Capítulo Dois: Duas Luas
Após subir para o nível 3, não demorou muito para que a visão de Sistem começasse a escurecer. O sol já havia se posto, e em breve a noite tomaria conta do céu. Com a chegada da escuridão e uma brisa levemente fria, o som dos insetos na floresta aumentou, ora com o canto dos grilos, ora com o zumbido de cigarras.
Enquanto mastigava folhas tenras, Sistem percebeu que, ao longe, a relva se movia de forma irregular; porém, com sua visão composta de inseto, era difícil distinguir o que, de fato, estava ali. Logo, um vulto prateado surgiu entre a vegetação e veio em sua direção. À medida que se aproximava, a imagem tornava-se mais nítida: um rato de pelagem prateada atravessou a base da planta onde Sistem estava e começou a roer o caule de uma planta desconhecida ali perto.
Diferente do que acontece durante o dia, à noite muitos insetos e pequenos animais tornam-se mais ativos. O rato prateado sumiu entre as moitas após devorar o caule da planta. Logo acima, a poucos centímetros de distância, Sistem notou uma aranha negra, de três ou quatro centímetros, lançando um fio de seda ao vento. Era o início da construção de sua teia. Assim que a seda se fixasse em algum lugar, ela começaria a tecer a teia completa a partir daquele ponto.
A noite na floresta era, sem dúvida, repleta de perigos. Sistem desistiu de saltar entre as plantas em busca de folhas tenras durante o breu. Sua visão já limitada piorava ainda mais à noite, enquanto predadores se multiplicavam. Um passo em falso e ele cairia em alguma armadilha mortal.
Como um inseto herbívoro, esconder-se e passar a noite com fome, embora penoso, aumentava consideravelmente suas chances de sobreviver. Dotado de inteligência humana, Sistem sabia que não podia agir impulsivamente como um gafanhoto comum. Afinal, a força dos gafanhotos reside em sua capacidade de reprodução, não na habilidade de sobrevivência de cada indivíduo.
Com esforço, usou suas mandíbulas não muito afiadas para cortar três pequenas folhas tenras, decidindo então procurar abrigo sob uma folha seca no solo durante a noite. Essas três folhas seriam um lanche para amenizar a fome, caso ela se tornasse insuportável.
O pequeno gafanhoto desceu cautelosamente pelos galhos até o caule da planta, usando os ganchos em suas patas para alcançar o chão com segurança...
...
Galhos, folhas secas esparsas e um solo úmido com cheiro de decomposição: o ambiente era complexo para um gafanhoto do tamanho de um grão de feijão. Das três folhas tenras do tamanho de uma unha que Sistem havia arrancado, só conseguiu encontrar duas; a outra, por mais que procurasse, teve de deixar para trás.
Após carregar as duas folhas até debaixo de uma folha seca e úmida, Sistem olhou instintivamente para o céu noturno. Sua cabeça de inseto esboçou uma expressão confusa, quase humana.
A visão dos gafanhotos é ruim, não conseguem distinguir objetos ao longe; ele não sabia quantas estrelas brilhavam no céu, mas conseguia ver dois luas, uma branca e outra amarelada, muito distantes uma da outra.
Aqui não era mais o mundo de antes...
Sistem não contemplou as duas luas por muito tempo. Já transformado em um gafanhoto e sem memórias de sua vida anterior, pouco importava se estava ou não em seu antigo mundo. Logo se enfiou sob a folha seca e começou a descansar.
O corpo de um inseto é peculiar. Apesar de não lembrar seu nome ou passado, algumas noções básicas permaneciam claras em sua mente. Para um humano, é difícil permanecer completamente imóvel; ao menor descuido, o corpo se move involuntariamente. Já o corpo do gafanhoto era diferente.
Debaixo da folha seca, Sistem manteve-se imóvel sem esforço, sentindo-se como um galho seco, completamente parado. Em pouco tempo, sua respiração abdominal diminuiu em frequência e intensidade, passando de uma vez a cada um ou dois segundos para uma a cada cinco ou seis, até chegar a respirar apenas a cada dezenas de segundos.
