Capítulo 47: O Ônibus das Nove Horas
Diante do súbito entusiasmo de Yan Rui, Qin Shu sentiu-se um pouco desconfortável. Tendo vivido duas vidas, era a primeira vez que alguém lhe demonstrava tanto calor e afeto. Suas faces coraram involuntariamente e, raramente, ela exibiu um ar de desorientação.
— Bem, na verdade, você está apenas muito nervosa. Se analisar cuidadosamente as regras, também perceberá onde está o problema.
A regra dezenove dizia: “Há muito tempo não nasce uma criança na aldeia. A sogra, para que você engravide logo, frequentemente preparará tônicos para você. Não recuse a bondade dela.”
Essa regra já deixava claro que fazia muito tempo que não nasciam crianças na Aldeia da Felicidade. Qual seria o verdadeiro motivo para que não houvesse uma única criança entre eles?
No entanto, durante a noite, era possível ouvir claramente sons de crianças fazendo algazarra na cama. Isso indicava que, no passado, já houvera crianças ali, mas, por alguma razão desconhecida, todas haviam desaparecido.
A sogra tinha uma urgência enorme de ter um neto. Se conseguissem realizar esse desejo, havia uma grande possibilidade de que o estranho marido não voltasse a pedir para realizar aqueles atos bizarros.
Só Deus sabia o quanto ela ficava sem palavras ouvindo, noite após noite, o estranho marido ao seu lado realizando aquele ritual de martelar a cama de madeira.
Yan Rui sentia-se grata pelo alerta de Qin Shu.
Qin Shu não disse mais nada. Na sua vida anterior, havia sido ingênua, deixando que os membros da família Qin lhe roubassem todos os itens que ganhava em cada desafio com as mais diversas desculpas. Por isso, agora era sempre cautelosa, acostumando-se a estudar as regras repetidas vezes.
Afinal, não era fácil sair viva de um desses desafios.
— Ontem, quando voltou para casa, descobriu alguma coisa? — Qin Shu se lembrou da chave que encontrara no buraco do rato e não pôde deixar de perguntar a Yan Rui sobre a sua situação.
— Depois que voltei, revirei cada canto da casa, mas não encontrei nada do que procurava. Não tive nenhum progresso — respondeu Yan Rui, desapontada.
— Tente mover o pote de arroz. Talvez encontre o que está buscando — sugeriu Qin Shu.
Ela e Yan Rui eram da mesma equipe. Havia algo que Tian Xier não estava errada: era praticamente impossível passar por este desafio sozinha.
Quanto mais pessoas no desafio, mais difícil ele se tornava.
— O pote de arroz? — Yan Rui pareceu ter um estalo. Qin Shu já havia conseguido a chave para o quarto da sogra.
— Vamos compartilhar o que temos vivido nestes últimos dias — sugeriu Qin Shu, que, ao pensar nas regras ainda não desencadeadas, achou melhor fazerem uma revisão juntas dos acontecimentos recentes.
As conclusões a que chegaram foram:
Regra nove: Haverá sempre visitas em casa. Como membro da família, deve satisfazer qualquer pedido dos visitantes.
Regra dezessete: Os moradores da aldeia são muito simples, mas parecem não gostar de forasteiros. Ao ver um, avise imediatamente os anciãos da aldeia.
Regra dezoito: A cada sete dias, alguém celebrará uma festividade na aldeia. Como parte da comunidade, você tem o dever de contribuir.
Regra vinte e um: A Aldeia da Felicidade é remota, e só há ônibus para fora dela às nove da manhã.
Regra vinte e três: No décimo quinto dia, você deve deixar a Aldeia da Felicidade. Lembre-se de levar seus amigos com você.
Das cinco regras, as três primeiras ainda não haviam sido ativadas. As duas últimas precisavam de mais verificação. Afinal, nos últimos dias, só saíam após as nove e tinham que voltar até as onze.
Então... depois das onze, seria proibido sair de casa? Ou, ao sair, algo ruim aconteceria?
Era evidente que o ônibus da regra vinte e um era o único meio de deixar a aldeia.
E quem seriam os amigos mencionados na regra vinte e três? Qin Shu já tinha uma ideia, mas... como poderiam garantir um lugar no ônibus?
Restavam as três primeiras regras. Até então, nenhuma visita havia aparecido em casa.
Qual seria o papel dos forasteiros na regra dezessete? Seriam inimigos ou aliados?
O estranho marido e a sogra saíam todos os dias às nove e só retornavam às cinco da tarde. Até agora, elas não haviam visto nenhum sinal do ônibus.
O ponto mais crucial era a regra dezoito.
Qin Shu acreditava que, ao chegar ao sétimo dia, muitos mistérios seriam solucionados.
Por que, afinal, a cada sete dias alguém deveria celebrar uma festividade? Que tipo de celebração seria essa? Casamento? Mudança para uma nova casa?
E, afinal, que segredo estaria escondido no quarto da sogra?
Uma sucessão de perguntas para as quais Qin Shu não tinha resposta. E que também deixavam Yan Rui perplexa.
Enquanto conversavam, lavavam as roupas até deixá-las limpas.
Ao torcer as roupas, Qin Zhenzhen e a pálida Tian Xier chegaram, acompanhadas por mais duas jogadoras.
Qin Shu e Yan Rui trocaram olhares. Seria possível que este desafio só tivesse jogadoras mulheres?
Tian Xier parecia muito abatida, com olheiras profundas e o rosto de uma palidez nada natural.
Desanimada, ao ver Qin Shu, recuou instintivamente alguns passos.
Ainda se lembrava claramente da cena de ontem, quando Qin Shu esfaqueou Qin Zhenzhen.
As outras duas novas jogadoras não estavam em melhor estado que Tian Xier. Uma delas, inclusive, tinha o ventre levemente saliente.
O semblante estava ainda mais pálido que o de Tian Xier, como se todo o sangue tivesse sido drenado, e os olhos, vidrados, passavam sem emoção por Qin Shu e suas companheiras.
Os movimentos ao lavar as roupas eram mecânicos, quase como se fossem marionetes ambulantes.
Qin Zhenzhen, ao perceber Yan Rui ao lado de Qin Shu, não pôde evitar franzir o cenho.
Ontem...