Capítulo cento e seis: A Tartaruga Marinha Gigante
Embora a tartaruga marinha não pudesse falar, por meio do tênue vínculo mental que ainda restava, ainda era possível perceber vagamente as simples variações emocionais dela.
— Se você ainda não tem nome, que tal eu te chamar de Pequeno Mar? — disse Shen Luo, curioso, aproximando-se e batendo levemente em seu casco.
A grande tartaruga hesitou por um momento, mas continuou subindo a margem.
— Não gostou? Que tal Pequeno Retorno? — Shen Luo a seguiu e perguntou novamente.
Ao ouvir esse nome, ele claramente sentiu uma mudança na emoção da tartaruga, parecendo até satisfeita.
— Quais são suas habilidades? Pode me mostrar? — indagou Shen Luo casualmente.
A tartaruga parou de se mover, virou a cabeça para olhar Shen Luo por um instante, depois voltou a encarar um pedra próxima e de repente abriu a boca, lançando um jato.
Os olhos de Shen Luo se turvaram por um instante, e uma luz branca disparou da boca da tartaruga.
No instante seguinte, ouviu-se um som nítido de impacto vindo da pedra.
Apressado, ele se aproximou e, com surpresa, viu que a pedra, a dezenas de metros, estava perfurada por um orifício do tamanho de um polegar.
— O que é isso? Como conseguiu? — exclamou encantado.
Mal terminou de falar, outra luz branca disparou da boca da tartaruga, atingindo a pedra.
Ao lado do orifício original, imediatamente surgiu outro idêntico.
Desta vez, Shen Luo observou claramente que o jato branco não era outra coisa senão uma flecha d’água translúcida, com cerca de uma jarda de comprimento.
Ele pensou consigo mesmo que, embora pudesse controlar a água para disparar algo parecido, jamais conseguiria tamanha velocidade e precisão; a força explosiva dessa flecha d’água da tartaruga não era inferior ao seu golpe total.
— Muito bom, Pequeno Retorno! Tem mais alguma habilidade? Mostre para me impressionar — disse Shen Luo, sorrindo com entusiasmo.
A tartaruga retraiu a cabeça lentamente e foi rastejando até um ponto ensolarado na margem, onde se deitou imóvel para tomar sol.
Shen Luo tentou persuadi-la por um longo tempo, mas ao final percebeu que sua única habilidade era disparar aquela flecha d’água; nada mais.
Após acompanhar Pequeno Retorno por um tempo enquanto tomava sol, ele usou a técnica de comunicação espiritual para invocar uma caverna aquática e a enviou de volta.
Segundo o método anônimo que ele estudava, com sua força atual, a invocação dessa tartaruga era adequada; tentar obter mais criaturas aquáticas poderosas poderia resultar em riscos de contra-ataque, e por isso não era recomendável.
Nos dias seguintes, Shen Luo continuou a treinar diariamente na pequena lagoa atrás da montanha.
Com a ajuda das experiências vividas nos sonhos, o progresso na segunda etapa da técnica foi mais rápido do que esperava, embora ainda faltasse tempo para alcançar a perfeição.
Numa certa manhã, terminou cedo o treino e, em vez de retornar ao planalto de pedras, dirigiu-se diretamente ao pátio onde morava o mestre Luo Zhenren.
Ao chegar, viu o mestre parado no centro do pátio, com os olhos semicerrados, em posição de cavalo, as mãos à frente do corpo imitando uma pressão, mantendo-se imóvel, aparentemente praticando algum tipo de meditação estática.
Shen Luo hesitou à porta, sem saber se deveria chamar, quando Luo Zhenren abriu os olhos, olhou para ele e perguntou:
— Precisa de algo?
— Mestre Luo, seu discípulo tem um pedido — respondeu Shen Luo, fazendo uma reverência rápida.
— Entre e fale — disse Luo, abandonando a postura e caminhando para dentro da casa com as mãos nas costas.
Shen Luo cruzou o portão e o seguiu até a sala principal.
— Pelo seu ritmo respiratório e postura, parece que seu Pequeno Sol está avançando. Já teria alcançado a perfeição? Quer que eu lhe ensine a técnica da Espada Pura Yang? Já disse antes que isso depende da vontade do templo, não crie muitas expectativas — comentou Luo Zhenren ao sentar-se.
— Mestre, houve um engano. O Pequeno Sol ainda não está perfeito, e não vim por isso; só quero pedir uma técnica marcial de defesa do nosso templo — explicou Shen Luo rapidamente.
Depois da luta com a raposa demoníaca no sonho, ele sentiu falta de uma técnica de defesa verdadeira, pois em situações perigosas suas opções eram muito limitadas.
Sua técnica anônima ainda estava em fase inicial e pouco potente, e desenhar talismãs levava tempo; uma técnica marcial seria um bom auxílio para enfrentar ameaças como os ratos zumbis.
— Uma técnica marcial? — Luo Zhenren arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Sim. Peço que me ensine o “Punho do Sol Verde” — disse Shen Luo, fazendo uma reverência.
— Se quer aprender o Punho do Sol Verde, não é impossível. Essa técnica não exige muito do praticante, basta ter a energia Yang Gang no corpo — Luo Zhenren ponderou.
Vendo que o mestre estava aberto, Shen Luo sorriu e continuou:
— Sinto que meu corpo está muito melhor. Agradeço seus cuidados e do templo. Já enviei uma carta para casa e meu pai em breve trará uma pequena oferenda para o templo. Espero que não se incomode.
Ao ouvir isso, Luo Zhenren acariciou os bigodes e sorriu, levantando-se para ir ao interior.
Pouco depois, voltou com um livro fino de capa verde.
— O “Punho do Sol Verde” não é difícil de aprender, mas cuidado: se algo não entender, pergunte ao irmão Tian, que pratica há anos e tem experiência — disse Luo Zhenren, entregando o livro.
— Muito obrigado, mestre. Guardarei com zelo — respondeu Shen Luo, recebendo o livro com as duas mãos.
— Mais uma coisa: embora essa técnica maximize o uso da energia Yang Gang, ela também a consome muito. Use com cautela — alertou Luo Zhenren.
— Pode confiar, mestre. Agirei com moderação — respondeu Shen Luo respeitosamente.
— Na verdade, sempre admirei sua dedicação. Se não fosse assim, não teria falado tanto hoje. Você tem limitações naturais, uma pena — disse Luo Zhenren, olhando para ele.
— Agradeço, mestre Luo, guardarei suas palavras! Também tenho algumas dúvidas para confirmar — disse Shen Luo, observando a expressão do mestre, que não indicava pressa para dispensá-lo.
— Diga — respondeu Luo Zhenren, sentando-se novamente.
— Mestre, existem mesmo esses gênios da cultivação que avançam mil passos num só dia? — perguntou Shen Luo.
— Gênios assim existem, mas são raríssimos, surgindo talvez uma vez a cada centenas de anos. Geralmente são antigos mestres renascidos ou possuem o chamado “corpo do Dao” — explicou Luo Zhenren, surpreso, mas disposto a esclarecer.
— “Corpo do Dao”? Existe mesmo tal coisa? — indagou Shen Luo, admirado.