Capítulo 96: Os Sapatos Vermelhos Bordados Debaixo da Cama
O pátio dos fundos não tinha poço? Assim que entrou nos fundos, Qin Shu realmente não viu nenhum poço.
— Senhora, o pátio dos fundos não é lugar para visitas, saia daqui imediatamente. Caso contrário, o senhor e o jovem da casa ficarão descontentes — disse o mordomo, com o rosto carregado e voz fria.
Qin Shu percebeu que não seria possível continuar investigando o pátio dos fundos naquele dia.
Ela retornou ao pátio da frente pelo mesmo caminho, sentindo o tempo todo um olhar gélido em suas costas. Não precisava se virar para saber: era o mordomo, que a vigiava.
Ao chegar na frente, Qin Zhenzhen, do quarto ao lado, abriu a porta. Assim que viu Qin Shu, empalideceu e se encolheu de volta, fechando a porta com força.
Qin Shu arqueou uma sobrancelha e olhou para os quartos de Xu Xing e Du Wenxing; bateu algumas vezes, mas não obteve resposta.
Após se certificar de que ambos ainda não tinham voltado, abriu a própria porta.
Começou verificando o quarto. A faixa vermelha que estava sobre o espelho de bronze havia sido jogada ao chão, não sabia desde quando.
O vestido de noiva vermelho pendurado parecia estar ainda mais próximo da cama.
Qin Shu pegou a faixa do chão e, como fizera no dia anterior, cobriu o espelho de bronze.
Em seguida, foi até a cama e inspecionou os objetos sobre ela. Nada de estranho. Procurou também no guarda-roupa. Por fim, agachou-se para olhar debaixo da cama.
Um par de sapatos bordados.
Se sua memória não falhava, no dia anterior não havia sapatos bordados no quarto.
Imediatamente lembrou do semblante culpado de Qin Zhenzhen há pouco. Pegou os sapatos e, enquanto relembrava as regras na mente, se deu conta:
“Regra 10: Se ao anoitecer você ainda não tiver retornado ao quarto, e perceber alguém olhando para você e perguntando sobre os sapatos bordados, ignore-a.”
Como Qin Zhenzhen tinha encontrado esses sapatos?
Não pôde evitar um sorriso de escárnio. Não era esse o tipo de coisa que ela sempre fazia?
Guardou os sapatos, pretendendo falar com Du Wenxing quando ele voltasse.
Depois, tirou do guarda-roupa o cobertor que usara na noite anterior e o estendeu sobre a mesa.
Assim que terminou, ouviu passos do lado de fora.
Alguém bateu à porta.
— Qin Shu!
Era a voz de Xu Xing.
Ela abriu a porta, olhou para a sombra aos pés dele e depois para Du Wenxing.
Apontou para o quarto mais distante de Qin Zhenzhen, o de Xu Xing.
Os dois assentiram, e os três entraram juntos.
Antes que falassem, Qin Shu colocou os sapatos bordados sobre a mesa:
— Encontrei isso hoje, escondido debaixo da minha cama.
— Quer que eu a ajude? — Du Wenxing perguntou, franzindo o cenho.
Qin Shu assentiu. Trabalhar com gente esperta era sempre melhor.
Ela nem precisou explicar; ele já adivinhara suas intenções.
A sombra de Du Wenxing pegou os sapatos bordados e saiu sorrateiramente.
Com isso resolvido, os três começaram a discutir o que haviam observado durante a tarde.
— Revirei o pátio dos fundos, mas não achei nenhum poço — disse Qin Shu, com o cenho franzido. — O mordomo parece ser hostil comigo.
— Também não vimos o senhor Wu ou o jovem Wu na casa, mas... a sombra de Du Wenxing encontrou algo estranho — disse Xu Xing, olhando para Du Wenxing.
— O altar, a imagem de Buda — respondeu Du Wenxing, sucinto.
Qin Shu recordou que as regras mencionavam mais de uma vez a imagem de Buda.
Será que ela realmente protege? Combina uma imagem de Buda com uma mansão antiga?
Pelo comportamento do mordomo, parecia que não. Provavelmente, a imagem era usada para conter alguma presença maligna.
