Capítulo Quarenta e Oito: Yu, o Audaz
O empregado girou os olhos e uma expressão de dificuldade surgiu em seu rosto.
Ao perceber a situação, Shen Luo logo entendeu e, discretamente, retirou de sua manga um pequeno pedaço de prata, colocando-o sobre a mesa.
O empregado lançou um olhar rápido, seus olhos imediatamente brilharam, e ele estendeu a mão para pegar o dinheiro.
“Primeiro me diga o que quero saber”, disse Shen Luo, cobrindo levemente a prata com a mão, um sorriso gentil estampado no rosto.
“Bem... Se não me falha a memória, só existe uma família de sobrenome Yu, que trabalha como barqueiros no trecho das Águas dos Juncos Amarelos. Ali, o rio se estende por mais de dez quilômetros, repleto de recifes e pedras traiçoeiras, além de uma correnteza forte. Só mesmo o homem da família Yu consegue navegar por aquelas águas.” O empregado pigarreou, recolheu a mão e falou de má vontade.
Shen Luo ficou satisfeito com a resposta, pegou a prata e a depositou na mão do empregado, mas sem soltá-la de imediato, continuando a perguntar:
“Onde ficam as Águas dos Juncos Amarelos? É fácil de achar?”
“É fácil, fácil. Saia pelo portão oeste da cidade e siga para sudoeste por cerca de cinquenta ou sessenta li. Se não encontrar o caminho, basta perguntar por aí, diga que está à procura de Yu Destemido.” O empregado, sentindo o frio da prata em sua palma, abriu um largo sorriso e respondeu rapidamente.
“Muito obrigado, meu rapaz”, disse Shen Luo, sorrindo e soltando a prata.
“Que isso, senhor, se precisar de mais alguma coisa, é só perguntar. Só lembre-se de que ultimamente os portões da cidade têm fechado cedo, geralmente já estão fechados à hora do cão. Se for passear, fique atento ao horário para voltar.” O empregado, sorrindo de orelha a orelha, agradeceu repetidas vezes e guardou a prata.
Shen Luo acenou com a mão e o empregado se retirou curvando-se.
Após a refeição, Shen Luo selou o cavalo e deixou a cidade, rumando para o sudoeste. Depois de cerca de meia hora, chegou à margem do rio.
O Rio Luan recebia vários afluentes em seu curso superior, tornando sua superfície bem larga. Em ambas as margens, diques de pedra e bancos de areia artificiais estavam cobertos de olmos e salgueiros robustos, com ramos densos e longos que balançavam incessantemente ao vento de verão.
Seguindo pela margem, Shen Luo caminhou por mais de dez li até perceber que o leito do rio começava a se estreitar pouco a pouco; a superfície, antes ampla, tornava-se dezenas de metros mais estreita, o que fazia com que a correnteza, antes tranquila, se tornasse cada vez mais forte.
Quanto mais avançava, começaram a surgir bancos de areia à tona, cobertos por densos tufos de juncos verdes que, ao vento, produziam um som incessante de “flauta”. De tempos em tempos, aves aquáticas levantavam voo ou pousavam entre os juncos.
Cavalgou por mais dez li até finalmente avistar, não muito distante da margem, um velho olmo de dezenas de metros de altura, sob cuja sombra fora erguido um simples abrigo de palha.
Perto dali, junto à água, estava amarrada uma pequena canoa de teto preto, ao lado da qual fincava-se uma vara de bambu de mais de dez metros de comprimento.
Aproximando-se, Shen Luo desmontou do cavalo a certa distância do olmo e, segurando as rédeas, se dirigiu ao abrigo.
“Barqueiro, está aí?” chamou Shen Luo em voz alta, do lado de fora da cabana.
“Sim, já vou!” respondeu uma voz áspera lá de dentro.
Logo após, um homem de meia-idade, de compleição robusta, saiu do abrigo.
Shen Luo examinou o homem de cima a baixo e, apesar de sua pele chamuscada pelo sol, achou seus traços faciais semelhantes aos de Yu Meng, o que o fez suspeitar que aquele poderia ser um ancestral da família Yu.
“Posso perguntar se o senhor é o barqueiro Yu?” perguntou Shen Luo.
