Capítulo Vinte: Mestre do Som do Trovão

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4157 palavras 2026-01-30 16:18:17

A menina ficou imóvel, olhando para as mãos vazias, com os olhos arregalados de surpresa.

— Ai...

Uma voz de gemido soou ao lado, era o ancião deitado na cama do quarto, que soltou um longo suspiro.

Ao ouvir o som, o rosto da menina se iluminou de alegria; ela rastejou até a beira da cama, usando mãos e pés.

O velho abriu os olhos lentamente, após algumas leves tremulações nas pálpebras.

...

A noite passou rapidamente; a luz da manhã começou a despontar, o sol ergueu-se em rubro, e a tempestade que assolava lá fora já havia cessado.

A porta rangeu ao abrir-se.

A luz cálida invadiu o interior, revelando um mundo claro e límpido; a névoa ao redor do vilarejo já havia se dissipado em grande parte, restando apenas alguns vestígios ao longe.

A menina trocara de roupa, vestindo agora uma túnica vermelha desbotada e carregando um fardo remendado nas costas; apoiava o velho, caminhando devagar para fora.

O ancião vestia uma túnica longa de tecido cinza, já um tanto puída. Seu semblante mostrava-se melhor do que na noite anterior, mas movia-se com dificuldade, apoiando-se numa bengala de madeira polida pelo uso.

Ambos saíram, dirigindo-se para a entrada da aldeia.

O velho parecia extremamente frágil; mal chegaram ao portão e já lhe faltava o fôlego.

— Ah, ah... — a menina balbuciou, gesticulando com as mãos.

— Não se preocupe, querida; embora aquela fantasma de cabelos longos tenha sido eliminada, o miasma dos espíritos ainda não se dissipou. Logo atrairá outros seres; precisamos partir imediatamente — disse o velho, afagando a cabeça da menina.

Ela assentiu obediente.

Continuaram a caminhar. Após alguns passos, uma luz azul desceu repentinamente do céu, pousando próxima a eles, de onde surgiu uma figura graciosa.

Era uma monja taoísta, vestida de branco, aparentando cerca de trinta anos; rosto oval, pele alva e beleza notável, mas com expressão fria e severa, exalando uma aura cortante pouco comum entre mulheres. Em sua mão, segurava um espanador branco.

— Que miasma espesso! Está quase se tornando uma neblina espiritual. Mas por que não encontro o espírito que deveria habitar este lugar? — murmurou ela, olhando ao redor.

O velho e a menina ficaram imóveis, surpresos diante da aparição celestial.

— São moradores desta vila? — perguntou a monja, aproximando-se e observando-os com atenção.

— Este humilde velho saúda a senhora celestial — respondeu o ancião, recuperando-se do choque e preparando-se para se ajoelhar diante da monja.

Mas, debilitado, mal se curvou e já começou a tossir intensamente.

A menina apressou-se a bater nas costas do velho, mas, sendo pequena e fraca, tinha dificuldade em sustentá-lo apenas com uma mão.

— Não se preocupe, senhor; sou Rayin, da Montanha das Nuvens Flutuantes. Ao passar por aqui em minha jornada, percebi o acúmulo de miasma e desci para investigar — disse a monja, erguendo a mão esquerda e, com um gesto, estabilizou o corpo do ancião à distância; com a direita, cumprimentou-o com respeito.

— Sim, sim, senhora celestial; qualquer pergunta que desejar, este velho responderá com sinceridade — disse o ancião, recuperando o fôlego e acenando com a cabeça.

A menina, escondida atrás do avô, agarrava sua manga, olhando curiosa para a monja de branco com olhos grandes.

— Pelo que vejo, são mesmo moradores daqui. Esta vila foi atacada por espíritos malignos? — perguntou a monja, observando o fardo da menina.

— Sim, meu nome é Sun, sou conhecido como Velho Sun. Esta é minha neta. Somos nativos de Vila Zhang. Antes, tínhamos a proteção de um guardião, o Grande Rei da Cauda Amarela. Apesar da vida simples, vivíamos em paz, sem ataques de criaturas ou espíritos. Mas há um mês, durante uma tempestade, nosso protetor morreu de repente. Depois disso, apareceu uma fantasma de cabelos longos, que vinha todas as noites buscar almas e matar moradores. Os outros fugiram ou foram mortos aos poucos por ela; apenas eu e minha neta sobrevivemos — disse Velho Sun com um suspiro triste.

— Grande Rei da Cauda Amarela? — a monja ergueu as sobrancelhas.

— Era um cão amarelo que havia se tornado espírito — respondeu o velho, hesitando.

— Entendo. Espíritos que protegem os vivos não deixam de trilhar o caminho justo. Se morreu durante a tempestade, provavelmente tentou superar a tribulação da transformação com a força do trovão e falhou — ponderou a monja.

O velho ouviu, mas não compreendeu, e não ousou perguntar.

— Vocês, um idoso e uma criança, com saúde frágil, como sobreviveram quando todos os outros pereceram? — a monja questionou, com um brilho agudo nos olhos.

— Bem... O Grande Rei da Cauda Amarela colocou seu altar perto de nossa casa. Talvez, mesmo após sua morte, ainda nos proteja. Além disso, temos sangue de cão preto em casa; talvez isso tenha nos garantido até agora — respondeu Velho Sun, pensativo.

A monja balançou a cabeça, não convencida, e examinou ambos, detendo-se na menina.

— Hum! — seu olhar se concentrou, observando a menina por alguns instantes, e então tocou o ar com os dedos.

Uma luz branca pura saiu de sua ponta e, num lampejo, penetrou no centro da testa da menina.

A menina parou, os olhos ficaram turvos, e uma tênue luz branca brilhou em seu rosto.

— Um corpo de Tigre Branco nato! Não admira que resistiu ao miasma por tanto tempo... Excelente, excelente... — disse a monja, com alegria nos olhos.

A luz se dissipou rapidamente, mas as faces da menina ficaram ruborizadas, e ela desmaiou, caindo ao chão.

— Senhora celestial! — Velho Sun se alarmou, tentando socorrer a neta, mas mal conseguia ficar em pé.

— Não se preocupe, ela apenas adormeceu, não há perigo — explicou a monja, amparando-o.

O velho, aliviado, respirou fundo.

— Matar todos os moradores desta vila... Que audácia! Sabe onde aquela fantasma de cabelos longos se esconde durante o dia? Irei exterminá-la e devolver a paz às almas de Vila Zhang — a monja declarou, envolta por uma aura ameaçadora e uma luz azulada.

— Agradeço imensamente, senhora celestial. Mas, segundo minha neta, aquela criatura foi vencida ontem à noite por um jovem que passou por aqui — disse Velho Sun, com lágrimas de gratidão.

— Como era esse jovem? Tinha alguma característica especial? — A monja mudou o espanador de mão, curiosa.

— Estive doente nos últimos dias, inconsciente na noite passada, não vi o jovem. Quando minha neta acordar, poderá perguntar a ela — respondeu o velho.

A monja assentiu, desistindo do assunto, e disse:

— Embora o espírito tenha sido eliminado, este lugar já não é seguro. Venham comigo; buscaremos outro lugar para morar.

— Muito obrigado, senhora celestial! — exclamou Velho Sun, agradecendo profundamente.

A monja agitou o espanador, fazendo surgir uma nuvem branca que envolveu os três, levando-os aos céus, desaparecendo rapidamente no horizonte.