Capítulo Quarenta e Um: O Mestre Verdadeiro de Fanyang
Os olhos de Shen Luo brilharam, fixando-se intensamente no mapa.
Segundo o que estava registrado nos livros, o local onde ficava o Rio Luan Shui era ainda mais próximo do que ele imaginava, a cerca de duzentos li do Condado de Chunhua.
Shen Luo largou o livro, mergulhando em profunda reflexão.
—Irmão Shen, —nesse instante, uma sequência de batidas fortes soou à porta, acompanhadas de uma voz do lado de fora.
Shen Luo se levantou ao ouvir, abriu a porta do quarto e viu um jovem robusto à soleira: era Tian Tiesheng.
—Irmão Tian, sua Palma do Sol Nascente já está quase perfeita. A porta do meu quarto é só de madeira, não aguenta esses seus golpes—, disse Shen Luo, cumprimentando-o com um sorriso.
—Não zombe de mim, irmão Shen. Meu talento para as artes marciais nunca foi grande, mesmo que eu pratique a Palma do Sol Nascente por mais dez anos, não devo alcançar a perfeição—, Tian Tiesheng respondeu, rindo amargamente antes mesmo de poder abrir a boca, já tendo sido alvo da provocação de Shen Luo.
—Irmão, és modesto demais. Veio até aqui por algum motivo? —Shen Luo o convidou para entrar, perguntando.
—Dias atrás ouvi o irmão Bai dizer que não estavas bem. Hoje, ao terminar a aula matinal, não te vi no Salão do Imperador de Jade, e o irmão Lin do quarto ao lado disse que não saíste desde cedo. Por isso, vim ver como estavas. Ora, tua aparência realmente não está boa. Estás doente? —Tian Tiesheng indagou ao notar o semblante abatido de Shen Luo.
—Agradeço a preocupação, irmão. Não dormi bem esta noite, mas não é nada demais—, respondeu Shen Luo, sem intenção de comentar sobre o travesseiro de jade, explicando de modo superficial.
—Que bom que não é grave. Deves descansar mais e não te extenuares. Já está quase na hora do almoço, vamos juntos—, disse Tian Tiesheng, olhando o tempo e parecendo acreditar na explicação.
Shen Luo também sentia fome e, assim, seguiu com Tian Tiesheng até o refeitório.
—Irmão Tian, nosso mestre está fora há alguns dias. Sabes quando retorna? —indagou Shen Luo.
Seu corpo já estava recuperado, mas os eventos após despertar dos sonhos, ainda inquietavam seu coração. Achava que o Daoísta Luo poderia perceber seu estado físico.
Sem esclarecer isso, não ficaria em paz.
—O mestre desceu a montanha para exorcizar um espírito na cidade de Dingyuan, não é longe. Deve estar para voltar. Tens algo para tratar com ele? —perguntou Tian Tiesheng.
—Tenho dúvidas sobre o cultivo, queria pedir-lhe conselhos...—após ouvir que o Daoísta Luo estava para regressar, Shen Luo ficou aliviado, explicando superficialmente.
No entanto, no meio da frase, toda a energia de seu corpo pareceu sumir de repente. O mundo ao seu redor girou violentamente e, com um baque, caiu de costas no chão.
—Irmão Shen, o que houve? —Tian Tiesheng se assustou, apressando-se a segurá-lo.
O corpo de Shen Luo tremia incontrolavelmente. Sentia como se uma imensa cavidade tivesse se aberto em seu interior, devorando sua força vital de maneira voraz, causando-lhe uma dor indescritível, ainda mais intensa do que nos sonhos anteriores, e, sem conseguir emitir um som, sentiu que viver era pior do que morrer.
Felizmente, nesse instante, tudo à sua frente ficou turvo, e uma escuridão infinita engoliu sua consciência. Desmaiou.
...
Não se sabe quanto tempo passou, mas, aos poucos, sua percepção retornou. Uma corrente quente fluía em seu corpo, trazendo um conforto imenso. Lentamente, abriu os olhos.
Acima de si via um teto desconhecido. No centro, estava inscrito um grande caractere “Dao”, rodeado por um círculo de arabescos verdes. Fora deste, um quadro roxo maior, cujos cantos ostentavam desenhos dos quatro animais sagrados: Dragão Verde, Tigre Branco, Pássaro Vermilion e Tartaruga Negra.
Recém-desperto, diante daquele teto estranho, Shen Luo sentiu-se desorientado, a mente confusa, sem saber o que ocorrera.
—Irmão Shen, acordaste? —uma face surgiu em seu campo de visão, fitando-o de cima. Era Tian Tiesheng.
