Capítulo Vinte e Quatro: Outro sonho?
Uma noite sem sonhos passou e, ao raiar do dia seguinte, Shen Luo despertou. Não sabia se era por cansaço ou porque, após devolver o travesseiro de jade ao seu devido lugar, sentia-se mais leve; o fato é que dormira profundamente, com um sono particularmente doce.
Ao acordar, sentia-se revigorado e, após lavar-se, dirigiu-se ao Salão do Imperador de Jade para cultivar, mantendo-se em ótimo estado durante todo o dia. O único contratempo foi que, nessa noite, por motivos desconhecidos, sofreu de certa insônia. Contudo, ao chegar o terceiro dia e dormir tranquilamente outra vez, finalmente sentiu-se aliviado da ansiedade que o consumia.
Alguns dias depois, já noite adentro, Shen Luo acendeu a lamparina de óleo e sentou-se à mesa, folheando o volume “Crônicas do Exorcismo do Mestre Celestial Zhang”. Ao lado, repousava uma pilha de papel de arroz e o pequeno pincel de cerdas duras. Embora os pesadelos tivessem aparentemente se afastado, a eficácia salvadora dos talismãs descritos no livro, vivida em sonho, permaneceu gravada em sua mente. Por isso, desde anteontem, todas as noites, continuava a copiar os talismãs apresentados na obra.
Naturalmente, o principal dentre eles era o talismã ofensivo que mais valorizava: o “Pequeno Trovão”. Não tivera muitas oportunidades de praticá-lo antes, pois não fazia tanto tempo que possuía o livro, mas desenhar talismãs tinha algo em comum com a caligrafia — a prática constante jamais era em vão.
Contudo, ao desenhar talismãs, era preciso canalizar o espírito. Se buscasse apenas semelhança de traços, era fácil, bastando um gesto casual. Mas dar-lhes um toque de verdadeira essência exigia grande concentração. Após desenhar mais de uma dezena, Shen Luo já se sentia esgotado. Massageou as têmporas doloridas, arrumou os apetrechos e, deitando-se, logo sentiu o sono envolvê-lo, seu espírito afundando subitamente.
...
Não se sabe quanto tempo passou. Quando Shen Luo se encontrava entre o sono e o despertar, um grito lancinante ecoou a seus ouvidos, acompanhado de um forte odor de sangue. Assustado, abriu os olhos de súbito e, horrorizado, viu diante de si um rosto monstruoso, coberto de sangue, com olhos arregalados e colados quase ao seu, exibindo um olhar de puro terror.
“Ah...”
Um grito escapou-lhe e, com as mãos, empurrou com violência o corpo que estava sobre ele, arremessando-o para o lado.
Antes que pudesse entender o que acontecia, uma rajada fétida e nauseante soprou sobre sua cabeça. Suas pupilas se dilataram ao avistar uma imensa cabeça de lobo cinzento, de mandíbula aberta e dentes irregulares ainda manchados de carne e sangue, prestes a cravar-se em seu pescoço.
Em pânico, a mente vazia, reagiu por puro instinto: contorceu o corpo num rolamento para o lado, escapando por um triz das presas pútridas. Logo em seguida, sentiu uma dor esmagadora nas pernas — era o corpo enorme do lobo cinzento, que o prensara sob si.
Na cidade de Primavera Florida, já vira carcaças de lobos caçados, maiores que qualquer cão de caça local, mas o animal que o esmagava agora era ainda mais imponente.
Forçando-se a manter a calma, Shen Luo não teve tempo de refletir sobre os acontecimentos: suportou o peso e lutou para se desvencilhar. Contudo, o lobo era demasiado pesado, e seus esforços eram em vão. Ao contrário, o lobo recuou bruscamente e se pôs em pé.
Antes que Shen Luo conseguisse se soltar, uma nova lufada fétida atingiu seu rosto — o lobo girara a cabeça e avançava para morder-lhe o pescoço. Agora mais alerta, Shen Luo desviou de lado, abraçando o pescoço da fera e tentando montar-lhe as costas.
