Capítulo Sete: Crônicas da Expulsão dos Demônios
Pelo nome, parecia ser um relato das aventuras do Mestre Celestial Zhang em sua luta contra monstros, semelhante aos romances populares que ele já havia visto antes — provavelmente histórias fantásticas inventadas por gerações posteriores. Shen Luo não deu muita atenção, sacudiu a poeira acumulada na capa e guardou o livro em sua bolsa de mangas.
Depois, examinou as demais mesas e cadeiras do quarto, mas nada mais encontrou de valor. Sem outras opções, deixou o depósito e voltou ao Pátio das Pedras Azuis.
O quarto silencioso do Pátio das Pedras Azuis era um edifício de dois andares, com cerca de vinte quartos pequenos em cada piso, onde residia parte dos discípulos do templo. O quarto de Shen Luo ficava no térreo, no canto direito, vizinho ao precipício.
Os quartos dos discípulos eram modestos, contendo apenas uma cama e uma mesa com cadeiras, sem outros objetos; o de Shen Luo não era diferente. Ao abrir a porta, foi recebido por um forte aroma de pinho, que o fez franzir o nariz involuntariamente.
No templo, havia muitos incensos de sândalo e pinho, e nunca se proibiu seu uso pelos discípulos. Durante a meditação, esses aromas auxiliam na concentração e facilitam o estado meditativo. Outros, porém, acendiam apenas uma vareta, deixando um leve perfume no ar; nunca como Shen Luo, que saturava o ambiente a ponto de tornar o cheiro quase sufocante.
Mas não havia alternativa. Seu quarto era sombreado por um pinheiro torto junto ao precipício, tornando-o úmido e frio. Sobre a mesa encostada à parede, estavam empilhados dezenas de livros antigos que Shen Luo havia coletado por todo o templo, muitos cobertos de manchas de mofo, exalando um odor desagradável.
Sem o aroma do pinho para mascarar, seria impossível permanecer ali.
Shen Luo já estava acostumado. Sentou-se à mesa encostada à parede, retirou da bolsa de mangas o recém-adquirido “Relatos das Aventuras do Mestre Celestial Zhang” e colocou-o sobre a mesa.
Apesar das manchas de mofo na capa, o livro estava em bom estado, melhor até que grande parte dos volumes de sua coleção.
Primeiro, pegou o bule de água e bebeu vários goles até esvaziar metade, descansou por alguns minutos e, só então, sentiu-se revigorado.
Ao abrir o livro, revelou-se a folha de rosto, amarelada pelo tempo, com o desenho de um sacerdote baixo e corpulento, coroado com uma tiara de lótus e vestido com um manto de sete estrelas. Uma mão formava um gesto ritual, enquanto a outra segurava uma espada, exibindo uma expressão feroz de guardião.
Devia ser o retrato do Mestre Celestial Zhang, embora os traços fossem rudes e a intenção mais livre do que realista; se o homem fosse realmente assim, seria mais temível que qualquer demônio.
Shen Luo sorriu, virou a folha e começou a ler o conteúdo. Logo sua atenção foi capturada: o livro era de fato um romance fantástico, narrando as façanhas do Mestre Celestial Zhang ao subjugar monstros e fantasmas na região de Lingnan.
Não havia registro de datas, impossibilitando a verificação do período, mas os nomes dos lugares eram claros e podiam ser encontrados nos mapas atuais, sugerindo que os relatos não eram tão antigos.
O Mestre Celestial Zhang era um verdadeiro adepto do Dao, dominando técnicas secretas de alquimia e talismãs, capaz de criar elixires e desenhar amuletos. No livro, derrotou mais de uma dezena de fantasmas e criaturas como espíritos de ratos e raposas encantadas.
Essas histórias fantásticas não eram novidade para Shen Luo; já lera muitas semelhantes, e mesmo as magias descritas eram menos variadas e interessantes do que em outros romances. Eram tramas comuns de fantasmas atormentando pessoas e monstros seduzindo corações.
