Capítulo Trinta e Oito: O Rei e o Cavaleiro (Parte Dois)

A Lei do Enxame Nossa pequena adaga 3625 palavras 2026-02-08 06:38:33

O Sistema jamais imaginou que, ao utilizar mentiras e desconfiança, obteria, do lado daquela soldado-formiga tola, a mais pura lealdade. Mesmo ouvindo o Sistema afirmar que não era a rainha, a tola atacou o rato sem hesitar. Observando o corpo mutilado da formiga-soldado, a cabeça partida e os membros quebrados de onde ainda jorrava sangue, o coração do Sistema era tocado repetidas vezes.

Por que você faz isso?

O Sistema não sabia por quê, mas mais uma vez transmitiu uma mensagem mental à soldado-formiga: “Eu não sou a rainha, sou um gafanhoto.”

“...”

A soldado não respondeu, manteve-se em silêncio. Escancarando as mandíbulas, continuava imóvel a guardar o Sistema. No entanto, a única antena que restava em sua cabeça balançou suavemente — sinal de que recebeu a mensagem.

“Eu sou mesmo um gafanhoto, não sou a rainha.”

O Sistema continuou a transmitir a mensagem.

“Não, você é a rain... nha...”

A soldado finalmente respondeu, sua mensagem mental cheia de convicção, quase como se se recusasse a admitir que o Sistema não fosse a rainha.

“...Eu não sou.”

Após um longo suspiro, o Sistema explicou novamente, sem saber ao certo por que insistia em esclarecer tudo à tola. Mesmo sabendo que, ao entender, ela poderia se voltar contra ele, ainda assim prosseguiu.

“Você é... rainha.”

A soldado parecia não querer aceitar a verdade. Porém, no instante seguinte, ela transmitiu uma resposta além das expectativas do Sistema.

Parecia que a soldado havia compreendido algo. Enviou-lhe uma mensagem: “Você é, rain... nha. Não, você é, rei... nha.”

O Sistema ficou atônito. Lembrou-se de quando, não muito tempo após conhecer a soldado, sentindo-se só, contara muitas coisas a ela, sem se importar se entenderia ou não. Talvez fosse ali que ela aprendera a palavra “rainha-rei”.

“Por que você acha que sou a rainha-rei?”

O Sistema continuou a perguntar.

Desta vez, a soldado não respondeu com palavras, mas utilizou a Conexão Mental para lhe transmitir algumas imagens.

Imagens do Sistema dando-lhe a pedra transparente; conversas triviais através da Conexão Mental; o Sistema ordenando que comesse muita comida, livrando-a da fome; o Sistema acariciando-lhe a cabeça com as patas... Imagens triviais para o Sistema, mas que, juntas, revelavam uma gratidão e emoção extraordinárias da parte da soldado.

“É por isso que você me considera uma rainha-rei?” O Sistema perguntou novamente.

“Sim.”

A resposta foi afirmativa. O Sistema sabia que, se pudesse mexer o corpo, certamente estaria sorrindo.

“Que absurdo, eu sou macho, como poderia ser chamado de rainha-rei?” O Sistema transmitiu a mensagem com um tom muito leve.

A soldado pareceu não compreender. Tentou girar o corpo com a pata restante, mostrando um olhar confuso.

O Sistema olhou para a soldado e, em seguida, para as dezenas de larvas de formiga ao redor. Subitamente, compreendeu — tanto para a soldado quanto para aquelas inocentes larvas, mesmo sem se passar por rainha, poderia conquistar sua confiança.

Não precisava jamais fingir ser a rainha.

O Sistema disse à soldado: “Não me chame de rainha-rei, é um título feminino. Chame-me de rei. Enquanto eu estiver aqui, serei o seu rei.”

“Rei?”

A soldado transmitiu uma mensagem de dúvida, sem entender completamente o significado do termo.

“Rei é aquele que, por sua virtude, sabedoria e habilidade, é elevado ao posto de maior governante de uma região. Tal pessoa é chamada de rei.”

O Sistema recordou a explicação do conceito de rei de sua vida anterior e, sem saber se a soldado entenderia, transmitiu-lhe tudo de uma vez.

Ela claramente não compreendeu. Depois de ponderar por muito tempo, enviou uma nova mensagem: “Você é rei, então, eu, o que sou?”

“Você, você é uma soldado-formiga... Não, se eu sou o rei, chamá-la assim já não é adequado. Então você...”

O Sistema mergulhou em reflexão e, de repente, lembrou-se de uma profissão — cavaleiro.

Os cavaleiros do passado tinham oito grandes códigos, e a soldado parecia possuir quase todos eles.

Humildade!

A soldado jamais foi arrogante. Mesmo tendo autoridade sobre as operárias, jamais as tratou com maldade.

Sacrifício!

Você teria coragem de se sacrificar pelo bem maior? Para muitas espécies inteligentes, isso seria difícil, mas para a soldado, sacrificar-se era trivial.