Era um estado peculiar de hibernação. Ao entrar nesse modo, a fome diminuía rapidamente, o corpo permanecia quase inerte, consumindo pouquíssima energia para manter as funções vitais. Sistem calculava que, assim, poderia sobreviver dois ou três dias, talvez até mais, mesmo sem comida ou água.
...
Plim—
Ao som de uma gota de orvalho caindo, Sistem despertou completamente do estado de semi-sono. Não demorou para que, após entrar em hibernação na noite anterior, seu espírito também mergulhasse numa espécie de dormência. Agora, ao acordar, sentia-se renovado; parecia que até os insetos precisavam de um sono adequado.
A manhã estava fria. Sistem moveu seu corpo rígido, e sua respiração voltou rapidamente ao ritmo de uma vez por segundo, acompanhada por uma fome intensa. Após beber algumas gotas de orvalho na borda da folha seca, começou a mastigar as duas folhas guardadas na noite anterior para saciar a fome.
Depois de uma noite inteira, o sabor das folhas havia piorado um pouco. Observando as informações que mudavam na [Técnica de Geração de Informação Pessoal], Sistem confirmou totalmente a regra de crescimento de nível.
Até então, só havia um método para subir de nível: alimentar-se.
Embora qualquer folha aliviasse a fome, o efeito sobre seu crescimento variava muito. O critério era simples: quanto mais saborosa e fresca, melhor para o avanço de nível. Mesmo folhas da mesma espécie podiam ter efeitos distintos, dependendo do frescor.
"Portanto, para crescer mais nesse corpo em menos tempo, é preciso buscar folhas mais frescas e saborosas."
"Mas, para encontrar folhas tenras, será necessário procurar mais plantas, e isso é muito mais perigoso."
"Na condição em que estou, não há necessidade de correr riscos; devo garantir minha segurança, como fiz ontem, ao buscar alimento."
Com o plano do dia decidido, Sistem concentrou-se em comer as folhas não tão frescas. Devido ao aumento de nível e ao corpo maior, logo devorou as duas folhas, comendo duas vezes mais rápido do que no nível 2. Suas mandíbulas estavam mais robustas; decidiu tentar comer folhas um pouco maiores naquele dia. Se conseguisse, não precisaria perder tanto tempo buscando folhas e brotos tenros.
...
Saindo debaixo da folha seca, Sistem logo notou alguns visitantes indesejados por perto: cinco ou seis formigas negras, cada uma com cerca de um centímetro. Após a noite, a vida na floresta mudara, dando lugar a criaturas diurnas, como aquelas formigas.
Elas estavam muito próximas, a menos de trinta centímetros dele, com as antenas se movendo em busca de alimento. As formigas não eram rápidas e não notaram o gafanhoto que deixava a folha seca. Sistem afastou-se facilmente do "esquadrão de busca" com alguns saltos.
Ao ver as formigas, Sistem não sentiu medo, e sua [Intuição de Inseto] não lhe alertou sobre perigo. Após eclodirem dos ovos, gafanhotos não costumam ser presas de formigas, que preferem caçar grandes lagartas de borboleta ou mariposa, mas jamais seriam capazes de capturar um gafanhoto ágil.
As verdadeiras ameaças eram predadores como o louva-a-deus, que atacam de emboscada, ou o risco de ficar preso numa teia de aranha.
Ou então, a criatura gigantesca à sua frente—
Coberta por uma pele castanha com padrões irregulares e salientes, o abdômen claro pulsando, olhos arredondados que piscavam de tempos em tempos e uma boca enorme e ameaçadora.
Por fugir do "esquadrão de busca" das formigas, Sistem havia saltado três vezes seguidas e parado justamente diante de um sapo camuflado entre as folhas secas.
O sapo, ou cururu, era um dos mais famosos caçadores de insetos conhecidos por Sistem.
E, agora, ele estava a menos de dez centímetros daquele monstro.
Sistem conseguia até sentir o hálito úmido e fétido que saía da boca do sapo...