Prólogo
Dentro do majestoso salão envolto em névoa, no final de uma escadaria de jade azul que se estendia por dezenas de metros, um homem trajando um manto dourado estava sentado ereto numa gigantesca cadeira de alabastro, pura como a neve.
O esplendor dourado do grande salão contrastava com a desordem que reinava. No chão, espalhavam-se armas partidas — machados, alabardas, ganchos, lanças — junto com toda sorte de tesouros raros, enquanto várias das colossais colunas entalhadas com dragões estavam quebradas, restando apenas os tocos. O ambiente, antes imponente e austero, agora mergulhava num silêncio absoluto; além do homem de manto dourado, nenhuma outra presença vivente se fazia notar.
O homem, alheio à devastação ao seu redor, mantinha o olhar fixo e vazio num objeto próximo ao solo. Sobre uma grande placa, quase metade dela destruída, reluziam duas imensas letras douradas que exalavam uma aura de autoridade: “Céus Elevados”.
De súbito, um estrondo retumbante ecoou. Todo o salão estremeceu levemente, e, nos cantos, surgiram intricados padrões prateados de energia espiritual, que rapidamente se entrelaçaram em sucessivas camadas, até cobrirem a vasta extensão do salão como uma gigantesca teia cintilante.
Do lado de fora, trovões ribombavam sem cessar, enquanto dentro, as linhas prateadas pulsavam e reluziam com furor. O chão fendeu-se, o teto gemeu sob o peso de uma dor invisível.
“Enfim, chegou o momento...” murmurou o homem em dourado, erguendo finalmente o rosto para o topo do salão. Uma tênue luz branca cobria-lhe as feições, tornando impossível distinguir-lhe o semblante.
No ápice do teto, de tom púrpura e dourado, ouviu-se um estrondo. O forro estalou e cedeu, e, entre os detritos que voavam, uma mão demoníaca, colossal como uma montanha, desceu furiosa para agarrar o homem de dourado.
...
Uma montanha dourada, com mais de dez mil metros de altura, estava envolta em chamas verdes que se estendiam até onde a vista alcançava. Desde o topo, no mosteiro, ressoavam incessantes cânticos sagrados e melodias budistas, enquanto incontáveis caracteres dourados dançavam no ar, tentando em vão repelir as línguas de fogo demoníaco.
Com o passar do tempo, menos caracteres escapavam da montanha, e os cânticos sagrados tornavam-se cada vez mais fracos, até serem completamente engolidos pelo mar de chamas verdes, mergulhando o silêncio absoluto.
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No sombrio submundo, diante do portão de uma sinistra cidade negra, uma horda de criaturas e espectros grotescos avançava aos gritos, em uma torrente desenfreada. Alguns fantasmas eram carregados por ventos monstruosos, outros mergulhavam no solo e desapareciam, como um dilúvio de águas impetuosas, espalhando-se e sumindo pela vastidão cinzenta do ermo exterior.
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No mundo dos mortais! Meio-dia!
O céu era negro como tinta, nenhuma luz do sol atravessava o véu sombrio; cidades e campos pareciam mergulhados na noite, salvos apenas por lampejos dispersos de lanternas. Em algumas vilas e cidades, à luz trêmula das chamas, enxergavam-se multidões de pessoas fitando o céu escuro, ora boquiabertos, ora tomados de pavor.
De repente, do alto, ergueram-se longas e angustiantes lamúrias, cada vez mais intensas e agudas, como o choro de milhares de vozes, provocando uma tristeza cortante nos corações dos que as ouviam, levando muitos às lágrimas.
Quase ao mesmo tempo, milhares de pontos vermelhos brilharam no céu, e meteoros escarlates, grandes como montanhas ou do tamanho de casas, romperam a escuridão. Com estrondos ensurdecedores, despencaram sobre o mundo dos homens, espalhando-se pelos quatro continentes.
Na era da Grande Tang, surgiram demônios devoradores dos céus; o próprio firmamento chorou, lançando fogo sobre a Terra, e incontáveis inocentes pereceram. — Dos “Anais do Cataclismo Demoníaco”