Capítulo Vinte e Um: Um Sonho
Ao amanhecer, o canto límpido dos pássaros ecoou, e um raio de sol atravessou os galhos do Pinheiro da Boas-Vindas, esgueirando-se pela fresta da janela semiaberta e iluminando o rosto de quem estava deitado na cama.
Shen Luo teve um leve espasmo nas pálpebras, entreabriu os olhos por um instante e imediatamente levou a mão ao rosto para protegê-los da claridade.
— Ai...
Ao levantar o braço, uma dor muscular, aguda e súbita como cãibras, tomou conta de seu corpo, trazendo-lhe a plena consciência. Uma onda intensa de pânico subiu-lhe do peito; num salto, ergueu-se na cama, encolhendo o corpo e olhando ao redor, aflito.
Não muito longe dali, junto à parede à sua frente, havia uma mesa estreita com uma pilha de livros antigos e gastos; logo adiante, lado a lado, estavam uma janela e uma porta — tudo extraordinariamente familiar.
No rosto de Shen Luo brotou uma expressão de êxtase; ele baixou os olhos para examinar o próprio corpo.
As roupas estavam intactas. Embora tomado por uma dor muscular insuportável, não havia um arranhão sequer — o desconforto lembrava mais o cansaço após esforço físico excessivo do que qualquer ferimento real.
O cheiro umedecido de mofo, misturado ao aroma conhecido de sândalo, invadiu-lhe as narinas, arrancando-lhe um espirro.
Só então Shen Luo acreditou, de fato, estar em seu quarto no Observatório da Primavera e Outono, e não naquela aldeia fantasmagórica e carregada de maus presságios.
— Tudo o que aconteceu ontem à noite não passou de um pesadelo! — murmurou, apalpando o leito de madeira sob si, sentindo o alívio percorrer-lhe o corpo; as cenas da noite anterior ainda vívidas em sua mente, dando-lhe a estranha sensação de ter atravessado séculos.
Ao erguer a manga para enxugar a testa, percebeu que esta e as têmporas estavam encharcadas de suor frio. Até as costas estavam úmidas, as roupas coladas à pele, o que o deixava bastante desconfortável.
Sentou-se desnorteado por alguns minutos, só então notando que já havia passado do horário em que, invariavelmente, costumava se levantar; estava prestes a perder até mesmo os exercícios matinais de cultivo.
— Foi apenas um sonho... — sussurrou para si, tentando se convencer à força. Movimentou o corpo e desceu da cama.
Mal seus pés tocaram os sapatos de tecido azul e ele tentou se firmar, as pernas fraquejaram e, sem forças, tombou para a frente. Tentou sustentar-se com os braços, mas estes também estavam fracos e sem vigor, e assim caiu pesadamente ao chão.
— Ai...
Gemeu de dor, lutando para se levantar, até conseguir sentar-se novamente à beira da cama.
Só então percebeu que havia algo realmente errado com seu corpo. Embora sua constituição já não fosse das melhores, agora estava, sem dúvida, exausto ao extremo.
— O que está acontecendo comigo? — pensou, tomado pelo medo. Não era possível que, após uma simples noite de sono e um pesadelo, estivesse tão debilitado.
Na verdade, desde que a energia sombria invadira seu corpo, Shen Luo não era estranho a pesadelos — sonhara com as coisas mais estranhas e bizarras, mas, refletindo bem, nada se comparava ao que sentira na noite anterior.
Além disso, se fora apenas um sonho, por que as lembranças eram tão vívidas e reais? E como explicar o cansaço físico, como se realmente tivesse travado uma luta feroz?
Mas, se não fora um sonho, qual seria a explicação? Será que ele realmente havia sonâmbulo descido a montanha, chegado até alguma vila e, em seguida, retornado, ainda em transe?
Mas isso também não fazia sentido. Na vila, chegara a perder a vida, o corpo foi tomado de feridas, as roupas em farrapos... não deveria estar inteiro agora, como estava.
Esses pensamentos deixaram Shen Luo com a expressão cada vez mais carregada, sentindo que a noite passada fora estranhamente absurda, a cabeça latejando.
Massageou as têmporas, reclinou o corpo para trás e acabou se jogando novamente sobre a cama.
Um “tum” surdo soou.
Shen Luo sentiu como se a parte de trás da cabeça tivesse batido em algo duro e, num sobressalto, sentou-se de novo, girando rapidamente para ver o que era.
No cabeceira da cama, repousava um objeto longo e retangular, de cor amarela — era o “tesouro” misterioso que encontrara antes: aquele antigo e enigmático travesseiro de jade. O travesseiro de vime, que costumava usar, havia sido empurrado para o lado, junto à parede.
Shen Luo ficou boquiaberto!
Na noite anterior, sem perceber, dormira usando o travesseiro de jade durante toda a noite!
Mas ele se lembrava claramente de tê-lo deixado sobre a mesa, junto à pilha de livros antigos, antes de dormir. Como teria ido parar à sua cabeceira?
— Será que... o pesadelo de ontem tem algo a ver com isso? Ou será que o travesseiro de jade carrega em si alguma energia impura?
Ele recordou-se de um relato nas “Crônicas do Mestre Celestial Zhang sobre a Subjugação de Demônios”, onde um estudante, em um passeio de primavera pelo distrito de Kai’an, em Lingnan, encontrou um antigo espelho de bronze às margens de um rio. Na parte de trás, em inscrições douradas, lia-se o nome “Despreocupado”. Pensando ser uma antiguidade, levou-o para casa e o guardou.
No entanto, o espelho abrigava o espírito de uma mulher. Em noites de lua cheia, ela saía do espelho para sugar-lhe a energia vital. Não fosse a passagem do Mestre Celestial Zhang por ali, que o salvou, o estudante teria morrido sem saber a causa.
Ao lembrar-se desta história, Shen Luo, mesmo fraco, levantou-se apressado, pegou um pequeno pincel de ponta de lobo sobre a mesa e, com o cabo, cutucou suavemente o travesseiro de jade sobre a cama.
O travesseiro apenas deslizou um pouco para trás, sem emitir brilho algum, nem liberar qualquer aura maligna ou fantasmagórica. Parecia um objeto comum.
Ainda inquieto, Shen Luo pegou um pequeno frasco de porcelana, despejou um pouco de cinábrio nas mãos, esfregou-as até cobrir toda a palma e, cuidadosamente, com a ponta do dedo indicador, tocou o travesseiro.
Além da frieza do jade, nada aconteceu.
— Será que fui possuído por algum espírito maligno sem perceber...? — murmurou, ainda preocupado, retirando a mão.
Após refletir brevemente, lançou um olhar ao travesseiro, foi até a porta, sentou-se no chão com as pernas cruzadas, juntou as mãos sobre o abdômen, concentrou o espírito e começou a praticar silenciosamente a Pequena Técnica de Transformação do Yang.
No entanto, perturbado pelo sonho da noite anterior, teve dificuldade em acalmar a mente e entrou em meditação apenas após longos dois períodos do relógio, conseguindo realizar, enfim, um ciclo completo da técnica.
A circulação da energia foi fluida, a força vigorosa de Yang percorreu todo seu corpo.
Ao terminar, Shen Luo abriu lentamente os olhos, soltou um longo suspiro — e só então sentiu o peso desaparecer de seu coração.