O que, no entanto, prendeu Shen Luo foi a descrição detalhada das técnicas empregadas contra os fantasmas, os procedimentos escritos com precisão. Em um dos relatos, por exemplo, um abastado senhor era atormentado por uma raposa encantada; o Mestre Celestial Zhang lhe presenteou com uma escova ritual, instruindo-o a pendurá-la sobre a porta para afastar definitivamente o espírito.
O livro mencionava também métodos peculiares, como desenhar talismãs com sangue de cão preto, usar facas de açougueiro para subjugar fantasmas, ou moedas antigas como proteção.
Em alguns finais de histórias, havia até ilustrações dos talismãs utilizados, traços ágeis e vigorosos, como se feitos num só fôlego, conferindo-lhes uma aura singular.
Ao examinar com atenção, Shen Luo percebeu algo estranho. Alguns talismãs, que já vira colados nas portas do templo ou em outros livros, tinham nomes e formas semelhantes aos do livro, mas os detalhes dos traços diferiam consideravelmente.
Após algumas olhadas, Shen Luo começou a vasculhar a pilha de livros antigos sobre a mesa e logo encontrou um volume ainda mais deteriorado, sem capa, do qual apenas umas poucas páginas da frente eram legíveis; o restante estava colado e podre, e bastava um toque para despedaçar-se.
Este livro se chamava “Verdadeiro Compêndio dos Talismãs Secretos”, uma obra dedicada a registrar talismãs antigos, suas regras de criação e uso, além de várias advertências.
Segundo esse compêndio, os talismãs eram divididos em três categorias: “transformação”, “restrição” e “ataque”. Talismãs como o de afastar pessoas indesejadas e de dissipar calamidades pertenciam à primeira; os de proteção e os de casa à segunda; já os talismãs de ataque eram pouco descritos, mas mencionavam nomes como “Talismã de Fogo” e “Talismã do Relâmpago Menor”.
Entre todas as categorias, Shen Luo se interessava principalmente pelos talismãs de ataque. A cena em que o Mestre Luo ativou um talismã amarelo para dissipar a energia sombria havia marcado profundamente sua memória.
Infelizmente, os livros que Shen Luo podia consultar traziam pouquíssimas informações sobre esse tipo de talismã, envoltos em mistério. Se um dia enfrentasse espíritos malignos, talismãs de proteção poderiam garantir segurança, mas diante de fantasmas reais, seria mais prudente ter talismãs de ataque à mão.
O problema era que as páginas disponíveis só continham generalidades; as descrições sobre os efeitos e métodos de desenho dos talismãs estavam todas nas páginas posteriores, impossíveis de consultar.
Shen Luo folheou as páginas iniciais e notou que o talismã de proteção ainda estava preservado. Por coincidência, o “Relatos das Aventuras do Mestre Celestial Zhang” também trazia esse talismã, então imediatamente comparou ambos.
— Ora, são mesmo idênticos! — murmurou, inspirando fundo.
“Dong...”
Nesse momento, o som do tambor vespertino ecoou, despertando Shen Luo de seus pensamentos.
Ergueu o olhar para o céu pela janela e percebeu, surpreso, que já era fim de tarde.
Desde que subira a montanha, Shen Luo se interessava pelas questões de espíritos e monstros. No dia a dia, além de treinar a técnica menor de transformação solar, não podia praticar outras artes de combate como a “Mão do Sol Verde”, então dedicava a maior parte do tempo à leitura desses livros.
Sem perceber, passara quase todo o dia assim.
Sacudiu a cabeça e sorriu para si mesmo, organizou os livros sobre a mesa, levantou-se e saiu do quarto.
Atrás do Salão dos Três Purificados, à direita, havia um precipício plano de quase cem metros, onde foram construídos pequenos pátios independentes. Ali residiam os discípulos da ordem interna, cada qual em seu próprio pátio, separados dos demais.
Àquela altura, o céu já estava escuro, e diante de um dos pátios, três figuras se reuniam.