Capítulo 66: Ilusão e Realidade
Quando Qin Shu se virou, percebeu que tanto a velha macabra quanto o marido espectral haviam desaparecido. Todo o pátio estava lotado de figuras sinistras, que torciam seus pescoços rígidos e a fitavam, imóveis, com olhares gélidos.
Ao redor, uma névoa branca e espessa voltou a se erguer, tornando impossível distinguir qualquer coisa além do templo ancestral. Outra vez? Qin Shu franziu a testa; ser encarada por centenas de olhos sombrios era, no mínimo, inquietante.
Guardando a entrada do templo, um homem e uma mulher de barrigas inchadas escancararam sorrisos perturbadores, os cantos dos lábios se estendendo visivelmente, a abertura da boca aumentando até se projetar para trás, quase alcançando a nuca.
— Venha, entre... — convidaram, acenando para Qin Shu. Suas vozes tinham uma força hipnótica, quase irresistível, levando-a a dar um passo involuntário à frente.
— Au, au, au! — Cuidada por Qin Shu, Cuihua mordeu a barra de sua calça, ganindo em protesto. Qin Shu rangeu os dentes, recuando o pé que já havia levantado.
O bracelete que usava irradiou calor, afastando as energias malignas que a envolviam. Diante das criaturas que continuavam a sorrir e acenar de modo macabro, Qin Shu apertou a faca de açougueiro, pensando em como conseguiria atravessar o grupo para entrar no templo.
A névoa densa cercava o templo, como acontecera anteriormente. Qin Shu deu um tapinha na cabeça de Cuihua. — Cuihua, só vamos conseguir entrar se você nos ajudar.
Cuihua respondeu com latidos firmes e continuou a rosnar para os espectros que barravam o caminho. Quando Qin Shu, empunhando a faca, correu em direção aos obstáculos, Cuihua saltou junto, lançando-se sobre uma das criaturas e começando a dilacerá-la.
A cada golpe da faca, Qin Shu ouvia em sua mente a contagem dos espectros eliminados. No instante em que começou a agir, a névoa ao redor se dissipou.
Yan Rui olhava, perplexa, enquanto Qin Shu agitava a faca no ar, desferindo golpes contra o vazio.
— Qin Shu! — chamou.
Qin Zhenzhen e Gu Beichen, divertidos, observavam Qin Shu lutando contra o nada. Qin Shu, ofegante, virou-se, os olhos tomados por uma ferocidade inédita.
Seu olhar gélido e ameaçador cravou-se em Qin Zhenzhen e nos outros, a ponto de até Yan Rui sentir um terror sufocante, como se Qin Shu pudesse despedaçar qualquer um a sua frente.
Lu Yuanliang franziu a testa, preocupado.
— Qin Shu, está tudo bem? — Yan Rui deu um passo adiante, incerta.
A selvageria nos olhos de Qin Shu foi se dissipando, dando lugar à lucidez. Por um breve momento, a surpresa cruzou seu rosto normalmente inexpressivo, mas logo ela recuperou o semblante impassível e guardou a faca.
— Não é nada. Ao chegar, fui sugada para uma ilusão.
Seria mesmo apenas uma ilusão? Não tinha certeza. Sua mão ainda tremia do esforço de segurar a faca, e o artefato a notificara a cada espectro eliminado. Ou seja, ela lutara com criaturas reais.
Recolheu sua energia sombria, mas uma frieza intransponível ainda a envolvia. Seu olhar glacial passou por Qin Zhenzhen e recaiu sobre Tian Xier e outra jogadora, ambas já transformadas em espectros, assim como outros jogadores ao longe, todos integrados à estranha aldeia e fitando-a com olhos de predador.
Em sua mente, Qin Shu mesclou a cena anterior com a atual. Decidiu não se enredar naquele momento em disputas com Qin Zhenzhen e os demais.
Yan Rui, ao vê-la entrar no templo, olhou para Lu Yuanliang e correu atrás.