Mas o lobo não lhe deu oportunidade: baixou o corpo de súbito, derrubando ambos ao chão.
Shen Luo foi esmagado, mas não afrouxou os braços, apertando com toda a força o pescoço do animal, os ombros tensionados como se quisesse quebrá-lo. O lobo, claro, não se rendeu e, num ímpeto, pôs-se de pé, sacudindo a cabeça para livrar-se do adversário. Shen Luo sabia que, se fosse lançado longe, dificilmente escaparia das presas. Por isso, além de manter o aperto, agarrou o ventre do lobo com as pernas, pendurando-se como um macaco.
O lobo rosnava baixo, saltava e se chocava repetidas vezes contra a parede, tentando livrar-se dele. Shen Luo, finalmente com algum apoio para mãos e pernas, não cedeu. Também ele soltou um rugido bestial, as veias saltando nos braços ao empregar toda a força, apertando ainda mais o pescoço do animal.
O lobo debatia-se violentamente, arrastando o corpo de Shen Luo pelo chão. Este, cerrando os dentes, enterrou o rosto no pescoço da fera, decidido a não largar, nem que fosse para morrer junto.
A pressão aumentava e, pouco a pouco, o lobo começou a respirar com dificuldade, resfolegando pesadamente.
Alguns instantes depois, os passos do lobo vacilaram e ele tombou junto ao muro. Shen Luo, suando em bicas, não sabia se a fera estava, de fato, morta, mas manteve o aperto. A mão esquerda segurava com força o braço direito, a ponto de deixar hematomas azulados. Só quando o corpo sob ele parou de tremer por completo, soltou lentamente as mãos e se arrastou para fora.
O lobo jazia morto, a língua vermelha pendendo entre as presas, a boca espumando sangue. Shen Luo, atordoado e ofegante após sobreviver, só então teve tempo de olhar ao redor e tentar entender o que se passava.
A visão, porém, deixou-o ainda mais desalentado. Ele se encontrava à beira de uma muralha parcialmente destruída, onde vários homens jovens e robustos, armados de diferentes instrumentos, lutavam ferozmente contra dezenas de lobos cinzentos de porte descomunal. As vestimentas e armas desses guerreiros eram variadas: alguns trajavam armaduras toscas de placas de ferro, outros empunhavam lanças de aço refinado, alguns combatiam de peito nu com martelos de bronze, atacando os lobos em grupos.
“Será que isto é outro sonho?”, ponderou Shen Luo, confuso.
Mal pensara nisso, sentiu uma dor lancinante na coxa. Ao olhar, percebeu que, durante a luta, ferira a perna sem notar e agora metade da calça se tingia de sangue.
Fez uma careta e pensava em buscar algo para estancar o ferimento, quando uma nova lufada fétida o envolveu. Outro lobo cinzento, surgindo de lado, atirou-se sobre ele, lançando-o com violência. Sentiu uma dor aguda na cintura e, como um saco vazio, foi arremessado pela brecha da muralha, caindo para fora da cidade.
No instante da queda, pôde ver que, do lado exterior, uma imensa massa negra se estendia: lobos por toda parte, enchendo o fosso e empilhando-se uns sobre os outros como formigas, escalando a parede.
Entre eles, destacavam-se alguns lobos negros, o dobro do tamanho dos cinzentos, com presas curvas e olhos ferozes — verdadeiros monstros selvagens.
Antes que pudesse distinguir mais detalhes, seu corpo despencou pesadamente sobre a horda de lobos.
As feras, que antes tentavam escalar a muralha, voltaram-se e o cercaram, atacando-o com fúria. Sem possibilidade de reagir, Shen Luo teve as pernas, braços, ombros e pescoço cravados por bocas repletas de dentes.
Sentiu uma dor insuportável por todo o corpo, a visão se turvou, e mergulhou outra vez nas trevas sem fim.