Capítulo 64: O Forasteiro Indesejado
Você já viu minha filha?
O homem de meia-idade continuava repetindo essa frase sem parar.
Estava ainda mais obstinado do que da primeira vez em que Qin Shu o viu.
Não descansaria enquanto ela não lhe dissesse onde estava sua filha.
Qin Shu pegou a foto das mãos dele e perguntou: “Você tem alguma foto em que aparece junto com ela?”
As pupilas negras do homem finalmente demonstraram alguma alteração e ele respondeu de forma rígida: “Tenho.”
Enquanto falava, tirou do bolso outra fotografia e entregou a Qin Shu. “Minha filha, você já a viu?”
“Bem, amanhã… das duas às cinco da tarde, espere por mim aqui. Eu lhe direi onde está sua filha.”
Qin Shu guardou a foto e ponderou um pouco antes de responder.
Um brilho estranho cruzou o rosto do homem, mas logo desapareceu.
Qin Shu puxou a corda que prendia Cuihua, pegou um balde de roupas e voltou para casa.
Ao entrar, o espírito que ela já havia despachado antes ressuscitou mais uma vez.
Qin Shu estendeu as roupas, olhando para os três espectros embriagados, que sorriam de maneira lasciva para ela.
Seus punhos cerraram, mas... naquele dia, ela tinha outros planos.
Forçou um sorriso rígido e disse: “Senhores, como podem beber só com amendoins? Vou à cozinha preparar algo mais substancial para vocês.”
“Hahaha, essa moça sabe das coisas. Sabe agradar os irmãos... Certo, vamos esperar. Quando terminarmos de beber, ainda teremos a tarde inteira para conversar melhor dentro do quarto.”
Conversar, é claro…
Sonha, quem sabe.
Felizmente, os fantasmas que ela encontrava ultimamente não eram de alto nível, então lidar com eles era fácil.
Qin Shu foi para a cozinha e se demorou preparando o almoço, levando mais de uma hora nisso.
Quando finalmente serviu os pratos, já passava da uma da tarde.
“Sirvam-se. Vou ao meu quarto me preparar.”
Ao ouvir isso, os olhos dos três espectros brilharam com malícia.
Qin Shu apertou os lábios vermelhos, fingindo não notar os olhares descarados.
Entrou no quarto, sentou-se na beira da cama e ficou muito tempo encarando o espelho.
A entidade do espelho nunca mostrava o rosto.
Qin Shu franziu o cenho e bateu no espelho: “Não dizem que, se encarar o espelho por mais de um minuto, algo surpreendente acontece? Apareça!”
Um gemido suave soou.
Qin Shu arqueou a sobrancelha. Que som era aquele?
Bateu de novo no espelho: “Apareça.”
Um choramingo ainda mais sentido respondeu.
Qin Shu ficou em silêncio.
O que estava acontecendo?
O espectro do espelho havia mudado?
Agora emitia sons chorosos.
Já sem paciência, ela chamou várias vezes, mas nada do espírito aparecer.
Tirou do bolso a foto em grupo e mostrou para o espelho: “Quem está nesta foto?”
O espírito feminino que choramingava no espelho parou de chorar, encolheu-se e, timidamente, enfiou apenas a cabeça para fora, os longos cabelos negros cobrindo-lhe o rosto.
Fitou a foto na mão de Qin Shu e começou a chorar baixinho.
Qin Shu já tinha a resposta em mente. Estendeu a mão e afastou os cabelos do rosto da mulher, revelando um semblante quase idêntico ao da foto.
Mas, na imagem, a jovem sorria iluminada.
A entidade à sua frente, no entanto, tinha o rosto pálido e duas lágrimas de sangue escorriam dos olhos, descendo pelas faces.
Qin Shu suspirou: “Combinei com ele. Amanhã à tarde vou levar você para vê-lo.”
Franziu a testa, observando a mulher que, agora, só tinha a cabeça para fora do espelho: “Só que... assim, como vou levar você embora?”
Seria preciso carregar a penteadeira inteira?
A mulher continuava chorando baixinho.
Dessa vez, o corpo inteiro dela emergiu do espelho e apontou para debaixo da cama.
Qin Shu apertou os lábios e se abaixou para olhar.
De repente, deparou-se com um rosto cadavérico, olhos arregalados fixos nela.
Foi pega de surpresa e levou um susto.
Qin Shu fez um estalo com a língua e olhou para a mulher que só sabia chorar.
Depois, agachou-se e puxou o corpo de baixo da cama.
O cadáver feminino estava coberto de manchas azuladas, o ventre inchado, e marcas de corda nos tornozelos, pulsos e pescoço.
O corpo estava nu, encolhido, expressão de sofrimento absoluto no rosto, olhos cheios de um desespero aterrador.
Qin Shu desviou o olhar, penalizada, e foi até o guarda-roupa buscar uma roupa para vesti-la.
“Fique tranquila. Amanhã, depois do banquete, levo você para encontrá-lo.”
Parece que, reconfortada pelas palavras de Qin Shu, o choro da mulher foi diminuindo e ela olhou para Qin Shu com olhos brilhantes.
Qin Shu suspirou, voltou a esconder o corpo sob a cama.
Consultou o relógio infantil em seu pulso: já eram duas e meia da tarde.
Os três espectros lá fora, evidentemente, já estavam totalmente embriagados.
“Vou sair um pouco. Fique aqui e não se preocupe... nenhum deles vai escapar.”
Acalmando o espírito do espelho, Qin Shu arrumou-se novamente e saiu do quarto.
No pátio, os três fantasmas, já bêbados, mal conseguiram tirar os olhos de Qin Shu ao vê-la sair.
Cambaleantes, tentaram agarrá-la, mas ela se esquivou com um movimento ágil.
“Senhores, há algo que venho hesitando em contar”, Qin Shu disse com as sobrancelhas franzidas, demonstrando preocupação. “Nos últimos dias, vi um homem rondando a vila com uma foto na mão; em algumas ocasiões, ele chegou a entrar sorrateiramente nas casas dos moradores.”
Os três, antes embriagados, despertaram quase imediatamente, os olhos arregalados como sinos de bronze.
“Senhores, vocês acham que esse estranho...”