Capítulo Vinte e Nove: Era Ele?

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4221 palavras 2026-01-30 16:18:44

— Espere um instante, irmão Shen — disse Yu Meng, parando repentinamente ao passar por um beco e voltando-se para Shen Luo.

— Fique à vontade, irmão Yu — respondeu Shen Luo.

Yu Meng entrou rapidamente no beco e sua figura logo desapareceu.

Shen Luo permaneceu parado, observando o ambiente ao redor, recordando as cenas que vira anteriormente e ponderando, em silêncio, como deveria abordar Yu Meng em sua casa para lhe perguntar sobre alguns assuntos.

— Irmão, por favor, pode me dar algo para comer? Já faz dois dias que não como nada — uma voz delicada e trêmula soou ao lado de Shen Luo, que estava imerso em seus pensamentos.

Ele se voltou, e viu uma menina de sete ou oito anos, parada timidamente a certa distância.

Ela vestia uma camisa curta de tecido grosseiro, suja e remendada; era tão larga que os braços e as pernas magras ficavam expostos. Em suas mãos, segurava um tigela quebrada, olhando para Shen Luo com olhos cheios de esperança.

— Não tenho comida nem dinheiro comigo… — Shen Luo, tocado pela súplica da menina, enfiou a mão no bolso, remexendo sem encontrar nada, demonstrando que não possuía bens.

— O que houve, irmão Shen? — a voz de Yu Meng ecoou, e ele saiu apressado do beco.

Agora, Yu Meng trazia dois longos sabres negros na cintura, mais estreitos que a lâmina de decapitação de cavalos que usara antes, porém mais compridos, cruzados nas costas. Seu casaco estava volumoso, como se guardasse algo.

Ao ver Yu Meng — e principalmente as armas — a menina assustou-se, virou-se e fugiu.

— Ah, tempos difíceis… o povo sofre… Vamos — suspirou Yu Meng ao presenciar a cena.

Shen Luo observou a pequena figura fugindo, sentindo um nó no peito, incapaz de definir aquela sensação.

Os dois seguiram adiante e logo deixaram o bairro.

À frente, havia mais árvores na beira da estrada, e o caminho tornou-se estreito, rodeado por casas e quintais.

Ali, as ruas estavam ainda mais desertas, as portas das casas fechadas, o chão coberto de folhas caídas que dançavam ao vento, sem sinal de terem sido varridas há muito tempo.

Pouco depois, Shen Luo acompanhou Yu Meng até um amplo casarão. No portal, a placa ostentava a inscrição: “Residência Yu”.

A mansão, voltada para o sul, tinha um portão largo o suficiente para passar quatro ou cinco pessoas lado a lado. As portas, ainda cobertas de tinta dourada apesar de já descascada, emanavam uma aura imponente. À entrada, duas estátuas de leão de pedra, pintadas de vermelho e com quase seis metros de altura, destacavam-se entre as casas vizinhas, como garças entre galinhas.

— Irmão Yu, vejo que é filho de uma família abastada — comentou Shen Luo, sorrindo.

— Tudo obra de meu pai, que fez questão dessa ostentação. Mas hoje, com o mundo tomado por demônios e o caos reinando, de que serve tanta pompa? — respondeu Yu Meng, prestes a empurrar o portão, quando passos apressados chegaram: eram os três criados que se aproximavam.

Yu Meng recuou a mão e foi ao encontro deles.

— Senhor, já levamos Tian Chong para casa e entregamos o dinheiro de condolências — relatou o criado de rosto escuro, fazendo uma reverência.

— Obrigado, vocês trabalharam muito. Podem descansar — Yu Meng assentiu, com um olhar melancólico.

Os três criados cumprimentaram Shen Luo com um aceno discreto e se dispersaram.

— Irmão Shen, preciso ausentar-me por um instante, voltarei logo — disse Yu Meng, após hesitar brevemente.

— Vá cuidar de seus assuntos, irmão Yu — respondeu Shen Luo, sabendo que Yu Meng iria à casa de Tian Chong e não tendo intenção de impedi-lo.

