Capítulo Vinte e Oito: Ruas Desoladas
— Irmão Shen, pelo visto hoje não vamos conseguir beber este vinho. Diga-me onde está hospedado, outro dia venho procurá-lo, e então beberemos até nos fartarmos — disse Yu Meng, desviando o olhar e dando um tapa amigável no ombro de Shen Luo.
— Para ser sincero, irmão Yu, acabei de chegar à cidade, quanto ao local onde estou hospedado... — Shen Luo forçou um sorriso amargo, respondendo de maneira evasiva.
— Ah, então não és daqui, mas mesmo assim vieste arriscar a vida defendendo a cidade. Que coragem, que irmão valoroso! — Yu Meng ficou surpreso, mas logo ergueu o polegar para Shen Luo.
Os outros três acompanhantes também olharam para Shen Luo com expressões mais calorosas.
— Irmão Yu, não exagere. Só estou tentando me proteger, fazendo o que posso — disse Shen Luo, acenando com as mãos.
— Haha! Atualmente, homens com esse sangue nas veias, como tu, são mesmo raros! Se ainda não tens onde ficar na cidade, por que não vens comigo para casa? — Yu Meng riu alto, depois pareceu se lembrar de algo e perguntou.
— Na verdade, ainda não procurei hospedagem. Então, aceito o incômodo, irmão Yu — Shen Luo, cheio de dúvidas, aproveitou a oportunidade para concordar.
— Que incômodo? Somos irmãos, não precisa dessas formalidades. Venha! — Yu Meng arqueou as grossas sobrancelhas e passou o braço pelo ombro de Shen Luo.
Os dois e seus acompanhantes seguiram pela muralha até a torre de canto. Quando iam descer a escadaria, viram três ou cinco soldados, trajando armaduras padronizadas, ajudando um homem de meia-idade, gordo e ofegante, a subir para o alto da muralha.
Shen Luo inclinou a cabeça e observou: o homem tinha a pele alva, um bigode curto e amarelado, e vestia uma armadura evidentemente apertada, parecendo um pedaço de carne gorda espremido numa carapaça de tartaruga — completamente desproporcional.
O grupo do homem gordo também avistou Yu Meng e os outros, que vinham descendo, e parou onde estava.
— Abram caminho para os bravos guerreiros — disse o homem gordo, olhando para o cadáver de Tian Chong, mudando levemente de expressão e levantando a mão.
Os soldados logo o conduziram para o lado da muralha, abrindo passagem.
— Levem primeiro o corpo de Tian Chong — ordenou Yu Meng aos demais.
Os três acompanhantes responderam e, carregando o cadáver, desceram pela escadaria.
Ao passar pelo homem gordo, este, ao ver o sangue já enegrecido na bandeira, começou a suar frio.
Shen Luo seguiu Yu Meng até o lado do homem.
— Senhor Liu — cumprimentou Yu Meng, juntando os punhos.
— Oh, sobrinho Yu... — respondeu apressado o homem, tirando um lenço de seda para enxugar o suor da testa.
— Foram muitos os monstros que invadiram as muralhas desta vez, e muitas as carcaças deixadas para trás. Precisam ser removidas o quanto antes, para que o povo possa continuar dividindo-as como provisão. Além disso, os trechos danificados da muralha devem ser reparados rapidamente — disse Yu Meng, olhando mais uma vez para o alto da muralha.
— Não se preocupe, já mandei gente cuidar disso — apressou-se a responder o Senhor Liu.
Yu Meng assentiu e, sem mais palavras, continuou descendo da muralha com Shen Luo.
O Senhor Liu ainda quis dizer algo, mas, vendo Yu Meng se afastar sem olhar para trás, engoliu as palavras, enxugou o suor mais uma vez e, apoiado pelos soldados, seguiu para o alto da muralha.
— Quem é esse Senhor Liu? — perguntou Shen Luo ao descer.
— Liu Fu, o magistrado de Donglai — respondeu Yu Meng, despreocupado.
— Então é o oficial responsável por assuntos militares e civis da região — comentou Shen Luo, sentindo-se intrigado.
