas tão desavergonhadas? Luo Kai faz algo tão repugnante e ainda se acha com razão. Ding Ya, pega no flagra como amante, ainda tem a cara de chorar, como se eu não devesse ter descoberto, como se tivesse sido injustiçada? Sinto muito, sou direta, não suporto gente sem vergonha que não assume o que faz. Faço questão de expô-los à luz do sol para que todos vejam!"

Sem conseguir conter Zuo Xiaoyao, que disparava acusações como rojões, Luo Kai, tomado pelo vexame diante dos olhares irônicos da plateia, puxou a chorosa Ding Ya, tentando fugir dali. Impedido pelo garçom, atirou duas notas de cem na mesa e gritou: "Terminamos! Não quero mais te ver! Olha o tipo de amizade que você tem, sem nenhum decoro!"

A plateia, atenta a cada detalhe, mal acreditou na cena e caiu na gargalhada. Só então Luo Kai se deu conta do que dizia, mas já na porta, acelerou o passo, arrastando Ding Ya para fora, ignorando os gritos de dor dela ao torcer o tornozelo nos saltos altos.

Do lado de fora da cafeteria, Wang Zijia, já refeita do susto, apertou com gratidão as mãos de Zuo Xiaoyao: "Obrigada, Xiaoyao. Eu... eu fiquei completamente atordoada. Não entendo mais o mundo. Por que essas coisas ridículas sempre acontecem comigo?"

"A realidade é assim mesmo", suspirou Zuo Xiaoyao, sentida. "É porque esperamos demais dela, por isso nos decepcionamos tanto. Devíamos ser gratas, pois ela nos fez enxergar cedo a verdade, poupando-nos de maiores perdas e nos alertando a sermos mais cautelosas daqui para frente, para não cometer de novo o erro de confiar na pessoa errada."

As palavras foram de consolo, mas Zuo Xiaoyao também as repetia para si, esforçando-se para jamais esquecer.

Talvez pela energia com que Zuo Xiaoyao agiu, punindo exemplarmente o casal, Wang Zijia, em contraste com o desespero inicial, agora sentia uma satisfação quase reconfortante. Não há nada melhor do que ver alguém que te fere receber o que merece e sair humilhado, mesmo que antes tenha sido ela a traída e abandonada. Daquele momento em diante, poderia erguer o queixo, desprezando-os do fundo do coração, ignorando o fato de que eles agora teriam de suportar o peso dessa vergonha pelo resto da vida.

Por mais comum que seja a traição na sociedade, por mais variadas que sejam as motivações, quase todos adoram tomar o partido da moralidade, condenando em alta voz os protagonistas de escândalos públicos, inclusive aqueles que praticam as mesmas ações. E, graças ao esforço deliberado de Zuo Xiaoyao, aquele casal estava agora "famoso" por seu vexame.

Nos dias seguintes, sempre que Wang Zijia ligava para Zuo Xiaoyao, mencionava que fulano ou sicrano ficara sabendo do ocorrido na cafeteria. Ninguém a consolava com pena de quem tomou um fora; todos a felicitavam pelo desfecho. Isso a satisfazia, e a dor da traição logo se viu ofuscada por esse emaranhado de emoções. Salvo por alguns momentos de melancolia ou comentários mordazes, Wang Zijia recuperou-se rapidamente desta vez, mais ainda do que no passado.

O coração humano é frágil, e após ser ferido repetidas vezes, só há dois destinos possíveis: ou se afunda para sempre na dor até não restar mais forças, ou cresce, tornando-se mais forte, até se tornar praticamente invulnerável.

Sem descuidar do trabalho e do seu próprio caminho de autodesenvolvimento, Zuo Xiaoyao também refletia, em momentos de ócio, sobre os verdadeiros motivos do interesse dos pais de Wang Zijia por ela. Seria mesmo pelo Tesouro das Três Virtudes? Aquilo era o dote que a avó lhe confiara no leito de morte, nunca antes mencionado. E sobre o real propósito desse objeto, mesmo depois de tê-lo absorvido inconscientemente, se não fosse pelo aviso da mulher de vestes púrpuras, Zuo Xiaoyao jamais saberia para que servia, nem como utilizá-lo.

Dois meses depois, ao perceber que mais uma “barreira” em seu corpo havia se aberto, Zuo Xiaoyao teve certeza de ter alcançado o estágio intermediário da Condução do Qi, com o fluxo de energia em seu dantian duplicado.

Agora já podia lançar um feitiço concedido pela misteriosa prática que cultivava — a Técnica do Dardo de Água. Um feitiço capaz de ferir gravemente alguém sem deixar vestígios. Embora Zuo Xiaoyao não imaginasse ocasião para usá-lo, a novidade a fascinava, e sempre que podia, o praticava até esgotar toda a energia do dantian, retomando o cultivo logo em seguida. Assim, não apenas dominou rapidamente a técnica, como também percebeu que, depois de consumir toda a energia, ao retornar ao treino, o fluxo aumentava levemente, acelerando seu progresso.

Quanto mais avançava, mais se entusiasmava com o cultivo. O episódio de Wang Zijia só reforçou uma verdade: se buscamos apoio nos outros, eles podem falhar; se nos amparamos no mundo, ele pode nos faltar. No fim, só podemos realmente contar conosco.

Ao concluir o expediente do dia, na hora exata de ir embora, Zuo Xiaoyao preparava-se para guardar as coisas quando o telefone tocou. Ao ver o número piscando na tela, sentiu uma pontada de dor de cabeça — era novamente seu antigo chefe, Jerry.

Quando soube que a avó estava desenganada, Zuo Xiaoyao, apesar do sofrimento, insistiu em pedir demissão para passar mais tempo com ela. Mesmo ouvindo Jerry dizer que podia voltar à Xuanneng a qualquer momento, Zuo Xiaoyao sentiu-se constrangida demais para aceitar, optando por outro emprego.

Depois que ele soube que ela havia sido contratada pela Jinhui e já havia assinado contrato, Jerry passou a convidá-la de vez em quando para almoçar, sob pretexto de reencontro entre antigos colegas. Como as duas empresas não ficavam longe, e ela sentia certo remorso por ter recusado a gentileza anterior, aceitou nos primeiros convites, sempre para tratar de assuntos profissionais, já que Xuanneng e Jinhui tinham projetos em comum — o que tornava o encontro natural e descomplicado.

Porém, com o tempo, Jerry começou a tratar o relacionamento como amizade, não mais mera coleguismo, e Zuo Xiaoyao, que não era afeita a socializações, nem gostava de falar sobre sua rotina monótona, passou a sentir-se cada vez mais desconfortável com esses convites. Apesar de ter recusado alguns, não achava educado recusar sempre. Diante do telefone ainda tocando, não pôde deixar de suspirar, resignada.