Capítulo Trinta e Dois: Cercados pelos Lobos Demoníacos
Guiado por Yu Meng, Shen Luo chegou rapidamente ao refeitório.
— Hoje à noite teremos frango! Ora, Shen, estou mesmo a aproveitar a tua sorte — disse Yu Meng, olhando para os pratos sobre a mesa, a boca já cheia de água.
Na mesa, encontrava-se uma refeição posta, composta em sua maioria por pratos vegetarianos, mas também havia três travessas de carne: duas com pedaços escuros e uma com um frango inteiro assado ao molho.
No entanto, para Shen Luo, aquelas iguarias pareciam bastante simples. Quando estava em casa, no condado de Chunhua, qualquer refeição comum superava em muito aquela fartura.
A comida nesta época parecia realmente escassa!
Nesse momento, Yu Meng já não se continha e estendeu uma das mãos grandes em direção à coxa de frango.
— Rapaz insolente! O convidado ainda não tocou nos talheres e tu já começas, ainda por cima com as mãos? Onde estão os teus modos? Por acaso és um daqueles bárbaros das estepes de Nanli? — Uma voz fria ecoou ao lado, e da sala contígua saiu Yu Yan, o rosto carregado de ira.
— Pai, o senhor chegou — disse Yu Meng, retirando a mão apressado e falando com embaraço.
— Tio Yu, há pouco, ao passar pela sua biblioteca com o irmão Yu, entramos para ler alguns livros e acabámos por perder a noção do tempo. Peço desculpa pela descortesia! — levantou-se Shen Luo, cumprimentando respeitosamente.
— Então meu estimado sobrinho foi ler? Raramente alguém usa aquela biblioteca. Conseguiu aproveitar algo? — Yu Yan mudou o tom, dirigindo-se a Shen Luo.
— Agradeço, tio. De fato, aprendi um pouco — respondeu Shen Luo em voz baixa.
— Que bom. E tu, rapaz, só sabes correr por aí, sem aprender nada. Se tivesses metade da perseverança de Shen, talvez aprendesses alguma coisa útil comigo — Yu Yan assentiu e voltou-se para Yu Meng, repreendendo-o.
— Os livros lá, pai, o senhor quase nem lê... Só estão lá para enfeitar... — murmurou Yu Meng, coçando o nariz.
— Cale-se! — Yu Yan bateu com força na mesa.
Yu Meng ficou em silêncio, sem ousar responder.
— Basta, não falemos mais nisso. Vocês trabalharam muito defendendo a cidade hoje. Vamos jantar — suspirou Yu Yan, vendo o filho calado, mas ainda com um ar teimoso. Fez um gesto para que ambos se sentassem e pegou nos pauzinhos.
Yu Meng, esfomeado após meio dia de batalhas, sentou-se sem cerimônia e começou a comer com entusiasmo.
Shen Luo também estava com fome, mas, como convidado, não podia comportar-se como Yu Meng.
Mal se sentara, Yu Meng colocou-lhe uma coxa de frango no prato.
— Vamos, come mais! Só assim terá forças para matar esses lobos demoníacos!
— Esses lobos voltarão a atacar? — Shen Luo não pôde deixar de se lembrar do monstro com cabeça de lobo e corpo de homem, e do grande lobo cinzento de movimentos furtivos.
— Pelo que costumamos ver, eles não desistem facilmente. Pai, o que acha? — Yu Meng, já com a boca cheia, olhou para Yu Yan e perguntou, com as palavras algo embaralhadas.
— É difícil dizer. A delegacia já enviou gente para investigar a origem dos lobos, mas a besta líder está cada vez mais astuta. Por ora, ainda não conseguimos prever seus próximos passos — respondeu Yu Yan, com uma sombra de preocupação no olhar.
— Sendo assim, esta noite vou até o portão da cidade fazer guarda, caso haja algum imprevisto — disse Yu Meng, levantando-se.
— Eu também vou, posso ajudar o irmão Yu — apressou-se Shen Luo.