“Haha! Senhor, nesta parte do Rio Luan, no trecho do condado de Songfan, existe outro Yu Destemido além de mim?” O homem respondeu com orgulho.
“Vim justamente por causa da fama do senhor”, replicou Shen Luo, sorrindo.
“Senhor, pretende atravessar o rio? Mas trazer um cavalo pode ser complicado, meu barco não aguenta o peso de um animal”, disse o homem, autodenominado Yu Destemido, avaliando Shen Luo com certo constrangimento.
“Não quero atravessar o rio, só gostaria de alugar o barco por uns dias. Quanto ao preço... podemos negociar”, respondeu Shen Luo, piscando.
Ao ouvir isso, Yu Destemido fitou Shen Luo de cima a baixo, sem entender o que aquele jovem de aparência abastada pretendia fazer.
Shen Luo apenas sorriu, esperando pacientemente que Yu Destemido se pronunciasse.
“Senhor, pela sua aparência, parece não ser daqui, não é? As Águas dos Juncos Amarelos não são lugar para passeios. Apesar de a paisagem parecer bonita, o fundo do rio está cheio de correntes traiçoeiras e pedras; há um grande banco de pedras no meio. Até um barqueiro experiente pode se acidentar. Alugar um barco para ir sozinho não é boa ideia”, aconselhou Yu Destemido, franzindo o cenho.
“Não se preocupe, sei nadar bem. Quero apenas dar um passeio entre os juncos, apreciar a paisagem e voltar”, respondeu Shen Luo.
“Se o senhor quiser só apreciar a paisagem, posso levá-lo de barco, cobrando apenas a travessia de ida e volta. Sai mais barato e é bem menos perigoso, o que acha?” insistiu Yu Destemido.
“Senhor, não dê ouvidos a esse cabeça-dura...” Antes mesmo que Shen Luo pudesse responder, uma voz feminina e ansiosa soou de dentro da cabana.
Logo após, saiu uma mulher de meia-idade, vestida com roupas rústicas e um pano na cabeça, exibindo uma barriga saliente.
Sua pele mostrava o tom avermelhado de quem já enfrentou muitos dias sob o sol e o vento.
“Vejam só, que moço bonito!” exclamou a mulher ao ver Shen Luo.
Shen Luo apenas sorriu, sem se importar.
“O que está fazendo aqui fora? Vai pegar vento!”, disse Yu Destemido, apressando-se para ir ao encontro da mulher, a preocupação estampada no rosto.
Ela, porém, lançou-lhe um olhar fulminante, afastou sua mão e disse:
“Você, homem do campo, não entende o que é elegância? Este jovem quer passear sozinho entre os juncos, vai que, inspirado, componha um poema famoso em todo o império. Você, bruto, quer ir junto só para atrapalhar?”
Shen Luo percebeu que a mulher queria apenas garantir o aluguel do barco, mas não comentou, sorrindo: “A senhora está brincando, só quero espairecer um pouco, não tenho talento para poesias...”
Ao ouvir isso e vendo a esposa insistente, Yu Destemido não teve escolha senão ficar calado.
“Então, jovem, por quanto tempo vai querer o barco? Apesar de não ser muito grande, temos bastante trabalho ao longo do dia. O senhor não vai nos prejudicar, não é?” perguntou a mulher, sorridente.
“Quero alugar por três dias, a partir de agora até esta hora daqui a três dias. Pago dez taéis de prata, que me diz?” perguntou Shen Luo, acariciando o queixo.
“Quanto...?” A mulher ficou pasma, não esperando tamanha generosidade.
“Dez taéis de prata”, repetiu Shen Luo.
“Não pode... é demais!” exclamou Yu Destemido, sacudindo as mãos.
“É verdade... é muito dinheiro! Com isso daria até para comprar o barco. Um tael já seria suficiente”, admitiu a mulher, mesmo sendo gananciosa.
“Não precisa se preocupar, senhora. Dei-me bem com o senhor Yu, então considero os dez taéis como um presente de amizade. Considerem o barco alugado”, disse Shen Luo, sem dar chance de recusa.
“Moço, que nobreza de espírito! Com tamanha generosidade, certamente terá uma vida longa e próspera...” A mulher não cabia em si de felicidade, olhando Shen Luo cada vez com mais simpatia.