Capítulo Vinte e Oito: A Travessia dos Gafanhotos (Parte Dois)
Depois de mais de dez dias, a aparência da Rainha dos Gafanhotos não havia mudado em nada; continuava com aquele tom amarelado ressequido e as antenas tão longas quanto antes.
— É... um grilo? — indagou ela, fixando o olhar no alimento que Sistemo mastigava, transmitindo sua peculiar onda espiritual.
Com o passar dos dias, Sistemo percebeu que a Rainha dos Gafanhotos havia se tornado muito mais habilidosa no uso da linguagem. Embora ainda não tivesse alcançado o mesmo nível que ele, Sistemo já podia escutar diversas nuances em sua fala. Parecia claro que ela vinha praticando incessantemente a transmissão dessas mensagens espirituais, pois o progresso era notável.
— Sim, quer provar um pouco? — Sistemo interrompeu a refeição e, como se fossem velhos amigos, ofereceu naturalmente um pedaço de comida à Rainha.
— Não, não gosto de comer... carne, esse tipo de comida — recusou ela, transmitindo sua mensagem ao mesmo tempo em que cortava uma folha próxima com suas mandíbulas e a mastigava.
— Nesses dias, aquele aroma especial, foi você quem emitiu? — Sistemo não via necessidade de formalidades na conversa com a Rainha e questionou sem rodeios.
— Sim, fui... eu — respondeu ela, agitando levemente as antenas enquanto continuava a transmitir: — Eu sabia que... você não viria.
Sistemo fitou a Rainha dos Gafanhotos por um instante antes de responder:
— Você sabe que eu não iria.
A Rainha tocou suavemente as antenas de Sistemo com as suas, transmitindo novamente sua onda espiritual delicada e singular:
— Eu sabia... que não viria, por isso, voltei... para te procurar.
— Senti sua falta...
A mensagem espiritual da Rainha estava repleta de saudade, e Sistemo não sabia ao certo como responder a tal sentimento. Sem alternativa, recorreu à astúcia humana para mudar de assunto:
— Pretende continuar explorando o mundo? Como aquelas imagens gravadas no sangue?
— Sim, eu vou, junto com eles — respondeu a Rainha, olhando para o céu acima.
— Eles? Muitos gafanhotos irão com você?
— Hm...
Ela continuou olhando para o alto, fixando-se numa nuvem entre as frestas da floresta, e perguntou a Sistemo:
— Você sabe o que... é aquilo?
Os olhos compostos dos insetos não permitiam ver muito longe, mas Sistemo compreendeu de imediato do que se tratava ao olhar para a mancha branca no céu.
— Aquilo é uma nuvem, uma forma da água — explicou.
A Rainha demonstrou um certo pesar; encarando o céu, disse:
— Eu... não consigo voar tão alto, mas posso voar... mais longe.
A Rainha baixou a cabeça e continuou:
— Eu... tenho um nome agora. Sabe o que... é um nome?
Sistemo demonstrou surpresa:
— Nome? Você escolheu um para si? O meu deve ser Sistemo.
A Rainha respondeu:
— Sis... temo, Kun, meu nome foi... dado por Sombra.
— Sombra? Quem é esse? — indagou Sistemo.
— Um inseto.
...
Pouco depois do diálogo, ao som peculiar das asas batendo, um gafanhoto verde de cerca de cinco centímetros pousou próximo a Sistemo e à Rainha. Não demorou para que outro chegasse, depois dois, três, dezenas, centenas...
Cada vez mais gafanhotos se aglomeravam ao redor deles. Após alguns minutos, milhares de gafanhotos de todos os tipos já estavam reunidos por perto, e o número continuava a crescer.
A floresta silenciosa tornou-se subitamente barulhenta. Gafanhotos batiam as asas e saltavam, alguns rosnavam folhas ao redor, outros subiam às copas para tomar sol. Por causa dessa invasão, uma multidão de formigas emergiu dos formigueiros próximos e partiu para o ataque, tentando capturar e devorar os invasores que perturbavam sua paz. No entanto, gafanhotos nunca foram presas fáceis para formigas; adultos, então, saltavam com leveza, frustrando qualquer investida.
...
Incontáveis gafanhotos se reuniam ao redor de Sistemo e da Rainha; ele já não conseguia calcular quantos havia, mas certamente eram dezenas de milhares. Em torno da Rainha, havia um espaço vazio de quase meio metro de raio; além de Sistemo, nenhum outro gafanhoto ousava pousar ali. Ele deduziu que aquilo devia ser uma manifestação do status social dos gafanhotos: os que passavam pela terceira metamorfose tornavam-se naturalmente líderes do grupo.
O enxame crescia ainda mais. A massa de gafanhotos reunidos chegava a bloquear o sol, tornando a floresta mais escura. Ao contemplar aquela cena, Sistemo recordou uma calamidade do seu mundo anterior: a praga de gafanhotos. Quando passavam, não restava uma folha verde.
Sistemo nunca testemunhou uma nuvem de gafanhotos em sua vida passada, mas vira imagens em documentários e ficara profundamente impressionado. Mesmo em vídeo, a visão era impactante: os insetos devoravam tudo o que era verde enquanto voavam.
O enxame diante dele era menor, mas em essência muito semelhante àquela catástrofe. As plantas da floresta eram devoradas rapidamente a olho nu.
A maioria dos gafanhotos ali era pequena, entre três e oito centímetros, e Sistemo reconheceu muitos de sua própria espécie, os gafanhotos de cauda azul.
A chegada daquela multidão não incomodou Sistemo; pelo contrário, sentiu-se reconfortado, tomado por uma sensação de pertencimento. Os gafanhotos celebravam juntos, emanando um odor peculiar que o deixava eufórico. Ele chegou a sentir o desejo de voar com eles pelos céus.
— Tem certeza... que não vai conosco? — A Rainha, percebendo a excitação de Sistemo, voltou a transmitir sua mensagem espiritual.
Após breve hesitação, ele recusou novamente:
— Não, não vou.
Da mensagem da Rainha, Sistemo captou um longo suspiro...
...
A celebração dos gafanhotos continuava. Saltitavam, exalando um aroma de alegria, e muitos começavam a buscar parceiros e acasalar. Por ser robusto, Sistemo atraiu várias fêmeas, mas, mantendo-se perto da Rainha, nenhuma delas o incomodava.
Poucos optaram pelo acasalamento; a maioria preferia voar desordenadamente, brincando entre si.
Algumas aves apareceram oportunamente, caçando gafanhotos para se alimentar, mas a quantidade era tamanha que, saciadas, logo foram embora.
Ao meio-dia, o número de gafanhotos reunidos já ultrapassava os milhões. O enxame não aumentava mais, e a festa atingiu o auge.
A Rainha, como centro de tudo, novamente emitiu uma onda especial, e Sistemo sentiu o sangue quase ferver.
Vuuu—
Vuuu—
Milhões de gafanhotos saltaram juntos, abrindo as asas e, num piscar de olhos, ocultaram o sol do meio-dia, mergulhando a floresta na escuridão.
Inúmeros gafanhotos partiram em direção a um mesmo destino.
A Rainha olhou longamente para Sistemo e, por fim, tocou suas antenas nas dele antes de abrir as asas e seguir o fluxo do enxame.
Sistemo também abriu as asas, acompanhando-a.
— Vai... comigo? — transmitiu ela, carregando em sua mensagem toda a esperança que sentia.
— Não, só quero me despedir. Depois que você partir, não sei se ainda voltaremos a nos ver...