Capítulo Dezesseis: Avançando Sem Recuar
“Nem pense nisso!”
Shen Luo rugiu em seu íntimo, ativando desesperadamente a Pequena Arte de Transformação Solar.
Uma camada de luz vermelha irrompeu de seu corpo, tentando resistir àquela presença invisível que o atacava.
Ao mesmo tempo, uma força de energia solar pura foi injetada freneticamente no símbolo rúnico em seu peito. Embora fosse a primeira vez que tentava usar tal símbolo para expulsar fantasmas, a situação era tão crítica que não havia outra escolha senão arriscar tudo.
Para sua decepção, além de sentir um leve calor no local onde o símbolo estava desenhado em sua roupa, nada mais aconteceu.
Mas, logo em seguida, Shen Luo sentiu um calor estranho nos olhos e, em seguida, tudo ficou escuro diante de si. Uma sombra negra apareceu em sua frente.
Aquela figura tinha mais de três metros de altura, cabelos compridos que se arrastavam no chão, cobrindo o rosto de modo que não era possível ver suas feições. Apenas dois olhos vermelhos podiam ser vislumbrados, exalando uma malevolência assustadora e uma fome voraz por vida.
Seus dois longos braços envoltos em névoa negra estavam apertando o pescoço de Shen Luo!
“É mesmo um fantasma!”
O coração de Shen Luo gelou de pavor. Mesmo com a respiração tornando-se impossível, por instinto desferiu um chute em direção à criatura.
Antes que pudesse alcançar o fantasma, este emitiu um uivo lancinante e agudo.
Shen Luo sentiu um zumbido atordoante na cabeça; a luz vermelha ao redor de seu corpo se desfez com estrondo, e de seus olhos, ouvidos, boca e nariz, jorrou um calor intenso. Sua visão ficou tingida de vermelho, e os demais sentidos turvos.
As mãos geladas que apertavam sua garganta ficaram ainda mais firmes. A consciência de Shen Luo se esvaía aos poucos. Sua perna, lançada num chute, paralisou-se no ar e depois caiu, inerte.
Ele ouviu vagamente um trovão estrondoso no céu, seguido de uma chuva torrencial que despejou-se abruptamente. Depois disso, não soube de mais nada.
...
Em meio à confusão, Shen Luo sentiu-se imerso em trevas infinitas. Não havia um som sequer ao redor; tudo era silêncio absoluto.
Tentou abrir os olhos, mas parecia ter perdido o controle sobre o próprio corpo — nem as pálpebras se moviam, tampouco conseguia mexer mãos ou pés.
Sabia, ainda que vagamente, que aquilo não era normal. No entanto, um cansaço profundo, vindo do âmago de seu ser, o fazia desejar abandonar-se, deitar ali sem fazer nada, apenas descansar.
Nesse momento, um som de insetos soou repentinamente em seus ouvidos, rompendo o silêncio.
Shen Luo estremeceu e abriu os olhos de repente.
No instante seguinte, ficou atônito ao perceber que estava, mais uma vez, deitado na estrada rural.
A trilha familiar, os campos conhecidos, a névoa noturna, a lua curva... E, ao longe, o vilarejo semioculto na neblina, com luzes tremulando ao longe.
“Algo está errado! Sonhos não podem ser tão reais, e tampouco a realidade pode se repetir assim! Que lugar é esse, afinal?” Shen Luo saltou do chão, tomado por mil pensamentos.
De repente, lembrando-se de algo, agachou-se e cavou um punhado de terra.
A superfície da estrada estava úmida pelo orvalho, mas abaixo era seca. Quando perdera a consciência, testemunhara uma tempestade despencar do céu. Ainda que não soubesse por quanto tempo choveu, o chão jamais estaria tão seco.
Olhou em volta, ao longo da estrada, e não viu pegadas, mesmo tendo corrido diversas vezes naquele trecho. Era impossível não haver vestígios de sua passagem.
“Será que este lugar se reconstrói ou repete tudo sem parar? Não fui morto pelo fantasma, mas sim revivi, voltando ao momento em que entrei aqui?” Shen Luo, que já lera toda sorte de histórias estranhas em livros, deduziu rapidamente uma hipótese.