Yu Meng, embora não parecesse um simples jovem defensor da cidade, tampouco exibia o ar de quem ocupava cargo oficial. Por que então o Senhor Liu parecia tão constrangido diante dele?
— Oficial responsável? Ele é só um letrado frágil. Julga pequenas brigas e disputas, mas, em tempos como estes, é uma piada. Toda a defesa de Donglai está relaxada; se não fossem os jovens e fortes da cidade segurando tudo, os soldados profissionais já teriam caído há tempo — resmungou Yu Meng, com desdém.
Shen Luo então entendeu por que Yu Meng não demonstrava respeito diante do magistrado.
— Mas, pensando bem, apesar de sua covardia, pelo menos não fugiu da cidade e, mesmo após a batalha, subiu à muralha para consolar o povo. Isso já o faz melhor que muitos oficiais dos condados vizinhos — suspirou Yu Meng.
— Tens razão — concordou Shen Luo, sentindo um pouco mais de compreensão pelo magistrado Liu. Em momentos de vida ou morte, quantos teriam coragem de enfrentar o perigo?
No entanto, outra dúvida começava a lhe martelar o peito. Segundo suas lembranças, Donglai ficava ao sul do condado de Chishui. Nunca estivera lá, mas jamais ouvira falar de ataques de lobos tão tenebrosos naquela região. Se algo assim tivesse ocorrido, logo o mundo inteiro saberia.
— Irmão Shen, vamos — disse Yu Meng, ao ver Shen Luo distraído.
...
No alto da muralha, Shen Luo sequer percebera o quão grandiosa era a construção. Agora, já dentro da cidade, pôde notar que Donglai era de fato imponente — as muralhas superavam em quase três metros as de Chunhua, sua terra natal.
As muralhas altas e espessas protegiam a cidade como montanhas. Mesmo desgastadas pela chuva e pelo vento, e com partes danificadas, ainda guardavam vestígios de imponência de tempos antigos.
A seus pés, uma larga avenida principal estendia-se em linha reta até o coração da cidade. Era larga o suficiente para quatro carroças lado a lado, mas o solo, mal conservado, estava todo esburacado.
Dos dois lados da via, as lojas eram mais espaçosas e as casas mais altas do que em Chunhua, embora tudo parecesse meio degradado.
A arquitetura era diferente também: em Chunhua tudo era sóbrio e simples, aqui, além da altura, as construções ostentavam muitos ornamentos nas beiradas, paredes e portas.
— Minha casa fica perto do Templo da Cultura. Venha comigo, irmão Shen — disse Yu Meng, guiando Shen Luo para o interior da cidade.
Enquanto seguia Yu Meng, Shen Luo observava tudo ao redor, sentindo uma estranheza crescente.
Era quase entardecer, o céu ainda claro, mas as ruas estavam desertas. A maioria das lojas estava fechada. Uma antiga grande taberna, outrora próspera, tinha as portas escancaradas, mas estava vazia, coberta de poeira, como se estivesse abandonada há tempos.
Só algumas lojas de cereais e mantimentos permaneciam abertas, mas quase sem clientes.
Entre os poucos que via, os homens vestiam túnicas e turbantes, com as barras mais curtas do que Shen Luo estava acostumado. As mulheres, com penteados altos, trajavam blusas curtas que deixavam pescoço e colo à mostra, e saias longas — um contraste gritante com os costumes de Chunhua.
O que mais o inquietava era a expressão apática das pessoas, especialmente seus olhos: cheios de medo e confusão.
Pelas calçadas, viam-se alguns miseráveis — velhos e crianças — mendigando sem serem notados, compondo um quadro sombrio e opressivo que fazia Shen Luo sentir um peso no peito.
— Será que este Donglai não é aquele do condado de Chishui que eu conheço? Afinal, onde estou? Ainda estou dentro das fronteiras do Reino Tang? — murmurou para si.
Yu Meng, por sua vez, parecia acostumado àquele cenário, caminhando decidido pelas ruas. Shen Luo engoliu as dúvidas e apressou o passo para não perdê-lo de vista.