Que tipo de maldição faria com que, em toda casa da vila sob a Lua Sangrenta, houvesse uma imagem de Buda?
— E se... de dia não há poço, mas à noite?
Durante o dia, haviam percorrido toda a casa Wu e tudo parecia normal. Normal até demais para um mundo dominado pelo sobrenatural.
Até o mordomo parecia uma pessoa comum, sem nenhum vestígio de aura sinistra.
A não ser quando o assunto do poço era citado; só aí Qin Shu sentira algo estranho nele.
Quanto mais calma a situação, mais inquietante se tornava.
— Está pensando em sair à noite? — Xu Xing coçou o queixo, ponderando sobre a viabilidade da ideia.
— Ontem você não deixou sua sombra sair? Viu algo estranho? — perguntou, cutucando Du Wenxing com o cotovelo.
Du Wenxing balançou a cabeça.
— Será que estamos enganados? Não há perigo à noite? — Xu Xing começou a duvidar.
A sombra de Du Wenxing era excelente para investigar, especialmente à noite, praticamente impossível de ser percebida.
Qin Shu organizou os pensamentos e falou:
— Decidi. Vou sair esta noite para ver com meus próprios olhos.
— Tudo bem, então. Arriscarei minha pele por você — suspirou Xu Xing.
Se ela, uma moça, tinha coragem para sair à noite, ele não podia ficar para trás.
Deu um tapinha em Du Wenxing:
— E você, velho Du?
— Fico aqui. A sombra vai — respondeu Du Wenxing, balançando a cabeça.
— Você é impossível — murmurou Xu Xing, contrariado. Preferia falar com Qin Shu do que com ele, que parecia que cada palavra dita era um sacrifício mortal.
Qin Shu saiu do quarto de Xu Xing antes de Du Wenxing. Ao entrar no próprio quarto, sentiu de repente alguém a observando.
Virou-se, mas não havia ninguém.
Franziu a testa, entrou e inspecionou o cômodo novamente.
Após se certificar de que ninguém entrara, deitou-se sobre a mesa e fechou os olhos para tirar um cochilo, planejando sair à noite.
Dormiu profundamente, acordando apenas ao entardecer, por volta das seis horas.
Lá fora, o céu escurecia aos poucos.
Pegou um punhado de longans do toucador. Nesse momento, o top vermelho de seda escorregou do espelho de bronze.
Uma face pútrida e assustadora surgiu de repente no espelho, mostrando os dentes para Qin Shu.
Ela, surpreendida, engoliu inteira a fruta que acabara de descascar.
O espectro feminino no espelho, vendo que Qin Shu não reagia, ficou ainda mais excitado. Sua cabeça emergiu totalmente do espelho, aproximando-se cada vez mais.
Uma aura sinistra se espalhou pelo quarto, enquanto ela exibia os dentes, com gengivas sangrando.
Soltou uma série de grunhidos estranhos:
— Hehehe...
— Basta! — Qin Shu, enojada, deu-lhe um tapa na cabeça.
O espectro olhou para ela, atônito.
Vendo que não entendia, Qin Shu empurrou a cabeça da aparição de volta ao espelho:
— Não está vendo que estou comendo? Veio aqui me enojar?
O fantasma feminino gemeu, chorosa, e se debateu, gritando agoniada:
— Hehehe...
A contragosto, foi empurrada de volta para dentro do espelho, de onde escorriam lágrimas de sangue de seus olhos negros.
Permaneceu ali, de dentro do espelho, fitando Qin Shu, que continuou comendo os doces sobre a mesa.
Sentindo-se incomodada com o olhar, Qin Shu pegou um punhado de amendoins e enfiou-os à força na boca do espectro.
Tum, tum, tum.
Bateram à porta, num som dissonante.
O espectro no espelho tremeu, soltando um grito agudo.
— Ah!
Desta vez, Qin Shu ficou perplexa.
O que poderia ser, capaz de assustar até um fantasma a ponto de fazê-lo gritar?
Olhou o horário: ainda eram sete horas.
Nem saíra do quarto e algo impuro já vinha procurá-la?
Não fazia sentido. Ela não tinha mandado a sombra deixar os sapatos bordados no quarto de Wu Xinghe?