Capítulo 94: Um Caixão como Presente de Casamento
Gu Yufu apertou os lábios, observando as costas de Qin Shu enquanto ela se afastava, sem saber o motivo. De repente, passou a acreditar que a morte de Gu Beichen não tinha relação com Qin Shu.
Ao lado, Qin Nan, com o rosto sombrio, correu atrás da silhueta de Qin Shu.
— Qin Shu, por que você escondeu seu dom? Se não tivesse escondido, papai e mamãe não teriam te expulsado de casa.
Qin Shu parou, virou-se e olhou para ele como se encarasse um estranho:
— Quem disse que fui expulsa? Fui eu quem não quis mais reconhecer vocês.
— Qin Nan, vou dizer pela última vez: de agora em diante, eu, Qin Shu, não tenho mais nenhum laço com a família Qin. Sempre houve apenas uma filha nessa casa, lembre-se disso. O nome dela é Qin Zhenzhen.
— E eu, Qin Shu, não tenho nenhuma relação com vocês.
— Qin Shu, está dizendo isso da boca pra fora? — Qin Nan, assustado, olhava com certa dúvida para a expressão fria dela. — Com que direito você culpa nossos pais? Se não fosse por sua teimosia e por perseguir Zhenzhen, eles não teriam se magoado.
— Zhenzhen pode não ser filha biológica deles, mas, afinal, ficou ao lado deles por dezoito anos. Só por causa de uma coisa tão pequena você quer romper o vínculo com eles? Não tem medo de magoar seus corações?
— Qin Nan, não me force a te matar — Qin Shu lançou-lhe um olhar furioso e avançou.
A lâmina de desossar encostou em sua garganta.
Um ar gélido e sinistro parecia sufocá-lo.
— É a última vez, só estou perdoando porque um dia você salvou a minha vida. Da próxima... se ouvir mais uma palavra nojenta dessas, não terei piedade.
O olhar de Qin Shu, frio como gelo, o encarou como se examinasse um cadáver.
Qin Nan sentiu um calafrio cortar até os ossos.
Qin Shu falava sério; ela realmente queria matá-lo.
E o que significava aquilo? Quando ele a salvara?
Quando voltou a si, Qin Shu já havia partido.
Restou apenas ele, parado no pátio vazio.
O rosto de Qin Shu estava coberto de geada.
Ela não mentiu: Qin Nan de fato salvara sua vida, mas agora... nem o menor afeto por ele restava.
Antes, ela nunca conseguia entender por que pais biológicos podiam não amar os próprios filhos.
Agora, compreendia: talvez, desde o início, ela e os Qin nunca tiveram um verdadeiro elo.
Do contrário, não teria vagado pelo mundo desde pequena, e, mesmo ao retornar, teria sido ignorada e até usada pelos próprios pais.
Não importava o motivo de Qin Nan tê-la salvado na vida passada; só pelas palavras que ele dissera agora, ela já deixara claro seu posicionamento.
Da próxima vez que se encontrassem, ela não hesitaria.
Massageando o pulso dolorido, Qin Shu pensou: se não fosse por Wu Xinghe proteger Qin Zhenzhen hoje, ela teria morrido.
Ser constantemente perturbada por esse grupo de pessoas, que bagunçavam seu ritmo nos desafios, era exaustivo.
Olhou para o céu cinzento e suspirou, mais uma vez se perguntando se não seria uma vilã maldosa de algum romance, feita apenas para realçar Qin Zhenzhen.
Por que, a cada novo desafio, elas se encontravam? No mundo, havia bilhões de pessoas, mas, entre os milhões sorteados para cada desafio, sempre caía justo com Qin Zhenzhen e sua turma?
— Qin Shu chegou.
Yan Rui já tinha ouvido de Xu Xing o motivo de Qin Shu ter se atrasado.
Du Wenxing, ao ver Qin Shu ilesa, pareceu surpreso.
Lançou um olhar para Xu Xing, que sorriu e piscou para ele.
— Viu só? Eu disse que ela estava bem.