— Não há necessidade. Vocês já trabalharam muito. Esta noite, descansem em casa. A troca de turnos será feita conforme as ordens — disse Yu Yan, fazendo um gesto com a mão.
— Muito bem, pai, se houver qualquer ordem do governo da cidade, avise-me com antecedência — concordou Yu Meng.
Yu Yan não respondeu, apenas acenou para que os dois se sentassem e continuassem a refeição.
— Pai, hoje quando fui comprar papel de talismã e cinábrio para si, aconteceu uma coisa curiosa... — começou Yu Meng, falador como sempre, contando histórias sem parar.
Yu Yan olhava para o filho, com expressão fria, mas nos olhos havia um brilho de afeto.
Shen Luo ocasionalmente dizia algo, e o jantar terminou entre conversas agradáveis, deixando todos satisfeitos.
— Ninguém sabe quanto tempo vai durar este cerco dos lobos demoníacos. Shen, se quiser, pode continuar hospedado em minha casa — disse Yu Meng, sorrindo de repente.
Shen Luo sentiu-se tentado pela proposta.
Por ora, não encontrava forma de regressar à realidade. Ficar ali parecia uma boa ideia: poderia continuar suas pesquisas para desvendar o mistério daquele sonho e, quem sabe, aprender com Yu Yan alguma técnica de talismãs.
— Shen, de onde és? — perguntou Yu Yan, pousando os talheres e tomando um gole de chá.
— Sou do condado de Chunhua, em Dengping — respondeu Shen Luo, sem mentir sobre sua origem.
Yu Yan era um homem experiente e talvez já tivesse deduzido sua proveniência pelo sotaque ou pelas roupas. Tentar enganá-lo seria arriscado.
— Chunhua, em Dengping? Ouvi dizer que há poucos anos foi destruído por uma onda de feras — exclamou Yu Meng, surpreso.
— Vivo numa aldeia isolada perto de Chunhua, que por ora ainda está a salvo — respondeu Shen Luo, de modo vago.
— Com tantos demônios e monstros por aí, por que saiu de casa, Shen? — perguntou Yu Yan, pousando a chávena.
— Saí há algum tempo por motivos pessoais, mas acabei por perder-me no caminho e, sem querer, entrei nos domínios do condado Donglai. Mal cheguei, fiquei preso aqui — explicou Shen Luo, já tendo preparado sua história.
— Tiveste sorte em conseguir entrar na cidade com vida... O mundo está em caos, o povo sofre. Que os imortais e budas desçam logo para acabar com este tormento e salvar o povo — disse Yu Yan, convencido pela naturalidade de Shen Luo. Colocou uma mão sobre o peito e rezou em voz baixa.
Yu Meng baixou a cabeça, fazendo também sua oração em silêncio.
— Tio Yu, irmão Yu, sempre tive uma dúvida: por que há tantos lobos atacando esta cidade? — perguntou Shen Luo, após breve silêncio.
— Ora, de tempos em tempos, manadas de feras e monstros atacam as cidades humanas. Isso sempre foi assim, não é? — respondeu Yu Meng, coçando a cabeça, surpreso com a pergunta.
— Na verdade, só queria saber de onde vêm esses lobos — esclareceu Shen Luo.
Pai e filho trocaram um olhar, estranhando a pergunta.
— Shen, não conheces a lenda do “Demônio que devora os céus e o fogo celeste que cai sobre o mundo”? — perguntou Yu Meng.
— Para ser sincero, venho de uma aldeia tão remota que praticamente vivíamos isolados do mundo. Por isso, sei pouco do que se passa fora de lá — respondeu Shen Luo, com calma.
— Assim entendo. Não admira que achasse tua roupa um tanto estranha quando chegaste — disse Yu Meng, compreendendo.
— Se ignoras tudo sobre o mundo, então é bom começar do princípio — disse Yu Yan, após breve silêncio.
— Estou atento e pronto a ouvir! — respondeu Shen Luo.