—Irmão Tian, o que aconteceu? —vendo Tian Tiesheng, as lembranças do ocorrido voltaram-lhe rapidamente. Tentou erguer-se.
—Não te mexas! —uma voz austera o deteve.
Shen Luo desviou o olhar e viu, ao lado, um ancião de cabelos grisalhos, de estatura imponente.
Ele trajava uma túnica verde-escura de sacerdote taoista, usando uma coroa de lótus límpida. Seu semblante era severo, sobrancelhas caídas e inclinadas, conferindo-lhe um ar assustador, como um espírito enforcado.
—Grão-Mestre! —ao reconhecer o ancião, Shen Luo ficou surpreso e não ousou mover-se.
Era Fengyang, o verdadeiro mestre do Templo da Primavera e Outono.
Só então percebeu que o mestre Fengyang mantinha os dedos da mão esquerda pressionados sobre certo ponto de seu peito, de onde um brilho vermelho pulsava, transmitindo ao corpo de Shen Luo uma corrente cálida e contínua.
Logo sentiu uma leve picada na região lombar. Olhando de lado, viu que o mestre segurava, com dois dedos da mão direita, uma agulha dourada brilhando em vermelho, cravada em um ponto vital de sua lombar, girando delicadamente entre os dedos.
Em seguida, deparou-se com uma cena que quase o fez gritar.
Na região entre a cintura e o abdômen, havia dezessete ou dezoito agulhas douradas fincadas densamente, todas irradiando uma luz avermelhada.
Shen Luo logo percebeu que o mestre devia estar aplicando uma técnica secreta de acupuntura, não ousando interromper, embora a apreensão o tomasse.
“O que houve com meu corpo? Bem, pensar nisso agora não adianta. Já que o mestre Fengyang está me tratando, provavelmente ficarei fora de perigo.”
Pensando assim, lançou um olhar ao redor. O salão era amplo, paredes brancas e sem muitos ornamentos, simples e sóbrio.
Diante da porta principal, uma imponente mesa de oferendas sustentava os altares dos Três Puros: o Venerável do Princípio Primordial, o Venerável do Tesouro Sagrado e o Venerável da Virtude, transmitindo majestade.
À frente dos altares, seis grandes cadeiras de sândalo estavam alinhadas, três de cada lado, provavelmente para reuniões. O leito onde Shen Luo repousava ficava encostado à parede esquerda do salão.
Fora isso, nada mais havia no recinto, conferindo-lhe um aspecto austero e solene.
Shen Luo reconheceu o local: o Salão Jingjing, no Templo da Primavera e Outono, onde apenas estivera uma vez, ao ser aceito como discípulo. Depois, nunca mais tivera acesso ali.
O mestre Fengyang, alheio ao olhar curioso de Shen Luo, continuou com a acupuntura. Em pouco tempo, mais cinco ou seis agulhas foram aplicadas em sua cintura.
Logo, uma sensação de calor espalhou-se da região abdominal para o corpo inteiro, trazendo um conforto indescritível.
A fraqueza foi se dissipando, e a palidez de seu rosto deu lugar a um tom mais saudável.
Fengyang lançou um olhar à sua face, recolheu os dedos da mão esquerda e, com um gesto no ar com a direita, da palma emergiu uma aura avermelhada.
As mais de vinte agulhas douradas saíram zunindo do corpo de Shen Luo e sumiram na manga do mestre.
—Agradeço, Grão-Mestre—, disse Shen Luo, ainda um pouco debilitado, esforçando-se para sentar e saudando-o com respeito.
—Já ouvira de Luo que teu corpo não andava bem, mas não imaginei que estivesse tão debilitado. Não sei como vieste a praticar. Uma mera Pequena Técnica da Transformação Solar e já sofreste reversão de energia. Que raro alguém conseguir sequer iniciar esse método—, comentou o mestre Fengyang, observando-o com um leve resmungo.
—O quê? Reversão de energia? —Shen Luo ficou atônito, como se atingido por um raio.
—Grão-Mestre, o problema do irmão Shen é grave? —Tian Tiesheng, ao ouvir isso, mudou de fisionomia, perguntando aflito.
—O que achas? O pulso dele está completamente desordenado, com uma perda severa de energia vital — sintomas claros de reversão de técnica! —respondeu Fengyang, fitando Tian Tiesheng.
—Irmão Shen, se tinhas dúvidas sobre o cultivo, por que não consultaste o mestre? Como pudeste praticar de modo imprudente? Energia vital não é algo que se recupere facilmente... —lamentou Tian Tiesheng, batendo o pé.
—Grão-Mestre, a perda de energia vital pode afetar minha longevidade? —Shen Luo respirou fundo, tentando acalmar a mente perturbada, e perguntou ao mestre Fengyang.