Capítulo 070: Os Novos Humanos
Capítulo 070 – O Novo Ser Humano
Kato, no fim das contas, não conseguiu impedir Karin.
Viu Karin desaparecer pela porta, e, sem forças, ajoelhou-se no chão, completamente perdido em pensamentos.
— A escolha dela não pode ser considerada errada — murmurou Fischer, o homem de rosto marcado por uma cicatriz, tragando seu charuto. — Afinal, se não fosse por nosso ódio de sangue contra os insetos, abandonar a identidade humana para viver como um inseto obediente até que não seria tão ruim assim. — Ele suspirou. — Todos nós, nos altos escalões, sabemos disso em nosso íntimo.
A alta liderança humana era de fato fria e impiedosa, um fato reconhecido por todos, mas também uma regra tácita: na era interestelar, com perigos incontáveis à espreita, por vezes era preciso agir com extrema decisão para conter perdas e manter a vantagem no todo.
Por exemplo, desta vez, o comandante deles não foi resoluto o bastante. Não enviou mais equipes de ataque para limpar o subsolo, dando aos insetos uma chance preciosa de respirar e se desenvolverem enormemente em apenas um mês.
E, se voltarmos um passo, se naquele maior dos pontos de aterrissagem a liderança humana tivesse tido a frieza de usar as canhoneiras de energia para devastar tudo, apoiados pelas tropas de paraquedistas infernais, a batalha jamais teria chegado a este ponto.
Na guerra interestelar, um passo em falso leva a outro; não há espaço para piedade.
A liderança humana escolheu acreditar em suas próprias ilusões — de que tudo corria bem, e não havia necessidade de agir com selvageria para exterminar todos.
Mas esse sentimento de segurança custou-lhes quatro fragatas.
O problema, porém, não se limitava apenas a essas quatro naves. Sob o domínio dos insetos, todos eles experimentaram um terror inédito.
Por serem seres inteligentes, os insetos começaram lentamente a dividi-los, conquistar sua confiança, fragmentá-los, oprimir alguns e cooptar outros.
Os que restavam ficavam numa situação cada vez mais constrangedora dentro daquele coletivo.
Sob o controle total do inimigo, qualquer resistência era inútil.
Mas isso só aumentava o desejo do governo humano de eliminá-los de forma definitiva.
Quanto mais pessoas se rendessem aos insetos, mais os altos comandos humanos desejariam exterminá-los, erradicando o problema de uma vez por todas.
E agora, ali estavam eles, prestes a lutar até a morte dentro daquela nave, no território do inimigo, contra esses semi-insetos? Mesmo que lutassem, poderiam vencer?
Enquanto Fischer se perdia nesses pensamentos, Karin já chegava à sala do núcleo central.
Chamar aquilo de sala era pouco: o espaço não era muito menor que um campo de futebol.
No centro estava um gigantesco reator, erguido como uma esfera colossal, com uma enorme interface para conexão com os sistemas internos da nave.
Embora os humanos ainda não tivessem tecnologia para trocar reatores de fusão a quente, conseguiam construí-los de modo a facilitar o transporte: usava-se, descartava-se, abria-se a tampa e já estava pronto, prático e rápido.
Agora, porém, o reator estava coberto por um tapete negro de fungos. Além do gigantesco reator, a sala era dominada por tubos e cabos de todos os tipos, reunidos ali para depois se ramificarem e levarem energia a todos os setores... dali partia o poder de toda a nave. Havia ainda uma sala de energia secundária, tomada sem esforço pelos insetos.
O lugar tinha sido completamente transformado: não se via mais fio algum, apenas esporos parasitas pulsando incessantemente.
E ali, outro ser esperava calmamente por Karin.
A Rainha-Inseto.
Após a conquista daquele setor, a rainha foi imediatamente posta ali, formada pela junção dos esporos. Os humanos nada sabiam disso, pois a Rainha-Mestra já previra a possibilidade de ter que lutar contra eles dentro da frota.
No entanto, depois de tomar o controle da sala central e da sala do reator, o ânimo humano para lutar desmoronou ainda mais rápido do que ela esperava.
Eles sabiam bem o que aconteceria se perdessem o controle daquela imensa fragata: seriam trancados atrás de portas de segurança quase impossíveis de abrir, originalmente destinadas ao controle de danos — agora totalmente automatizado por robôs e IA.
Após isso, as tropas inseto, com sua vantagem numérica, iriam limpar cada compartimento, exterminando todos sem piedade.
Contudo, os insetos não demonstraram tal intenção — por isso a rendição foi tão rápida e completa.
Ninguém sabia da presença da Rainha-Inseto na sala de energia central. Os humanos, aliás, nem chegavam perto dali; sua área de circulação se limitava a seus próprios departamentos.
Toda a frota estava dividida em centenas de níveis, formando uma enorme esfera de vinte quilômetros de diâmetro. Cada nível podia abrigar muita gente, então não se sentiam sufocados pelo espaço — o que realmente os oprimia era a dominação dos insetos e o futuro incerto.
E foi isso mesmo que Karin pensou.
Se era preciso enfrentar tanto uma ordem de extermínio dos altos comandos quanto um possível abandono pelos insetos a qualquer momento, então talvez fosse melhor render-se de vez, ao menos para conseguir dormir em paz.
Ela não dormia direito havia um mês desde que fora capturada.
Agora, finalmente, teria um sono tranquilo.
Abriu a porta, mas tremeu ao ver a Rainha-Inseto. A Rainha-Mestra havia modificado o rosto das rainhas para que parecessem mais humanos, mas mantivera o corpo inalterado — parecia o rosto delicado de uma mulher, esfolado e colado ao corpo de um inseto monstruoso.
— Veio tornar-se uma de nós? — perguntou a Rainha, com uma voz cristalina. Parecia uma mulher, mas era só para que se sentissem mais à vontade; quem realmente se comunicava era a Rainha-Mestra.
— Sim — respondeu Karin, engolindo em seco.
— Deite ali. Você receberá o que deseja — disse a Rainha, apontando com seu braço nu para um canto da sala.
Ali, alinhadas como cápsulas de escape, estavam várias cabines feitas do mesmo material negro dos esporos parasitas.
Karin respirou fundo e deitou-se com decisão.
— Karin! — gritou Kato, invadindo a sala do núcleo. Um gigantesco ovo de inseto se rompia, e de dentro dele emergia uma figura feminina coberta de um fluido viscoso. Assim que nasceu, abriu suas asas nas costas, que se expandiram como enormes asas de borboleta, refletindo as cores do arco-íris.
Dois delicados tentáculos sobressaíam de sua testa. Ela se virou, e o olhar estranho que lançou congelou Kato por inteiro.
Ela sorriu, levantou a mão, fitou-a sob a luz, admirando o corpo perfeito.
— Então é você, Kato — disse ela suavemente. — O que acha de mim agora? Estou bela?
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Ainda há um capítulo a mais... talvez.