Yu Meng fez uma reverência e partiu apressado, seguindo o caminho dos criados.

Shen Luo acompanhou com o olhar até que Yu Meng sumiu de vista, suspirou em silêncio e ficou esperando diante do portão da residência Yu, observando o ambiente e entretendo-se com a paisagem.

Pouco depois, Yu Meng voltou, os olhos ligeiramente vermelhos.

— Desculpe pela espera, irmão Shen. Venha, vamos entrar — disse, com certa vergonha.

Avançou alguns passos e bateu à porta.

— Senhor, voltou! — exclamou um rapaz gorducho, de quinze ou dezesseis anos, sorrindo. Ao ver Shen Luo, seus olhos ágeis demostraram surpresa, mas ele não perguntou nada.

— Meu pai já está em casa? — perguntou Yu Meng, agora mais tranquilo.

— Sim, está na sala interna — respondeu o rapaz, voltando o olhar.

— Este é meu novo amigo, Shen Luo. Xiao Shun, vá arrumar o quarto de hóspedes — ordenou Yu Meng, conduzindo Shen Luo para dentro.

O pátio era composto por três áreas, com uma disposição rigorosa, telhados altos e muros robustos, imponente em sua arquitetura.

No entanto, algo chamou a atenção de Shen Luo: não havia um único criado no vasto pátio, que parecia desolado; desde que entrou, só vira Xiao Shun.

Lembrou-se de sua própria casa em Chunhua, igualmente suntuosa, mas cheia de criados e servas.

Após atravessar dois pátios, chegaram ao amplo salão principal, cujo piso era de pedra azul, polida como um espelho e dura como ferro; mesas e cadeiras de madeira preciosa, e nas paredes laterais, peças de antiguidades decoravam o ambiente, tudo disposto com grande riqueza.

No fundo do salão, diante de um biombo com relevo, erguia-se uma estátua imponente, não representando divindades taoístas, mas um erudito de meia-idade, de barba longa, segurando um pincel, dotado de um ar refinado.

Diante da estátua, uma mesa de oferendas repleta de velas e incensos, com fumaça perfumada serpenteando no ar.

A estátua, o altar e o luxo do salão destoavam, formando uma cena estranha, até mesmo ridícula.

Shen Luo não pôde deixar de expressar surpresa ao ver aquela decoração.

Ele vinha de uma família de comerciantes respeitada, sabia que os ricos prezavam pelo requinte e pela fachada, cada detalhe dos salões era cuidadosamente arranjado para receber convidados — como explicar aquela disposição?

— Não repare, irmão. Meu pai é um estudioso do Dao, age conforme o momento, e a casa ficou meio bagunçada — riu Yu Meng, percebendo que não só Shen Luo achava aquele ambiente peculiar.

— De forma alguma, o senhor Yu tem um estilo único, digno de um grande mestre. Ele está disponível agora? Gostaria de cumprimentá-lo — respondeu Shen Luo, curioso pelo homem que transformara o salão numa espécie de templo.

— Na verdade, você já o viu — disse Yu Meng, piscando com ar misterioso.

Shen Luo ficou surpreso e ia perguntar mais quando uma voz envelhecida ressoou do lado de fora:

— Meng’er, seu pestinha, onde estava se metendo? Chega tarde e me faz esperar! Comprou o que lhe pedi?

Junto à voz, entrou um homem baixo e gordo.

Shen Luo voltou-se e, ao reconhecer o recém-chegado, ficou boquiaberto.

Era ele!

O homem era justamente o velho de aparência pomposa, vestindo sedas douradas, que estivera entre os mestres imortais no topo das muralhas da cidade e salvara Yu Meng.

Agora, segurava uma cabaça de vinho vermelha, com o rosto ruborizado e olhos turvos, visivelmente embriagado, parecendo um velho comum e beberrão — nada da aura altiva de um mestre imortal que exibira na cidade.