Capítulo 069: Pessoas Úteis

O Último Enxame Meia tigela de carne de porco ao molho vermelho 2450 palavras 2026-02-08 04:36:25

Capítulo 069 – Pessoas Úteis

Silva tremia da cabeça aos pés, tomado por uma excitação incontrolável.

Ele apenas dera uma sugestão a Wang Chong, e este já fora capaz de deduzir tantas possibilidades. O sistema neural de pensamento dos zergs talvez fosse ainda mais poderoso do que ele havia imaginado.

Só de pensar que, no futuro, poderia se unir a essa rede neural e até mesmo controlá-la, sentia calafrios e arrepios por todo o corpo.

Foi ideia dele transformar a tripulação da nave em zergs, mas a sugestão de permitir que os meio-zergs voltassem a ser humanos partira de Wang Chong.

E essa era, sem dúvida, uma proposta genial.

Tratava-se de um verdadeiro teste mental para os meio-zergs.

Apesar de não serem muitos, apenas um pouco mais de cinquenta pessoas, Wang Chong jamais lhes dera alternativa. Todos foram forçados por ele a se tornarem meio-zergs, seus subordinados e prisioneiros.

Nessas circunstâncias, ninguém sequer cogitava o que realmente desejava para si.

Porém, quando Wang Chong lhes ofereceu uma escolha, foram obrigados a ponderar sobre o desejo de realmente voltarem a ser humanos.

Será que queriam, de fato, retornar à condição humana?

Neste mundo dominado pelos zergs, voltar a ser humano significava descer de uma posição de “gestor” para a de “gerido”, ou até mesmo de “cordeiro” ou “presa”.

Não sentiriam insegurança, medo ou pavor?

Antes, conseguiam manter a calma porque não precisavam se preocupar com a própria segurança. Como meio-zergs, eram considerados elite na sociedade dos insetos, pessoas de grande utilidade, livres desse tipo de angústia.

Mas, ao perderem esse status de elite e retornarem à sua forma humana, a situação mudaria drasticamente. Ainda mais porque, do outro lado, haveria uma corrente constante de novos seres se aliando aos zergs, tornando sua posição cada vez mais precária.

E, ao refletirem mais profundamente, percebiam que nem mesmo entre os cinquenta habitantes daquele planeta havia unidade. Alguns desejavam voltar a ser humanos, enquanto outros preferiam se aproximar ainda mais dos zergs.

Os que se inclinavam para o lado dos insetos, como Silva, naturalmente ocupariam posições superiores em relação aos humanos comuns.

Nesse cenário, surgiria o risco de bullying, humilhação, talvez ainda pior?

Essa era uma preocupação inevitável para todas as mulheres. Para os homens, a situação era ainda mais drástica: o poder que antes possuíam lhes seria tirado, só podendo ser reconquistado ao se juntarem aos zergs.

Uma transformação desse porte, mesmo para os mais radicais defensores da humanidade, exigia profunda reflexão.

Valeria mais a pena se tornar um zerg e assim contribuir verdadeiramente para o futuro da humanidade, ou preservar o orgulho e a honra interior, regressando ao estado humano?

Essa era a fonte do conflito.

Para outros, porém, a questão era menos complexa.

A maioria nem sequer pensava tanto; ao ouvirem que poderiam voltar a ser humanos, muitos já se alegravam, desejando desesperadamente se enfileirar para isso.

Por outro lado, uma minoria ponderava cuidadosamente.

Por exemplo, voltando a ser humanos, perderiam privilégios como o controle da nave de guerra. E o que fariam, então, nesse planeta solitário e tedioso? Passariam o tempo apenas procriando?

Além disso, a diferença entre os grupos se acentuaria ainda mais. Já estavam acostumados com as vantagens dos poderes zergs — força descomunal, resistência, audição e olfato aguçados —, sentindo-se quase super-humanos.

Antes, diziam com certo orgulho querer voltar a ser humanos, mas, diante da possibilidade real de abrir mão dessas habilidades, hesitavam.

A natureza humana, afinal, é rir do infortúnio alheio enquanto ignora o próprio. Se nunca tivessem usufruído dos poderes dos zergs, talvez levassem vidas comuns sem questionar, mas, depois de experimentá-los, seria difícil aceitar a mediocridade. Para eles, era um verdadeiro cruzamento de caminhos.

Por isso, tanto nas cavernas quanto na nave, o ambiente estava impregnado de uma tensão estranha e inquieta.

Todos aguardavam algo, como se esperassem por uma revelação.

A bordo do Cometa, um casal se debatia em meio a uma discussão acalorada, atraindo olhares de todos ao redor.

Era um momento delicado; qualquer desentendimento ou briga chamava imediatamente a atenção de todos, que se punham a escutar.

— Karine! Como você pode fazer isso? Como pode se transformar naquela aberração?!

O homem, de mandíbula larga e cabelos castanhos cortados rente aos ombros, segurava a mão da jovem com força, a voz rouca e aflita.

— Eu não deixo você ir!

— Cale a boca, Cato! — retrucou a mulher, aparentando vinte e cinco ou vinte e seis anos, em pleno florescer da juventude, com longos cabelos azuis de brilho translúcido.

Seu semblante, porém, era tomado pela fúria e pelo desespero:

— Não há esperança para a humanidade, Cato!

Ela rugia como uma leoa ferida:

— Veja só como fomos lançados nas cavernas por um mês inteiro!

— Onde está o exército? Onde estão eles?

— E agora, olhe para esta fragata capturada!

— Ainda não entende? Os zergs estão em vantagem absoluta. Se não nos unirmos a eles, morreremos!

— Não tivemos qualquer chance de resistir quando fomos capturados, e eles também não!

Ela apontava em direção ao grupo de curiosos, exclamando:

— Acha mesmo que alguém virá nos salvar?

— Não! Vão nos afundar junto com estas quatro fragatas! — suas palavras cortavam fundo — Eu não quero morrer! Por isso vou me unir a eles! Quero viver!

Seus argumentos eram contundentes; nada era mais importante do que sobreviver.

Além disso, ela jamais enfrentara os insetos no campo de batalha e não conhecia o horror de sua crueldade.

Para ela, os zergs não eram uma ameaça à sua vida, mas sim os próprios humanos.

Especialmente os membros da alta cúpula, cuja frieza a impressionava.

Ela sabia bem quais ordens os comandantes humanos dariam: ao menor sinal de perda de controle das quatro fragatas, a ordem para que a nave-mãe de trinta quilômetros as destruísse seria imediata.

Não havia alternativa.

Antes, ainda podiam se consolar pensando no número de vidas a bordo, acreditando que o exército não seria tão impiedoso.

Contudo, com surgimento de aliados dos zergs e meio-zergs, o conflito tornara-se claro para todos.

O problema estava escancarado diante dos olhos de todos.

Agora, se não conseguissem provar seu valor, seriam abandonados por ambos os lados.

Era exatamente esse o plano original de Wang Chong.

Mas agora, muitos haviam compreendido: era hora de pensar em sobreviver.

E como garantir a própria sobrevivência? Tornando-se alguém útil para Wang Chong!

————

Não haverá segundo capítulo hoje. O da noite passada esgotou todas as minhas energias. Hoje, vou dormir cedo e acordar cedo.