Dentro do templo, o ambiente era surpreendentemente amplo, iluminado por lanternas vermelhas penduradas ao longo do extenso corredor.
Qin Shu logo reconheceu o espectro que repartia carne da última vez, brandindo a faca sobre a tábua, separando os pedaços com precisão. Próxima a ele, a velha senhora continuava a servir carne em conchas, alheia a tudo.
— Como vocês acabaram se reunindo? — Qin Shu perguntou a Yan Rui.
— Cheguei cedo, procurei por Lu Yuanliang, e ele estava com o grupo deles — explicou Yan Rui. — O plano deles é colocar veneno na comida e, às cinco horas, sair de ônibus da vila.
Qin Shu ponderou por um momento após ouvir o plano.
— Não podemos sair da vila de ônibus.
— O quê? — Yan Rui ficou surpresa, pressentindo que Qin Shu descobrira algo. — Por quê?
— Os forasteiros... — sussurrou Qin Shu, olhando ao redor. — Ontem, ao voltar, encontrei novamente os forasteiros. Você nunca os viu?
Yan Rui assentiu, mas logo negou.
— Claro que sim, mas... não há uma regra que diz que, ao encontrá-los, devemos avisar imediatamente os anciãos da vila?
Qin Shu a fitou, confusa.
— Você avisou alguém?
Yan Rui abriu as mãos.
— Claro que não, não sou tão ingênua. Essa regra... é claramente uma armadilha! — Balançou a cabeça. — Pode não estar totalmente errada, mas sinto que há algo estranho nela, então me afastei sem olhar para trás.
Vendo a expressão de Qin Shu, ficou claro que ela concordava.
— Ora, como não pensei nisso antes?
Qin Shu assentiu.
— Avise Lu Yuanliang para irmos juntos depois. Não vamos seguir o grupo deles. Mantemos nosso plano inicial, e não desperdiçamos o veneno que temos.
— Vou para onde guardam o vinho. Veja se consegue colocar algo na comida, e deixe a cozinha com Lu Yuanliang.
Qin Shu, ainda segurando Cuihua, combinou as últimas instruções com Yan Rui e seguiu até o local onde o vinho estava guardado.
A porta permanecia entreaberta. Ao empurrá-la, viu metade do corpo do espectro do vinho mergulhado no enorme barril.
Sem hesitar, Qin Shu o puxou para fora. O espectro já havia bebido um quinto do líquido, mas ela suspirou aliviada; se tivesse chegado mais tarde, o barril estaria quase vazio, como antes, e não haveria vinho suficiente para toda a aldeia.
Para garantir, Qin Shu instruiu Yan Rui e Lu Yuanliang a colocar veneno de rato na carne e na sopa, para que até os espectros que não bebessem pudessem receber o "presente".
O espectro do vinho, irritado por ter sido interrompido, lançou-lhe um olhar feroz, abriu a boca e estendeu uma língua longa, enrolando-a na cintura de Qin Shu.
— Que ótima surpresa... um petisco para acompanhar o vinho! — zombou.
Qin Shu ergueu novamente a faca e engajou-se numa luta feroz, cortando a língua do espectro, espalhando sangue por todo lado.
Fechou a porta com um chute, puxou a língua esticada e, com um salto ágil, passou-a pela viga do teto, enforcando o espectro e dando um nó ao redor de seu pescoço.
Suspenso, o espectro do vinho esperneou no ar. Qin Shu cravou a faca em seu peito, exterminando-o.
Depois de dar fim à criatura, Qin Shu aproximou-se do barril e despejou o veneno acumulado nos últimos dias, misturando tudo com cuidado e envasando o vinho envenenado em garrafas.
Por fim, saiu do ambiente, fechando a porta com discrição.
A luta com o espectro do vinho tomara-lhe muito tempo; já passava das dez e meia. Qin Shu apressou-se para se reunir a Yan Rui e Lu Yuanliang.
Cuihua, sempre fiel, a seguia de perto, mas de repente postou-se à sua frente, latindo furiosamente para algo atrás de Qin Shu.