— Estas são as regras que devemos seguir.
Yan Rui entregou a folha com as regras para Qin Shu.
Qin Shu abriu o papel.
[Regras dos Moradores da Vila Antiga da Lua Sangrenta]
[Regra 1: Você é uma moradora da Vila Antiga da Lua Sangrenta, devota de Buda. Precisa rezar uma vez pela manhã e outra à noite; assim, será protegida.]
[Regra 2: Se encontrar alguém querendo comprar um caixão, deve dizer que acabou e só haverá mais em cinco dias.]
[Regra 3: No quinto dia, o Jovem Mestre Wu se casará. Como moradora da vila e dona da loja de caixões, lembre-se de enviar um caixão de qualidade como presente.]
[Regra 4: Antes de escurecer, volte para casa e tranque a porta. Não importa que barulhos ouça, não faça barulho e não abra a porta.]
[Regra 5: A família Wu é a mais rica da vila, convidou gente de todas as partes. Não importa o que veja, não faça barulho, feche os olhos... Tudo é ilusão.]
Essas eram as regras que Yan Rui, como dona da funerária, deveria cumprir.
As regras de Lu Yuanliang eram semelhantes às de Yan Rui, exceto pela segunda. Ele era dono da loja de bonecos de papel, então, caso alguém quisesse comprar um boneco, também deveria responder que não havia mais.
O restante era igual.
Ambos usaram seus dons para analisar as regras um e cinco; a primeira tinha uma contradição.
Yan Rui descobriu que era permitido rezar durante o dia, mas não à noite.
O dom de Lu Yuanliang permitia eliminar uma informação falsa. A quinta regra foi descartada.
Ou seja, tudo o que vissem na casa dos Wu era real.
Será que o que os moradores viam era diferente do que eles viam?
O grupo de Qin Shu mergulhou no silêncio.
Após os desafios anteriores, Qin Shu estava quase certa de que a pista principal desse desafio estava na casa dos Wu.
— Hoje é o segundo dia. A liteira da noiva chegará à casa dos Wu na manhã do quinto dia, então ela irá ao templo ancestral e, só à noite, será realizada a cerimônia.
Qin Shu indicou a regra dos moradores: “Regra 4: Antes de escurecer, volte para casa e tranque a porta. Não importa o que ouça, não faça barulho e não abra a porta.”
Além disso, havia as regras recebidas ao entrarem na vila:
[Regra 1: Durante o dia, pode andar livremente pela Vila Antiga da Lua Sangrenta.]
[Regra 2: À noite, deve encontrar um lugar seguro; caso contrário, arque com as consequências.]
— Então, somos aventureiros na vila ou... moradores?
Yan Rui e Du Wenxing ficaram arrepiados.
Qin Shu os alertou: entre noite e dia há grandes contradições.
— Na noite do quinto dia, todos os moradores vão à casa dos Wu para a cerimônia. Isso significa que, à noite, é permitido sair.
Xu Xing curvou os lábios.
— Certo, pode sair, mas o perigo também estará à espreita — Qin Shu assentiu. — E cada um enfrentará perigos diferentes.
— Passamos todos pela mesma situação ontem à noite — Qin Shu afirmou, certa de que o que lhe aconteceu foi parecido com o que Xu Xing e os outros enfrentaram.
— Cof, cof... Ontem à noite, bateram na minha porta querendo comprar um boneco de papel. Não abri — Lu Yuanliang tossiu, ainda assustado pela noite anterior.
Só Deus sabia como ele conseguiu resistir.
Yan Rui assentiu:
— Comigo foi parecido, uma entidade bateu querendo comprar um caixão.
— Não é igual! — Du Wenxing, que estivera em silêncio até então, finalmente falou, olhando para Qin Shu.
Um frio percorreu a espinha de Qin Shu quando encontrou o olhar gélido dele. Em sua mente, voltou a cena da noite anterior: mesmo de olhos fechados, ainda sentia o rosto daquela entidade quase encostando no seu.
Todos a encararam, olhos cheios de desconfiança.