Capítulo Vinte e Nove – O Fim

A Lei do Enxame Nossa pequena adaga 3858 palavras 2026-02-08 06:37:44

A corrente formada pelas nuvens de gafanhotos se assemelhava a uma linhagem sanguínea em movimento, voando em bandos sobre a floresta. Talvez ainda cruzassem rios e lagos, talvez ultrapassassem montanhas e vales, ou até mesmo alcançassem os altiplanos cobertos de neve. Mas nada disso tinha mais importância…

Após seguir o enxame por cerca de dez minutos, Sistemo foi diminuindo a velocidade até parar por completo. O caminho que precisava trilhar era, afinal, diferente do de seus semelhantes. Observou de longe a silhueta da rainha até que esta desapareceu no horizonte, então voltou-se para a floresta que tão bem conhecia.

“Como os gafanhotos devastaram as plantas ao redor, terei que procurar um novo lugar para buscar alimento”, pensou. “É uma pena ter que abandonar o depósito onde guardava comida.” “Mas não faz mal, posso encontrar outro semelhante. Será que a viagem da rainha será como ela esperava? Espero que tudo corra bem para ela...”

Afastando esses pensamentos um tanto melancólicos, Sistemo sacudiu a cabeça e desceu do ar para o interior da floresta. Como de costume, ativou sua habilidade de leitura de informações para vasculhar os arredores. Logo percebeu que, no chão, centenas de formigas devoravam o cadáver de um rato. Sistemo saltou até lá; era a primeira vez, desde a tempestade, que via um rato.

O animal parecia ainda fresco, certamente morto há pouco tempo, provavelmente um sobrevivente da tempestade. Sistemo pensou em roubar um pouco da carne das formigas, mas, nesse instante, uma onda de energia serena e pacífica veio de longe, exatamente da direção para onde o enxame havia seguido.

Sentindo aquela aura harmoniosa, tão próxima à essência da natureza, Sistemo recordou-se do velho druida. No mesmo momento em que essa energia atravessou a floresta, o incessante canto das cigarras cessou abruptamente. Não muito longe, uma libélula azul, pousada sobre uma folha, ergueu voo rumo àquela energia. No solo, centenas de formigas avermelhadas se agitavam ao redor do rato, divididas entre buscar a fonte daquela paz ou não abandonar o alimento conquistado.

Aquela energia parecia exercer um fascínio irresistível sobre os insetos, muito mais forte do que o produzido pela rainha dos gafanhotos. “Será o velho druida? O que pretende fazer?”

Saltando até a ponta de um galho, Sistemo mirou ao longe e enxergou, na floresta, um halo de luz verde de aspecto extraordinário. “O que será aquilo?” Hesitou, mas abriu as asas e voou em direção ao brilho esmeralda.

Aproximando-se mais e mais, em poucos minutos o enxame, que já tinha desaparecido de vista, voltou a se tornar visível. Incontáveis gafanhotos, além de libélulas, cigarras e borboletas, voavam em torno de uma esfera gigante de luz verde, com cerca de dez metros de diâmetro. Vórtices de gafanhotos rodopiavam freneticamente ao redor do orbe, irradiando uma excitação indescritível.

O frenesi dos gafanhotos era ainda mais intenso do que ao meio-dia. Eles orbitavam a esfera, sorvendo sua energia, tornando-se cada vez mais excitados e rápidos. Tal poder também atraía Sistemo, que se perguntava se, ao absorver aquela energia, também se tornaria mais ágil como eles.

Preparava-se para experimentar aquele poder verde, mas, ao abrir as asas e voar na direção da luz, parou de repente. Notou, sob a esfera, a figura de um homem.

Era o velho druida, com uma expressão fria e impassível, tão diferente do sorriso gentil que exibira ao salvar aquela ave. Por um momento, Sistemo ficou atônito.

Subitamente, compreendeu. Entendeu, ao rever o druida pela segunda vez, o que lhe causara estranheza ao vê-lo ajudar a ave ferida: sob ela, havia duas formigas igualmente machucadas, ignoradas pelo druida, que só se preocupou com o pássaro.

As pessoas gostam de ter gatos e cães como animais de estimação, e abominam quem os maltrata, mas esmagam moscas e mosquitos sem hesitar. Ao se colocar no lugar do druida, Sistemo percebeu sua lógica: para ele, os gafanhotos não eram criaturas dignas da natureza, mas pragas devoradoras e destruidoras.

Se a essência e o dever do druida são proteger a harmonia natural, então seu propósito estava claro. Aquela esfera esverdeada, tão aromática quanto o perfume das ervas do slime, era uma armadilha!

“Mas eles só queriam explorar este vasto mundo!” Na visão de Sistemo, alguns gafanhotos franzinos começaram a despencar do céu, sem forças, imóveis como flocos de neve. E os demais, inconscientes do perigo, continuavam em seu êxtase…

Sentimentos de revolta, desolação, raiva e outros mais inundaram o coração de Sistemo. Passou a olhar o druida de outra forma.