Coragem!

Sem dúvida, covardes não merecem a honra de ser cavaleiros. Sem coragem, ninguém passa no teste.

A soldado nasceu corajosa e combativa.

Fé!

Se cavaleiros humanos depositam sua fé em religião e reis, as formigas creem em sua rainha, e a soldado crê nele — o Sistema.

Honestidade!

Seja onde for, honestidade é uma virtude. A soldado jamais mentiu.

Justiça!

Justiça imparcial, respeito às leis. As formigas já nascem com seu próprio código, e a soldado não é diferente.

...

A soldado possuía diretamente seis dos códigos dos cavaleiros.

O Sistema disse: “Se sou o rei, então você é o cavaleiro que me guarda!”

“Cava... leiro?”

“Sim. Cavaleiro.”

O Sistema respondeu com convicção, transmitindo à soldado as imagens de seus devaneios.

Nas imagens, o cavaleiro treinava exaustivamente suas técnicas com a espada, cortando estacas sem parar.

Vestido de armadura, o cavaleiro ajoelhava-se diante do rei e prestava seu juramento. A cena mudava: o cavaleiro investia com seu corcel contra o inimigo, lutando bravamente; depois, o devaneio do Sistema o levava para um mundo de fantasia, com o cavaleiro montando num dragão rubro, voando pelo céu e atacando um exército de mortos-vivos...

“Isso é... ser cavaleiro?”

“Sim.”

“Cavaleiro é mais forte que o rato.”

“Sim, muito mais...” O Sistema concordou, completando: “Tola, vou lhe dar um nome.”

“...Nome?”

“Assim como a chamei de Tola, vou lhe dar um novo nome. Sava, talvez? Não, soldado-formiga é fêmea, então um nome feminino é melhor. Seu nome será Sava.”

“Eu, Sa... va.”

“Você, Sava.”

O Sistema transmitiu a mensagem, confirmando-lhe o nome.

E naquele momento, o sangue fervente do Sistema esfriou repentinamente — sua terceira metamorfose finalmente começava...

...

Sava, agora com apenas a pata dianteira esquerda, ficou muito tempo olhando para o Sistema. Percebeu que seu rei não respondia, como se tivesse adormecido.

As mensagens mentais que recebera ainda eram difíceis de compreender, mas a lembrança das imagens estava profundamente gravada em sua mente. Especialmente aquela em que o cavaleiro, ajoelhado, jurava lealdade ao rei — Sava gostou muito e também queria fazer aquele juramento ao Sistema.

Ela tentou imitar uma genuflexão humana em sinal de lealdade, mas, com quase todas as patas perdidas, era impossível executar tal movimento.

Utilizando a única pata restante, Sava tentou fincar o ferrão do abdômen no solo, assim conseguiria simular a postura de genuflexão. Depois de centenas de tentativas e dezenas de quedas, ainda assim não conseguiu.

Por fim, restou-lhe apenas deitar-se diante do Sistema, tentando jurar lealdade da maneira que podia, pressionando de forma cômica a pata restante sobre a couraça do peito.

“Eu, Sava, juro, leal... dade ao rei, prometo fidel... idade, nunca deixarei seu lado.”

Após o juramento, Sava usou sua única pata dianteira e o abdômen flexível para arrastar-se em direção à saída da caverna.

A carapaça de sua cabeça estava rachada, várias patas quebradas pelo ataque do rato, e muitos ferimentos sangravam, deixando seu corpo fraco.

Mas Sava sentia-se cheia de força.

Ela era a cavaleira do rei. Precisava protegê-lo.

Três horas depois.

Com o corpo mutilado, Sava rastejou até a saída da caverna, após cair e rolar inúmeras vezes.

Pouco depois, várias formigas operárias negras e castanhas se aproximaram de Sava.

Na sociedade das formigas, uma inválida como ela só tinha um destino: seria morta e seu corpo reciclado.

Sava, com seu corpo aleijado, iniciou ali sua primeira batalha como cavaleira do Sistema!

...

Horas se passaram.

Nas imediações do abrigo provisório do Sistema, dezenas de operárias patrulhavam ativamente, protegendo o local.

Entre elas, havia uma soldado-formiga peculiar: das seis patas, restava apenas uma, e era transportada por quatro operárias.

O corpo da soldado exibia várias feridas recentes, e, de tão enfraquecida, ela parecia adormecida.

Mesmo assim, sua cabeça permanecia erguida, orgulhosa...

...

Adormecida, Sava teve um sonho — seu primeiro sonho.

No sonho, ela cavalgava uma lagarta e derrotava com facilidade o rato que ofendera o rei.

Com o corpo intacto, postura digna, prestava seu juramento de cavaleira ao rei, que lhe dava uma pedra vermelha como recompensa.

Ela ainda sentiu as patas do rei afagando-lhe a cabeça...