Capítulo Oitenta e Dois: Olhar os Outros com Desdém

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4163 palavras 2026-01-30 16:22:46

Quando a luz do lenço atingiu determinado limite, ouviu-se apenas um “puf”, e uma névoa branca começou a jorrar de dentro do lenço, girando ao redor sem se dissipar. Em poucos instantes, uma nuvem branca do tamanho de uma casa surgiu, flutuando suavemente no ar, como se um pedaço de madeira boiasse na água.

Todas essas transformações deixaram Shen Luo profundamente surpreso. O Daoísta Luo levantou a mão com aparente descuido, e a nuvem branca desceu imediatamente, pairando diante dos dois.

— Vamos — disse ele, subindo com passo firme sobre a nuvem.

Shen Luo hesitou por um instante diante daquele aglomerado etéreo, mordeu levemente os lábios e saltou também. Embora a nuvem parecesse feita apenas de névoa, ao pousar sobre ela sentiu uma força sustentando seu corpo, dando a impressão de pisar em solo firme.

A nuvem suportou o peso dos dois sem vacilar. Shen Luo soltou um suspiro de alívio ao tocar a superfície dela; sentia-se como algodão frio, impossível de agarrar com as mãos.

— Mestre Luo, que tesouro é este? — perguntou, cada vez mais curioso.

— Esta é a Bolsa de Água e Nuvem, um artefato talismânico que utilizo para viajar. Fique firme — respondeu o Daoísta Luo em tom sereno, começando a lançar um feitiço para impulsionar a nuvem.

A nuvem branca tremeu levemente e começou a flutuar em direção ao longe, subindo cada vez mais. Inicialmente, movia-se devagar, mas logo acelerou, ultrapassando em muito a velocidade de um cavalo ao galope.

No céu, a lua cheia brilhava intensamente, iluminando tudo. Sob seus pés, o Templo Chunqiu rapidamente se tornou minúsculo, até caber na palma de uma mão, e toda a Montanha Qinghua parecia um pequeno monte de terra ao longe.

Shen Luo jamais estivera em lugar tão alto. Suas pernas tremiam, e o vento forte fazia até abrir os olhos e respirar ser difícil. Recolheu o olhar do abismo e sentou-se de pernas cruzadas.

Demorou algum tempo até que seu coração se acalmasse. Aos poucos, acostumou-se à velocidade, e deixou de se sentir tão abalado, sendo tomado por uma crescente excitação.

Acima de sua cabeça, o céu noturno repleto de estrelas se estendia ao infinito; abaixo, a vasta terra se perdia de vista. Voar entre o céu e a terra — não era exatamente isso que sempre sonhara?

— Isto sim é a verdadeira cultivação! Um dia, eu, Shen Luo, também viajarei por estes céus com minha própria força! — pensou, cerrando os punhos e jurando em silêncio.

O Daoísta Luo observou a expressão de Shen Luo. Com sua experiência, adivinhava facilmente os pensamentos do jovem, mas não disse palavra de encorajamento, desviando logo o olhar. Para ele, Shen Luo tinha talento medíocre, vida curta e não alcançaria grandes feitos; levá-lo consigo era apenas um último gesto de cuidado.

Meditando assim, Luo concentrou-se e acelerou ainda mais a Bolsa de Água e Nuvem.

Duas horas depois, o céu começou a clarear, e o contorno de uma cidade surgiu à frente. O olhar de Shen Luo brilhou ao reconhecer a cidade natal, o condado de Chunhua.

No caminho, soube pelo mestre Luo que o destino deles era uma vila chamada Vila do Rio Branco, próxima ao condado de Chunhua.

Vendo a cidade aproximar-se rapidamente, Shen Luo não pôde deixar de se admirar. Para ir do Templo Chunqiu ao condado de Chunhua normalmente seria preciso um dia inteiro a cavalo; agora, levaram apenas esse curto tempo, e ainda assim o Daoísta Luo parecia estar longe de usar toda sua força.

Se ao menos ele pudesse ter um artefato talismânico como a Bolsa de Água e Nuvem, viajar seria incrivelmente fácil!

Guiando a nuvem, Luo seguiu diretamente para o nordeste da cidade e logo chegaram a uma vila à beira de um rio. Era a Vila do Rio Branco, batizada assim pelo rio Bai Lian que passava ali. A vila era famosa num raio de cem léguas pela fabricação e tingimento de tecidos; Shen Luo já ouvira falar dela, embora nunca tivesse visitado.

Para não chamar atenção, Luo pousou a nuvem em um lugar ermo fora da vila e seguiu a pé com Shen Luo.

A Vila do Rio Branco era muito maior e mais próspera que a aldeia nos arredores do condado de Songfan, onde Shen Luo estivera antes. Havia muitas lojas, especialmente de tecidos. À beira do rio, uma fileira de oficinas de tingimento, dezenas ao todo, já estavam em plena atividade, mesmo sendo apenas o início da manhã. Tecelões trabalhavam, e rolos de tecido e seda pendiam ao vento, balançando como bandeiras num espetáculo grandioso.

Após perguntar a alguns moradores, os dois logo chegaram a uma mansão cercada por altos muros. Mesmo do lado de fora era possível ver pavilhões e edifícios elegantes; o portão vermelho estava fechado, e sobre ele pendia uma placa dourada com os caracteres “Residência Ma”.

Ali estava o destino deles: a casa de um rico comerciante de tecidos da família Ma, na Vila do Rio Branco.

Diante do portão imponente, Shen Luo sentiu-se tocado.

O sol já nascia, espalhando luz sobre todas as coisas e trazendo vida ao mundo. Mas aquela mansão ainda lhe transmitia uma sensação sombria, como se estivesse envolta numa névoa invisível que impedia a passagem da luz.

— De fato há energia espectral — pensou Shen Luo, sentindo-se secretamente orgulhoso. Rapidamente, baixou o olhar, para não ser notado por Luo.

O Daoísta Luo, atento à situação da mansão, percebeu a anormalidade, mas manteve o rosto impassível, acostumado a tais coisas.

— Vá chamar na porta — disse ele após um tempo, cruzando as mãos atrás das costas e olhando para longe.

Shen Luo assentiu, avançou e bateu com força o anel de bronze da porta.

Depois de um tempo, a porta rangeu e se abriu, e um homem de meia-idade, vestindo azul e ainda sonolento, apareceu.

— Ora, dois pidões logo cedo? Se querem esmola, procurem outro lugar, a casa está ocupada! — ralhou impaciente, lançando-lhes um olhar de desprezo.

Shen Luo, recém-chegado, pensou em interceder educadamente, mas diante do desdém do homem, encheu-se de raiva e exclamou em tom severo:

— Cachorro insolente! Perdeu o juízo? Este é o Mestre Luo do Templo Chunqiu, convidado do senhor Ma! Não vá logo avisar? Se atrasar o mestre, cuidado para não sair daqui sem as pernas!

O homem empalideceu e tremeu ao ouvir isso; o sono se dissipou. Olhou de novo para os dois e, mudando de semblante, inclinou-se em desculpas e correu mansão adentro, deixando a porta entreaberta.

Logo, o portão se abriu novamente. Um homem gordo, de rosto redondo e olhos pequenos, usando chapéu marrom e túnica de seda, saiu apressado acompanhado por um velho de azul, que parecia o mordomo.

— São os nobres imortais do Templo Chunqiu? Perdoem o criado, que foi indelicado. Não pude recebê-los adequadamente, rogo-lhes que me perdoem! — disse o homem, vendo que o Daoísta Luo permanecia de costas e mãos cruzadas, dirigindo-se a Shen Luo com extrema cortesia.