Lembrou-se então de algo, ergueu a mão e examinou o dedo indicador, que mordera ao desenhar o símbolo rúnico. Agora, a pele estava lisa, sem qualquer ferida.
“É isso mesmo, mas isso é absurdo demais!” Um lampejo de pavor cruzou os olhos de Shen Luo.
Compreendendo um pouco do que lhe acontecia, sua mente, antes tensa, relaxou ligeiramente, tornando-se mais calma.
Mas logo se lembrou do que enfrentara antes. Sabia que em breve o fantasma voltaria a atacá-lo, e franziu o cenho.
Embora soubesse que ali parecia ser possível renascer, deparar-se novamente com aquele espectro e ser estrangulado, uma e outra vez, era algo que jamais desejaria.
Além disso, não podia ter certeza de que, após ter renascido duas vezes, conseguiria fazê-lo uma terceira.
E se não pudesse mais “reviver”?
Sua vida era única, não podia apostar assim!
Diante disso, restava apenas lutar com tudo o que tinha!
Refletindo em silêncio, o medo dissipou-se em grande parte, dando lugar a uma ousadia inquieta. Começou a recordar todos os métodos de exorcismo que já lera em velhos tratados.
De repente, tirou a camisa, mordeu o dedo e, com o próprio sangue, desenhou diferentes talismãs no corpo, traçando um total de oito antes de parar.
Não foi por falta de vontade de continuar, mas porque, a cada símbolo desenhado, sentia suas forças esvaírem, como se sugadas de dentro de si.
Após oito talismãs, já estava exausto. Se continuasse, temia prejudicar sua mobilidade.
Eram todos símbolos que aprendera e copiara em seus estudos, incluindo o “Pequeno Talismã do Trovão” que testara anteriormente. Não sabia exatamente para que servia, mas em momentos assim, qualquer proteção era melhor do que nada.
Vestiu-se rapidamente. Com a experiência anterior de estar “preso em um labirinto”, não tentou outros caminhos, mas correu direto em direção ao vilarejo.
Nunca fora alguém que fugisse de problemas, apenas se deixara abalar pelo estranhamento de tudo aquilo. Agora, tendo compreendido um pouco a situação, decidiu por fim investigar o que estava acontecendo.
Queria saber se, escapando da perseguição do fantasma ou até destruindo-o, conseguiria finalmente deixar aquele lugar.
Num piscar de olhos, chegou à entrada da aldeia.
Ali, dois troncos de madeira cruzados bloqueavam o caminho, exatamente como vira ao entrar pela primeira vez.
Ao deparar-se com essa cena, sua certeza na própria teoria aumentou.
Prestando atenção, lembrou-se de algo. Agachou-se, recolheu os dois troncos e prendeu-os na cintura, seguindo então em direção à casa iluminada.
Chegando à porta, pegou um punhado de cinzas do altar tombado à frente e, num salto, postou-se diante da entrada. Sem esperar que sangue escorresse pela soleira, ergueu o pé e desferiu um chute violento na porta de madeira.
Com um estrondo, a porta se escancarou.
A cena por trás dela o surpreendeu.
Diante dele, uma menina magra de sete ou oito anos, vestida com roupas curtas e cinzentas, tremia de medo, segurando contra o peito um balde de madeira cheio de sangue negro, prestes a despejá-lo na soleira.
Surpresa com a entrada abrupta de Shen Luo, a garotinha recuou alguns passos, apavorada.
Shen Luo logo retomou a compostura e ignorou a menina, varrendo o olhar pelo interior do cômodo até pousar num canto, onde jazia o cadáver enrijecido de um cão negro, sem um único pelo de outra cor.
“Sangue de cão negro...” murmurou, olhando o balde na mão da garota e franzindo a testa antes de desviar o olhar novamente.
Ao lado do cão estava uma cama de madeira, sobre a qual repousava um ancião de cabelos brancos, olhos fechados, imóvel como se estivesse em coma.
No centro do cômodo, havia ainda um altar, com velas acesas e uma pequena estátua de divindade, com cabeça de cachorro e corpo humano.
Além disso, as paredes, portas e janelas estavam todas manchadas com sangue negro, evidentemente aplicado de propósito.