A habilidade de leitura foi ativada. Um halo azul brilhou em seus olhos compostos enquanto buscava a rainha dos gafanhotos — se alguém ainda podia impedir aquele massacre, era ela.

No instante em que procurava pela rainha, uma figura veloz o agarrou firmemente com as patas. Antes que Sistemo a encontrasse, foi a rainha que o achou e segurou.

A rainha era incrivelmente rápida; mesmo carregando Sistemo, voava duas ou três vezes mais rápido do que ele em seu auge. Com incrível velocidade, fugiu com ele para longe da esfera verde.

“Não… se aproxime… aquela luz é perigosa…” A mensagem psíquica da rainha chegou a Sistemo, repleta de preocupação.

“Perigo? Você está…”

A rainha não respondeu, apenas o segurava e voava. Durante a fuga, Sistemo sentiu o corpo dela estremecer em espasmos cada vez mais frequentes — ela, como os demais que caíam do céu, havia caído na armadilha do druida.

Sistemo tentou se soltar das patas da rainha, mas era impossível. E assim, à medida que os espasmos aumentavam, a velocidade da rainha diminuiu… até que não pôde mais voar, e ambos despencaram do céu.

Mesmo caída, a rainha não soltou Sistemo. Novamente ele tentou se libertar, mas sentiu então uma força estranha fluir do corpo dela para o seu. Uma sensação de prazer eletrizante, semelhante àquela quando elevava de nível, mas ao mesmo tempo diferente, tomou conta de seu corpo. Era uma energia misteriosa, que atuava em seu espírito.

Imagens e cenas começaram a surgir em sua mente.

As visões vinham dos olhos de um pequeno gafanhoto amarelo-ocre. Diferente de Sistemo, sua visão era muito mais aguçada, capaz de perceber até as sutilezas das nuvens no céu. Desde a fuga das mandíbulas de uma formiga logo após nascer, até o crescimento ao se alimentar de brotos, a trajetória daquele inseto lembrou Sistemo de seus próprios dias de cautela ao despertar para a vida.

A pequena gafanhota frequentemente observava as nuvens, gostava de subir até o topo das árvores para olhar ao redor, mesmo correndo risco de ser atacada por pássaros… As cenas se encadearam rapidamente; em poucos instantes, Sistemo assistiu a meses da vida daquela gafanhota.

No final das imagens, viu a si mesmo: um gafanhoto de cauda azul, sempre pensativo, balançando as antenas. Conseguiu sentir, através daquelas lembranças, o que a rainha sentia por ele…

Quando as imagens cessaram, as patas da rainha finalmente relaxaram seu aperto. Sem perceber, a barra de experiência de Sistemo atingira o ápice do nível 10, e ele recebeu uma nova habilidade especial: Transmissão Mental, e sua derivação, Conexão Mental.

Transmissão Mental (6/22): dom especial concedido por Cun a Sistemo. Permite a comunicação com todos os seres e a transferência parcial de poderes especiais.

Conexão Mental (6/11): derivada da Transmissão Mental. Permite conectar a mente ao outro, concedendo ao interlocutor a capacidade temporária de comunicação.

O corpo da rainha tremia levemente, suas patas já não se moviam, e só uma antena longa ainda se voltava para Sistemo, embora não o alcançasse. Ele se aproximou e tocou sua antena à da rainha, pois sabia que era isso que ela queria.

Usando sua nova habilidade, Sistemo religou sua mente à dela.

“…Não consegui ver… aquele mundo vasto…”

Os olhos dourados da rainha estavam opacos. Ela fitava as nuvens com um suspiro suave, depois voltou o olhar apagado para Sistemo.

“Você pode… me ajudar em uma coisa?”

“Posso. Se estiver ao meu alcance, farei.”

“Eu sei que… gosta de carne, então, me coma… e me leve para ver… para ver…”

Com uma brisa suave, a antena da rainha tombou, e seu corpo ficou completamente imóvel.

“Você…”

Sistemo tentou enviar uma mensagem pela Conexão Mental, mas não havia mais ninguém do outro lado. Seu corpo começou a tremer inexplicavelmente, e emoções desconhecidas brotaram em seu peito.

Esforçou-se para conter os tremores e, cumprindo o último desejo da rainha, pousou lentamente as mandíbulas sobre o corpo dela, abriu, fechou, abriu novamente… repetidas vezes.

Queria cravar as mandíbulas, mas percebeu que não conseguia. Por fim, Sistemo as fez descer — mas, ao invés de devorar, começou a cavar a terra com as mandíbulas e patas, escavando sem parar.

Queria enterrar o corpo da rainha…

……………

ps: Este capítulo termina aqui. Veja também o primeiro extra relacionado à obra — O Pingente de Cristal de Sistemo.